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Viagem de luxo de Vorcaro em iate de € 1,88 mi acirra investigação

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro gasta cerca de € 1,88 milhão (R$ 10,7 milhões) em uma viagem de luxo pelo Mediterrâneo em agosto de 2022. A Polícia Federal vê na temporada em um superiate de 95 metros, com festas exclusivas e presença de jovens modelos, um dos pilares da estratégia do então controlador do Banco Master para se aproximar de políticos e autoridades.

Verão de ostentação enquanto o banco afunda

A viagem à Riviera Francesa ocorre no momento em que o Master já enfrenta problemas de liquidez, confirmados depois pelo socorro de R$ 4,3 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos entre maio e outubro de 2025. Enquanto executivos do mercado observam com desconfiança a rotina de jatinhos, praias paradisíacas e clubes exclusivos, Vorcaro mantém um padrão de gastos que agora alimenta suspeitas sobre a origem do dinheiro.

Documentos das investigações da PF, aos quais a reportagem tem acesso, detalham que só o pacote da viagem à França em agosto de 2022 custa € 1,88 milhão. A locação do superiate Mad Summer, entre os dias 21 e 25, consome cerca de € 1,7 milhão, o equivalente a R$ 9,7 milhões no câmbio da época. O barco, hoje rebatizado como CC-Summer, tem 95 metros, dez suítes, piscina de 12 metros, spa completo, cinema, academia, heliporto e um piano de cauda branco como peça central da decoração.

Nesse cenário de luxo, o ex-banqueiro contrata uma estrutura de festas que inclui som, iluminação e translado de artistas, ao custo adicional de € 78 mil, quase R$ 480 mil. O DJ francês Saint Lanvain, referência na cena internacional de eletrônica e presença em eventos como o Festival de Cannes e o réveillon de Carneiros, em Pernambuco, comanda parte da trilha sonora no convés. Lanvain segue Vorcaro em uma rede social de perfil fechado, o que, para investigadores, aponta vínculos que extrapolam uma contratação pontual.

A engrenagem do luxo e a rede de relações

O roteiro mediterrâneo ajuda a iluminar como funcionam as engrenagens de influência em torno do ex-banqueiro. O promotor de eventos Diogo Batista, conhecido como “concierge dos VIPs”, organiza viagens, roteiros sob medida, fretamento de jatos e iates e festas em clubes de alto padrão na Europa e nos Estados Unidos. Segundo duas pessoas próximas ao Master, ele cuida de várias festas bancadas por Vorcaro, “regadas a bebidas e comidas caras, além da presença de mulheres jovens e bonitas”.

Um vídeo de Batista, que circula na internet desde novembro de 2025, mostra trechos da mesma viagem de 2022 e expõe o padrão de consumo. O promotor aparece ao lado de uma modelo sérvia, identificada pela reportagem, no Mad Summer e no clube de praia Verde Beach, na faixa de areia de Pampelonne, em Saint-Tropez. “O vídeo é uma viagem de Vorcaro no verão europeu, e Batista está lá porque era o promoter oficial do Banco Master”, afirma o empresário Luiz Guilherme Atalla Camasmie, sócio do serviço de notícias Market Live, que replica as imagens em seu canal.

Camasmie e o Master travam uma disputa aberta. O empresário acusa o banco de ser “a maior fraude” e relata ataques hackers após críticas à gestão de Vorcaro. O Master reage com notícia-crime por difamação. Com o avanço das investigações federais, Camasmie pede o arquivamento do inquérito contra ele. Na terceira fase da Operação Compliance Zero, a PF passa a apurar se Vorcaro mantém uma estrutura própria para derrubar atividades digitais de críticos.

As imagens da viagem, checadas pela reportagem, não são produzidas por inteligência artificial. O vídeo original não aparece mais no perfil público de Batista, mas fotos dele com a mesma modelo, em cenários semelhantes daquele verão europeu de 2022, seguem disponíveis. Números de telefone de Batista, de seus sócios e de Karolina Trainotti, apontada por fontes como “sugar baby” ligada a Vorcaro, constam na agenda do celular do ex-banqueiro, apreendido pela PF.

Após um desentendimento com Vorcaro em 2024, parte das funções de Batista no circuito de festas do Master passa, segundo pessoas próximas ao banco, para Karolina. Ela recebe, em 2024, um apartamento de quase R$ 4,4 milhões em São Paulo, doado pela Super Empreendimentos, empresa hoje investigada pela PF. A assessoria de imprensa de Vorcaro não se manifesta até a publicação desta reportagem; Batista e Karolina também não respondem aos pedidos de entrevista.

Impacto no sistema financeiro e dúvidas sobre a origem dos recursos

A discrepância entre a vida de ostentação de Vorcaro e a situação financeira do Banco Master intriga o mercado desde 2024. Vídeos do ex-banqueiro em clubes como o Casa Amor, também em Saint-Tropez, circulam em grupos de executivos, sempre acompanhados da mesma pergunta: como ele sustenta esse padrão enquanto o banco precisa de resgates bilionários para manter a porta aberta?

Quando o Banco Central decreta a liquidação do Master, em novembro de 2025, a suspeita ganha contornos mais duros. As apurações da PF investigam se recursos de empresas ligadas ao grupo e de operações financeiras irregulares ajudam a bancar iates, jatinhos, camarotes de carnaval e roteiros pela Riviera Francesa, Sardenha, Ibiza, Maiorca e litoral da Croácia. A hipótese é de uso indevido de fundos e de compra de influência política com festas exclusivas para autoridades e parlamentares.

A presença de promotores de eventos, modelos estrangeiras e influencers, pagos para frequentar esse círculo, reforça a percepção de que o luxo não é apenas capricho pessoal, mas ferramenta de poder. O caso reacende discussões sobre moralidade no sistema financeiro, transparência na relação entre bancos privados, reguladores e políticos, e sobre a fiscalização do patrimônio de controladores de instituições em crise.

Clientes e funcionários do Master convivem com outro contraste. Enquanto os convéses do Mediterrâneo exibem champagne em garrafas gigantes e gladiadores fantasiados desfilando bandeiras do Brasil, correntistas aguardam ressarcimento e funcionários enfrentam a insegurança do desemprego. Para especialistas ouvidos pela reportagem, o episódio tende a pressionar por regras mais rígidas de governança e monitoramento de sinais de enriquecimento incompatível em cargos de controle.

O que ainda está em jogo nas investigações

As próximas fases da Operação Compliance Zero devem aprofundar o rastreamento de pagamentos ligados às viagens de Vorcaro, incluindo a locação do Mad Summer, os contratos com DJs internacionais e as despesas em clubes como o Verde Beach. Investigadores tentam reconstituir quem participa das festas, quais autoridades são convidadas e se há contrapartidas em decisões regulatórias, políticas ou de negócios.

O caso se soma a outros episódios recentes que expõem distorções entre o padrão de vida de executivos do setor financeiro e a realidade de instituições fragilizadas. A pressão de parlamentares, associações de consumidores e de funcionários tende a crescer conforme novos detalhes vêm à tona, em especial sobre o papel de empresas como a Super Empreendimentos nas doações de bens de alto valor a pessoas próximas ao ex-banqueiro.

No centro da crise, a viagem de € 1,88 milhão pelo Mediterrâneo deixa de ser apenas uma temporada em alto-mar. Ela se converte em peça-chave de um quebra-cabeça que envolve suspeitas de fraude, abuso de poder econômico e tentativas de influenciar a alta cúpula da República. As investigações indicam o caminho do dinheiro; a dúvida que permanece é até onde esse rastro alcança.

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