PF tenta quebrar sigilo de iPhones de Mourão após morte em BH
A Polícia Federal tenta desbloquear dois iPhones 17 de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário” de Daniel Vorcaro, morto na noite de 6 de março, em Belo Horizonte. Os aparelhos são vistos como peça central para destravar a investigação sobre crimes financeiros, lavagem de dinheiro e atuação de organização criminosa ligada ao ex-CEO do Banco Master.
Corrida contra o tempo digital
Os celulares, ambos modelo iPhone 17 com sistema iOS.26, estão sob custódia da PF em Minas Gerais. Investigadores admitem, em caráter reservado, que não dispõem hoje de tecnologia capaz de romper o sistema de criptografia dessa geração de aparelhos, a mais avançada da Apple. Na prática, a polícia trava uma disputa silenciosa com a barreira digital que protege conversas, arquivos e registros de localização do principal operador de confiança de Daniel Vorcaro.
Mourão morre às 18h55 de sexta-feira, após a conclusão do protocolo de morte encefálica no Hospital João XXIII, onde está internado desde quarta-feira, 4 de março. Ele chega à unidade por volta das 17h56, levado sob escolta após, segundo a PF, tentar se enforcar com a própria camisa na cela da Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais. O corpo segue para o Instituto Médico Legal, enquanto os investigadores voltam as atenções para os dados que ele carrega nos bolsos.
O operador é preso na manhã do dia 4, em Belo Horizonte, durante a operação Compliance Zero, por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. A decisão o descreve como responsável por obter informações sigilosas, vigiar alvos e neutralizar situações consideradas sensíveis para o grupo investigado. Segundo a investigação, ele recebe cerca de R$ 1 milhão por mês para comandar uma estrutura dedicada a monitorar pessoas e levantar dados considerados comprometedores.
Os dois iPhones apreendidos com Mourão são tratados como arquivo vivo desse esquema. Neles, a PF espera encontrar registros de conversas, planilhas de pagamento, fotos de alvos e eventuais ordens diretas de Vorcaro e de outros integrantes da suposta organização criminosa. As mensagens já identificadas em fases anteriores da apuração mostram que, em diálogos com Vorcaro, Mourão discute desde o monitoramento de desafetos até propostas de violência física.
A engrenagem sob suspeita
As investigações miram um conjunto de possíveis crimes que vão de corrupção ativa e passiva à obstrução de Justiça, passando por lavagem de dinheiro, violação de sigilo funcional, fraude processual e delitos contra o sistema financeiro nacional. O alvo central é a atuação de um grupo que usa informações privilegiadas, ameaças e violência para proteger interesses de alto valor no mercado financeiro. A suspeita é de que a estrutura sob comando de Mourão funcione como um braço clandestino de inteligência e intimidação.
Mensagens obtidas pela PF indicam que o jornalista Lauro Jardim, de O Globo, entra no radar do grupo após publicar reportagens críticas a Vorcaro. Em uma conversa, o banqueiro sugere que o repórter seja seguido. Em outra, fala em agressão simulada em meio a um assalto forjado. Em diferentes momentos, Mourão recebe ordens para levantar dados de uma empregada e intimidar funcionários. O conjunto reforça, para investigadores, a ideia de uma engrenagem voltada a calar vozes incômodas e blindar o ex-CEO do Banco Master.
A morte de Mourão, ainda sob forte questionamento na opinião pública, elimina uma peça-chave da cadeia de comando, mas não encerra o caso. Em entrevista na quinta-feira, 5 de março, o advogado Robson Lucas da Silva rejeita a hipótese de execução planejada. “Não acredito em hipótese alguma. Essa possibilidade que se aventa na imprensa de queima de arquivo, eu não acredito piamente”, afirma. Ele insiste que o cliente está sozinho na cela quando, segundo a PF, decide usar a camisa branca para tentar se enforcar.
O episódio ocorre num momento em que o sistema financeiro volta a ser cobrado por mais transparência e mecanismos de controle interno. A investigação sobre Vorcaro e seus operadores toca em um ponto sensível: o uso de estruturas privadas, com recursos milionários, para influenciar decisões, intimidar críticos e, em tese, distorcer o funcionamento regular de instituições públicas. A eventual confirmação desse cenário tende a pressionar reguladores e bancos a revisar protocolos de governança e compliance.
O que pode mudar com o conteúdo dos celulares
O sucesso ou o fracasso na quebra do sigilo dos iPhones de Mourão pode alterar o rumo da investigação. Se a PF acessa os dados, ganha a chance de mapear com precisão a rede de contatos, identificar novos suspeitos, rastrear fluxos de dinheiro e comprovar ordens diretas para operações de vigilância e violência. Cada foto, áudio ou localização registrada nos aparelhos pode ser usado como prova em futuros processos criminais, inclusive em ações de grande impacto no setor financeiro.
Se a barreira técnica permanece intransponível, a apuração fica mais dependente de depoimentos, quebras de sigilo bancário e cooperação de outros investigados. A morte do operador reforça a urgência de preservar e analisar o que restou de material probatório. A dificuldade em acessar aparelhos de última geração, por outro lado, reacende o debate sobre os limites da criptografia forte em investigações criminais e sobre eventuais ajustes legais para equilibrar privacidade e interesse público.
Próximos passos e dúvidas em aberto
A PF ainda não detalha publicamente a estratégia para tentar decifrar os iPhones, mas deve acionar peritos internos, empresas especializadas e, se necessário, cooperação internacional. Técnicos trabalham com prazos apertados: embora os dados não se percam com a morte do dono, falhas de manuseio ou atualizações automáticas podem comprometer parte do conteúdo. A eventual necessidade de auxílio direto da Apple, que historicamente resiste a criar brechas em seus sistemas, adiciona uma camada diplomática a um caso já sensível.
Os próximos passos incluem novos pedidos ao Supremo, aprofundamento das quebras de sigilo financeiro e a reconstituição, peça por peça, da teia que liga Mourão, Vorcaro e outros nomes ainda discretos no inquérito. A morte encefálica do “Sicário” encerra a possibilidade de delação direta, mas amplia o peso das evidências digitais. Enquanto peritos avançam sobre os dois iPhones 17 em busca de uma senha ou de uma falha, a investigação tenta responder a uma pergunta que resiste à criptografia: até onde chega o alcance da estrutura montada em torno do ex-CEO do Banco Master.
