Empresas planejam data centers em órbita para turbinar inteligência artificial
Empresas de tecnologia como SpaceX e Google correm para tirar do papel, a partir de 2027, uma infraestrutura radical: data centers em órbita da Terra. A promessa é usar energia solar contínua no espaço para alimentar a explosão da inteligência artificial e driblar limites da infraestrutura em solo.
Energia infinita no espaço, pressão crescente na Terra
A corrida começa num momento em que a inteligência artificial deixa de ser promessa e vira um sorvedouro de energia em escala industrial. Gigantes de tecnologia já assinam acordos bilionários com governos para bancar usinas, redes de transmissão e parques renováveis dedicados a data centers. Nos Estados Unidos, o governo Donald Trump fecha nesta semana um pacto para que as big techs financiem a expansão da oferta elétrica, sob pressão de comunidades afetadas por novos empreendimentos.
Elon Musk tenta empurrar a fronteira um passo além. No início do ano, a SpaceX protocola na agência reguladora norte-americana de telecomunicações, a FCC, um pedido para operar uma constelação orbital de data centers com até 1 milhão de satélites interligados. A meta declarada é simples e ambiciosa: acessar energia solar quase contínua, sem nuvens, atmosfera nem ciclos de dia e noite, reduzindo a dependência de redes elétricas terrestres e das burocracias locais.
O bilionário afirma a investidores que, em três anos, essa infraestrutura poderia operar a custos menores que os dos data centers em solo. O histórico de promessas não cumpridas de Musk, porém, acende o alerta em analistas e reguladores. “Do ponto de vista conceitual, não é absurdo imaginar um data center em órbita, mas a conta econômica ainda não fecha”, resume, em ensaio no Financial Times, a pesquisadora Rebekah Reed, ex-diretora associada da Nasa e hoje em Harvard.
Gigantes entram na disputa, mas esbarram na física e no bolso
O Google escolhe um caminho mais contido, mas igualmente simbólico. A empresa prepara, por meio do projeto Suncatcher, o lançamento de dois satélites-protótipos em 2027, em parceria com a Planet Labs. Cada unidade levará chips próprios de IA, as TPUs, para testar o conceito de um data center distribuído no espaço, formado por constelações compactas de satélites que trocam dados entre si em tempo real.
Nos bastidores, executivos vendem a ideia como uma espécie de “nuvem fora da Terra”, capaz de rodar modelos avançados de IA longe das limitações de terrenos, licenças ambientais e disputas locais por linhas de transmissão. O sonho, porém, tromba de frente com o preço do foguete. Segundo Rebekah Reed, o projeto só começa a fazer sentido financeiro se o custo de lançamento cair para menos de US$ 200 por quilo — algo em torno de sete vezes abaixo dos valores atuais praticados por empresas como a própria SpaceX. Mesmo nos cenários mais otimistas, a marca não deve ser alcançada antes de 2030.
O desafio não termina no lançamento. Em um data center em São Paulo ou Virgínia, um técnico cruza o corredor em minutos e troca um chip defeituoso. Em órbita, qualquer falha exige manutenção robótica sofisticada, missões tripuladas raras ou simplesmente a aceitação de que a constelação vai envelhecer e acumular equipamentos obsoletos. “Sem um plano claro para consertar e substituir hardware, o espaço vira um depósito de sucata digital”, alerta um pesquisador ouvido por universidades europeias em estudos recentes sobre o tema.
Carbono, lixo orbital e uma órbita cada vez mais congestionada
A narrativa de que data centers espaciais seriam automaticamente “verdes” também começa a ruir. Pesquisadores da Saarland University, na Alemanha, calculam que, mesmo com painéis solares altamente eficientes em órbita, a pegada de carbono total da operação pode ser até dez vezes maior que a de um data center terrestre equivalente. No cálculo entram fatores pouco visíveis no discurso de marketing: a produção dos satélites, o combustível dos lançamentos, a construção da infraestrutura de solo e o descarte final dos equipamentos.
A conta ambiental inclui ainda o que acontece quando a vida útil de um satélite termina. Na reentrada, fragmentos metálicos e partículas de revestimento se dispersam na alta atmosfera. Cientistas correm para medir o impacto real dessa chuva de detritos sobre o clima e a camada de ozônio. Sem respostas consolidadas, a expansão de constelações voltadas à IA pode abrir um novo flanco de risco ambiental, menos visível que um oleoduto, mas potencialmente global.
O espaço por onde esses data centers orbitariam também está longe de ser vazio. A órbita baixa da Terra, alvo dos planos do Google e de parte do projeto da SpaceX, vive um congestionamento crescente. Satélites de internet, observação da Terra, defesa e pesquisa científica disputam faixas de altitude cada vez mais apertadas. Propostas que reúnem milhares de satélites a menos de 200 metros de distância uns dos outros levantam temores de colisões em cadeia, capazes de gerar nuvens de destroços que inviabilizem novos lançamentos por anos.
Reguladores nacionais e organismos internacionais, como a União Internacional de Telecomunicações, são pressionados a estabelecer limites de densidade orbital, regras mais duras para descarte em fim de vida útil e metas de redução de lixo espacial. A discussão envolve interesses bilionários e expõe um dilema incômodo: até que ponto faz sentido resolver o gargalo energético da inteligência artificial exportando seus custos ambientais para a órbita da Terra?
Indústria se aproxima do limite físico da nuvem
As apostas em data centers espaciais funcionam também como um sintoma. A indústria de tecnologia se aproxima de um teto físico, em que cada salto na capacidade de IA exige novas usinas, mais linhas de transmissão, mais água para resfriamento e mais territórios ocupados por galpões cheios de servidores. Em pouco mais de uma década, o setor passa de operações discretas para estruturas que disputam energia com cidades inteiras.
A ambição orbital reforça a sensação de que a nuvem, vendida como algo etéreo, na prática pesa toneladas e consome volumes colossais de recursos. Para as empresas, um projeto bem-sucedido em órbita significaria acesso privilegiado a energia estável e a uma vitrine tecnológica poderosa. Para governos e sociedade, o avanço sem freios pode significar mais emissões, mais sucata espacial e uma dependência ainda maior de poucos grupos privados que controlam a infraestrutura digital do planeta.
Os próximos anos devem ser decisivos. SpaceX tenta convencer reguladores de que consegue administrar com segurança uma megaconstelação de data centers em órbita. Google busca provar, com os protótipos de 2027, que a conta tecnológica fecha. Pesquisadores, ambientalistas e agências espaciais correm para medir impactos e propor normas antes que os projetos deixem o estágio de maquete.
No centro desse embate, uma pergunta ganha força: se a inteligência artificial já pressiona os limites de energia, clima e infraestrutura na Terra, faz sentido empurrar esse modelo para o espaço ou chegou a hora de repensar o tamanho da própria máquina?
