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Ato de 8 de março em BH cobra resposta à escalada de feminicídios

Centenas de mulheres ocupam a Praça Raul Soares, em Belo Horizonte, na manhã deste 8 de março de 2026, para denunciar o feminicídio e a violência de gênero. O protesto, que reúne movimentos feministas, coletivos populares e lideranças políticas, transforma o Centro da capital em vitrine da pressão por políticas públicas de proteção às mulheres.

Praça tomada, vozes em coro e dados que escancaram a urgência

Desde as 9h, faixas, tambores e palavras de ordem tomam a região Central. O ato marca o Dia Internacional de Luta das Mulheres e também os dez anos da Casa Tina Martins, referência no acolhimento de vítimas de violência em Minas Gerais. A pauta é direta: parar a sucessão de assassinatos de mulheres e forçar o poder público a agir.

Cartazes com frases como “Parem de nos matar”, “Nenhuma morte esquecida” e “Criança não é mãe e nem esposa” se espalham pela praça e depois seguem pela Avenida Amazonas. A cada grito, dados recentes ecoam como pano de fundo: 8 em cada 10 feminicídios no Brasil são cometidos por parceiros ou ex-parceiros, e 62% das vítimas são mulheres negras. Metade desses crimes ocorre em cidades com até 100 mil habitantes, em um cenário em que só 5% desses municípios contam com delegacia especializada para mulheres.

O ato não é só memorial nem performático. É convocação política. Em meio às falas, a militante Paula Dornelas, do Movimento de Mulheres Olga Benário e da coordenação da Casa Tina Martins, insiste na presença contínua nas ruas como forma de pressão. “Ainda tem muita coisa para ser desenvolvida e nós, neste 8 de março, fazemos um chamado de que é possível esse enfrentamento à violência para além da punição, mas garantindo políticas públicas para as mulheres”, diz, ao microfone, sob aplausos.

As críticas se voltam também ao governo de Romeu Zema (Novo). Em diversos momentos, o coro “Fora Zema” se impõe sobre o trânsito e o burburinho do Centro. As manifestantes cobram ampliação de abrigos, delegacias especializadas, equipes multidisciplinares e orçamento específico para políticas de gênero. A Casa Tina Martins, que nasceu em 2016 com uma ocupação feminista em outro 8 de março, vira símbolo dessa agenda de enfrentamento e de organização de base.

Da desigualdade econômica à disputa por políticas públicas

Ao longo da manhã, a pauta da violência ganha camadas. Em sua fala, Paula relaciona diretamente feminicídio e condições materiais de vida. Lembra que, hoje, mulheres recebem cerca de 25% a menos que homens para o mesmo trabalho e que o abismo é ainda maior para mulheres negras. “Como uma mulher sai de uma situação de violência se o salário não paga o aluguel, se a cesta básica está cara e se não tem creche para deixar os filhos?”, questiona.

O tom é de denúncia, mas também de construção histórica. A advogada Cristiane Lara, que viaja de Itaúna, na Região Centro-Oeste de Minas, para participar do ato, faz questão de situar a mobilização numa linha do tempo de conquistas arrancadas com pressão social. “Os direitos das mulheres nunca vieram de forma espontânea. Eles sempre foram resultado de luta e de mobilização social”, afirma, ao lembrar o direito ao voto feminino em 1932, o Estatuto da Mulher Casada, a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio como crime.

Para ela, a caminhada pela Avenida Amazonas, apesar de simbólica, tem efeito concreto: mantém o tema no centro da agenda política e institucional. “Todas essas conquistas nasceram de indignação e organização. É por isso que a gente precisa continuar se movimentando. Essa caminhada aqui hoje é simbólica justamente porque mostra que a sociedade precisa seguir mobilizada para garantir e ampliar esses direitos”, diz.

A ex-deputada federal Áurea Carolina, pré-candidata ao Senado, também participa da manifestação e define o momento como “epidemia de feminicídios”. “A gente está atravessando uma verdadeira epidemia de feminicídios. É um problema que atinge mulheres, famílias e crianças, e precisa ser enfrentado como um compromisso de toda a sociedade”, afirma. Áurea leva o filho de seis anos, que segura um cartaz com a frase “Meninos e meninas contra a violência”. “Essa conversa precisa acontecer dentro de casa também. Sem um pacto social mais amplo, a gente não consegue enfrentar essa realidade”, completa.

Durante o trajeto, uma breve tensão com a Polícia Militar expõe o atrito entre o direito à manifestação e a rotina da cidade. Na altura da Rua Santa Catarina, policiais tentam limitar a passagem do grupo caso uma faixa da via não seja liberada para carros. Após alguns minutos de discussão entre organizadoras e agentes, o impasse se resolve e a marcha segue em ritmo de palavra de ordem.

Pressão nacional por resposta à violência de gênero

O ato em Belo Horizonte integra uma série de manifestações em diversas capitais e cidades de médio porte neste domingo. A escalada dos feminicídios, associada à precariedade das redes de proteção, empurra governos municipais, estaduais e federal para o centro do debate. A cobrança se concentra em três frentes: orçamento, estrutura e articulação entre Justiça, segurança pública e assistência social.

Na prática, o que as ruas pedem é mais do que leis já aprovadas no papel. Movimentos feministas cobram delegacias abertas 24 horas, casas de acolhimento em número suficiente, ampliação do monitoramento eletrônico de agressores, creches em tempo integral e políticas de emprego e renda para garantir autonomia financeira das vítimas. Sem isso, avaliam militantes e especialistas, o ciclo da violência se repete e a tipificação do feminicídio segue como resposta tardia, limitada ao momento em que o crime já aconteceu.

Cristiane Lara insiste que a defesa da vida das mulheres não se restringe a bandeiras partidárias. “Esse não é um movimento partidário. A violência contra a mulher não tem partido. É uma mobilização política no sentido de defender direitos e proteger a vida de todas as mulheres”, afirma. O recado mira tanto o Palácio Tiradentes, sede do governo mineiro, quanto o Congresso Nacional e câmaras municipais.

A presença de lideranças como Áurea Carolina e de articulações estaduais de advogadas, assistentes sociais e coletivos populares aumenta o alcance das pautas e fortalece pontes entre rua e instituições. O protesto deste 8 de março, em Minas e em outros estados, tende a alimentar debates legislativos, audiências públicas e novas propostas de políticas públicas ao longo de 2026.

O que fica depois do ato e o que ainda não tem resposta

Ao fim da marcha, a Praça Raul Soares volta gradualmente ao cotidiano de domingo, mas o recado permanece. As organizações prometem manter a pressão, com monitoramento de projetos de lei, cobrança por orçamento específico e fortalecimento de redes de apoio em bairros periféricos e cidades do interior, onde se concentram metade dos feminicídios do país e faltam delegacias da mulher.

O 8 de março de 2026 termina com uma pergunta em aberto, que atravessa cartazes e discursos: até quando a sociedade vai admitir que a cada novo caso de feminicídio a resposta chegue tarde demais? Enquanto governos definem prioridades orçamentárias e estratégias de segurança, movimentos feministas organizam o próximo passo, certos de que, sem pressão constante, a estatística segue falando mais alto que as promessas oficiais.

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