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EUA e Israel intensificam bombardeios para derrubar regime iraniano

Estados Unidos e Israel conduzem, há uma semana, uma campanha de bombardeios maciços contra o regime dos aiatolás no Irã. A ofensiva, liderada pelo presidente Donald Trump, mata o líder supremo Ali Khamenei e mira a rendição total de Teerã.

Guerra declarada ao coração do regime

A frase de Trump na sexta-feira, 6 de março — “Não haverá acordo com o Irã, a não ser a rendição total” — transforma em doutrina o que já se vê no campo de batalha. Em sete dias, mais de 400 alvos militares iranianos são destruídos em uma única rodada de ataques, segundo o próprio governo americano. O foco não são apenas bases e depósitos, mas a cúpula que controla há quase meio século a teocracia xiita em Teerã.

Ali Khamenei, sucessor de Ruhollah Khomeini e líder supremo desde 1989, morre na primeira leva de bombardeios. Ao menos outros 50 integrantes do alto comando militar, do aparato de segurança e de milícias aliadas, como Hamas e Hezbollah, são “neutralizados” antes de o conflito completar uma semana. Sobra, no topo da hierarquia política formal, o presidente Masoud Pezeshkian, que passa a dividir as decisões com o chefe do Judiciário, Gholam Hossein Mohseni Ejeie, e o aiatolá Alireza Arafi, em um conselho emergencial que tenta preencher o vácuo deixado pela morte do líder supremo.

Trump apresenta a ofensiva como resposta tardia a décadas de ameaças. O Irã investe bilhões de dólares em seu programa nuclear e no financiamento de grupos armados na região, ao mesmo tempo em que enfrenta sanções que estrangulam sua economia. Para Washington e Jerusalém, o regime ultrapassa a “linha vermelha” ao insistir em se aproximar da capacidade de produzir uma bomba atômica e ao manter o discurso público de destruição de Israel e confronto permanente com os Estados Unidos.

Uma teocracia atingida, mas não desmontada

O alvo central da operação é o que oficiais americanos descrevem como a “cabeça da Hidra”: a estrutura clerical e militar que, desde 1979, se apoia na figura do líder supremo. A metáfora, repetida em briefings reservados, remete ao monstro da mitologia grega que recria cabeças a cada golpe de espada. A estratégia agora é cortar e cauterizar ao mesmo tempo, impedindo que um novo Khamenei surja com o mesmo poder e a mesma ideologia.

O secretário da Guerra dos EUA, Pete Hegseth, sintetiza a postura em entrevista na quarta-feira: “Estamos batendo enquanto eles estão caídos e vamos continuar atacando até decidir que está bom”. A frase explicita o desequilíbrio de forças. A superioridade tecnológica americana e israelense reduz sistemas de defesa antiaérea, centros de comando e infraestrutura de comunicações do regime em questão de horas.

Os ataques, porém, não são cirúrgicos o suficiente para poupar civis. Há relatos, ainda não confirmados por organismos independentes, de que uma escola de meninas é atingida em Teerã. Hospitais na capital e em cidades como Isfahan e Mashhad registram superlotação. Grupos de direitos humanos falam em milhares de mortos e deslocados em menos de dez dias. Os números oficiais, restritos pela censura interna e pela destruição de redes de comunicação, são considerados pouco confiáveis.

O regime responde com o que lhe resta. Mísseis de curto alcance e drones são disparados contra bases americanas na região, sobretudo no Iraque e no Golfo Pérsico. Milícias aliadas atacam alvos israelenses a partir do Líbano e da Síria. Até agora, as retaliações não alteram o balanço militar da guerra, mas mantêm o risco de uma escalada regional que envolva diretamente outras potências, como Rússia e China, aliadas de Teerã em fóruns internacionais.

Vácuo de poder e dilema da reconstrução

Com a elite clerical sob ataque, o Irã entra em uma zona cinzenta de governança. Não há, hoje, uma autoridade civil ou militar de peso que não tenha sido moldada durante décadas pelo mesmo fundamentalismo que Trump diz querer extirpar. A burocracia estatal, das forças de segurança aos tribunais locais, é treinada para obedecer, não para negociar um novo pacto político.

Analistas em Washington e em capitais europeias enxergam um paradoxo. A queda rápida do regime é vista como provável, mas quanto mais profunda for a destruição, mais longa tende a ser a transição para um Irã estável e reintegrado ao sistema internacional. A experiência recente do Iraque e do Afeganistão pesa. Em ambos os casos, a derrubada de regimes considerados hostis abre caminho para anos de ocupação, insurgências e reconstrução incompleta.

Trump, desta vez, evita falar em invasão terrestre prolongada. O presidente diz, em comunicado divulgado no domingo, 8 de março, que “esta é a maior oportunidade que o povo iraniano tem de recuperar seu país”. Setores do Partido Republicano, no entanto, defendem que o Pentágono esteja pronto para “entrar e ficar” se o colapso interno gerar caos imediato em Teerã. O senador Lindsey Graham resume, após conversar com o premiê israelense, Benjamin Netanyahu: “A questão não é se o regime do Irã cairá, mas quando”.

O cálculo estratégico vai além do Irã. Uma mudança de regime bem-sucedida, com baixo custo político e humano para Washington, redesenharia o tabuleiro do Oriente Médio. Um Irã menos hostil, reinserido no mercado global de petróleo e afastado de projetos nucleares militares, interessaria a Europa, à China dependente de energia e até a rivais regionais como Arábia Saudita. Nada disso, porém, está garantido. O tecido social iraniano carrega décadas de repressão interna, desigualdade, corrupção e um nacionalismo que pode se voltar contra qualquer força externa que tente dirigir o processo.

Entre a queda do regime e o dia seguinte

Os próximos dias devem definir se a ofensiva aérea basta para derrubar o núcleo duro dos aiatolás ou se os Estados Unidos decidirão cruzar a linha da ocupação. Generais americanos admitem, em conversas reservadas, que um colapso súbito do regime pode exigir presença em solo, ao menos em Teerã e em centros estratégicos, para impedir guerra civil e saques em massa.

Diplomatas europeus tentam manter canais com quadros técnicos iranianos considerados “recuperáveis” em um eventual governo pós-teocracia. A aposta é que parte da administração atual, hoje totalmente subordinada ao clero, possa se converter em base de um Estado menos ideológico e mais pragmático. Não há, por enquanto, sinal claro de uma liderança alternativa capaz de unir a oposição interna, o exílio e as potências estrangeiras.

No terreno, a população iraniana vive entre o medo dos bombardeios e a perspectiva de um futuro ainda indefinido. Manifestações contra o regime, reprimidas com violência nos últimos meses — mais de 60 mil mortos, segundo grupos de oposição —, tendem a ganhar novo fôlego se a ditadura der sinais concretos de desmoronamento. A mesma rua que pressiona por mudança, porém, pode rejeitar qualquer arranjo que pareça imposto de fora.

A guerra aberta contra o regime dos aiatolás entra, assim, em uma fase em que o poder de fogo já não é o único fator decisivo. A derrubada de Khamenei e de seus principais aliados altera o tabuleiro, mas não responde à pergunta central desta crise: quem, e em que condições, governará o Irã no dia seguinte ao silêncio das bombas.

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