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Líbano avalia desarmar Hezbollah até 2026 para conter escalada com Israel

Autoridades libanesas avaliam iniciar, a partir de 2026, um plano de desarmamento do Hezbollah para conter a escalada de confrontos com Israel. A medida busca evitar uma nova crise interna e redesenha o equilíbrio de poder no país.

Pressão interna, fronteira em chamas e relógio até 2026

O debate que ganha força em Beirute nasce do medo de que a atual onda de ataques na fronteira com Israel mergulhe o Líbano em um novo colapso político e econômico. Os choques quase diários entre combatentes do Hezbollah e forças israelenses, registrados ao longo de 2024 e 2025, aumentam o risco de uma guerra em larga escala em um país já fragilizado por uma inflação que supera 200% ao ano e por sucessivos apagões de energia.

Integrantes do governo admitem, em caráter reservado, que o calendário de 2026 funciona como limite para uma decisão que evite um desastre maior. “Não podemos chegar ao fim de 2026 com a mesma lógica de milícias armadas paralelas ao Exército”, afirma um assessor de alto escalão, sob condição de anonimato. Ele diz que a discussão inclui um cronograma de desmobilização e integração de parte dos combatentes às forças oficiais.

O Hezbollah, apoiado militar e financeiramente pelo Irã desde os anos 1980, mantém um arsenal estimado em dezenas de milhares de foguetes de curto e médio alcance, segundo fontes de inteligência ocidentais. O grupo ganha protagonismo na guerra contra Israel em 2006 e, desde então, consolida-se como a força militar mais poderosa do país, superando, em número e capacidade de fogo, as Forças Armadas libanesas, que contam com cerca de 80 mil homens em serviço ativo.

Na prática, o Estado libanês convive há quase duas décadas com um ator armado que controla áreas inteiras do território, sobretudo no Sul e em bairros de Beirute. Esse arranjo entra em xeque à medida que bombardeios israelenses atingem áreas civis e forçam o deslocamento de milhares de pessoas. Organismos humanitários estimam mais de 150 mil deslocados internos desde o início da nova escalada, número que pressiona um sistema de saúde já em colapso.

Risco de ruptura interna e redesenho regional

A proposta de desarmar o Hezbollah mexe com o coração da política libanesa, onde o grupo detém cadeiras no Parlamento e influencia a escolha do primeiro-ministro e do presidente. Retirar suas armas significa desafiar não apenas uma organização militar, mas uma rede político-religiosa que se apoia em uma base xiita numerosa e organizada. Lideranças da comunidade alertam que qualquer tentativa de desarmamento imediato pode reacender confrontos sectários semelhantes aos de 2008, quando choques armados em Beirute deixaram mais de 60 mortos em poucos dias.

A conta política é delicada. Partidos cristãos e sunitas exigem há anos a implementação integral da resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em 2004, que pede o desarmamento de todas as milícias no país. O Hezbollah sempre argumenta que suas armas são “a única garantia real” contra Israel. Em discursos recentes, dirigentes do grupo insistem que qualquer discussão sobre desarmamento só faz sentido quando “o Líbano tiver um Estado forte e uma defesa nacional capaz”.

Diplomatas europeus descrevem o momento como uma janela rara de pressão internacional. Países que respondem por mais de US$ 10 bilhões em ajuda e crédito ao Líbano, acumulados desde 2020, condicionam novos pacotes a reformas políticas e de segurança. “A comunidade internacional não aceitará financiar a reconstrução de um país onde uma milícia tem liberdade para iniciar guerras”, diz um embaixador europeu em Beirute.

No tabuleiro regional, o desarmamento do Hezbollah enfraquece diretamente a influência do Irã no Mediterrâneo oriental e altera o equilíbrio com Israel. Em Teerã, analistas ligados ao governo veem a possibilidade como parte de uma estratégia coordenada de Washington e aliados para conter o que chamam de “eixo da resistência”. No lado israelense, militares consideram que a neutralização do arsenal do grupo reduziria em até 70% a ameaça de foguetes sobre o norte de Israel, segundo estimativas extraoficiais divulgadas em relatórios de segurança.

Negociações, resistência e a incerteza até 2026

Autoridades libanesas estudam diferentes modelos para enfrentar o impasse. Um dos cenários em discussão prevê um processo de três a cinco anos, começando em 2026, que combinaria entrega gradual de armamento pesado, registro estatal de armas leves e integração de parte dos combatentes ao Exército e às forças policiais. Outro modelo mira um acordo mais amplo, que ligaria o desarmamento a garantias internacionais de defesa do território libanês e a compensações financeiras diretas às comunidades afetadas.

Qualquer que seja o desenho, a resistência interna é certa. Dirigentes do Hezbollah afirmam em conversas privadas que não aceitarão “humilhação” nem imposições externas, segundo relato de mediadores árabes. A liderança teme perder poder de barganha diante de Israel e de rivais internos se entregar armas sem contrapartidas claras. Há o temor, ainda, de que grupos radicais menores ocupem o vácuo de segurança em áreas hoje controladas pelo movimento, repetindo o que ocorreu em outros conflitos do Oriente Médio.

Para a população libanesa, esgotada por mais de 15 anos de instabilidade, a discussão é menos ideológica e mais prática. Comerciantes do Sul do país relatam queda de até 60% no faturamento desde o início dos confrontos mais intensos com Israel. Jovens profissionais seguem emigrando em massa: apenas em 2025, estimativas independentes apontam mais de 70 mil saídas definitivas, número expressivo para um país de cerca de 5,5 milhões de habitantes.

O debate sobre o desarmamento se mistura à memória ainda viva da guerra civil, encerrada em 1990, quando uma média de 3 mil pessoas por ano morre em confrontos internos durante 15 anos. A lembrança funciona como freio e alerta. “O Líbano já pagou caro por guerras entre irmãos”, diz um ex-negociador do Acordo de Taif, que encerra o conflito. “Desarmar o Hezbollah sem provocar uma nova explosão interna é talvez o maior teste do nosso sistema político desde então.”

Os próximos meses definem se o plano de 2026 sai do papel ou segue como ameaça retórica em comunicados diplomáticos. Se o governo conseguir construir um consenso mínimo interno, com respaldo de parceiros árabes e ocidentais, o Líbano pode iniciar uma transição lenta para um monopólio estatal da força, como preveem suas próprias leis. Se fracassar, o país entra em 2026 sob o mesmo arranjo frágil que hoje sustenta a paz relativa, à sombra de um arsenal que, a qualquer disparo na fronteira, volta a lembrar que nada ali está definitivamente resolvido.

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