Ultimas

Guerra entre EUA, Israel e Irã mata 1,2 mil e redefine o tabuleiro no Oriente Médio

A guerra aberta entre Estados Unidos, Israel e Irã completa uma semana com mais de 1.200 mortos, o líder supremo Ali Khamenei morto e rotas estratégicas de petróleo sob ameaça.

Uma semana de ataques em cadeia

O conflito explode no sábado, 28 de fevereiro, quando Washington e Tel Aviv lançam um ataque conjunto em território iraniano. Mísseis, drones e operações aéreas e navais miram centros militares, bases de comando e instalações ligadas ao programa de mísseis do país persa.

Donald Trump, de volta à Casa Branca, descreve a ofensiva como um golpe para “devastar as forças armadas do país” e forçar uma mudança de regime. “O Irã rejeitou todas as oportunidades de renunciar às suas ambições nucleares. Os Estados Unidos não aguentam mais”, afirma, em vídeo publicado no Truth Social.

As explosões em Teerã e em cidades estratégicas como Qom marcam uma ruptura com ataques anteriores, realizados antes da alvorada. Desta vez, as bombas caem à luz do dia, diante de uma população que corre para abrigos enquanto a defesa aérea tenta responder à enxurrada de projéteis.

Horas depois, a mídia estatal iraniana confirma o que parecia improvável: Ali Khamenei, 86, líder supremo desde 1989 e figura central do regime, morre em seu escritório, atingido pelo ataque coordenado entre Estados Unidos e Israel. O governo decreta 40 dias de luto e sete dias de feriado nacional.

Imagens de satélite mostram fumaça saindo do complexo da liderança em Teerã. Trump celebra o resultado militar e político. “Isso é justiça não apenas para o povo do Irã, mas para todos os grandes americanos e para os povos de vários países ao redor do mundo que foram mortos ou mutilados por Khamenei e pela sua gangue de bandidos sanguinolentos”, diz.

No domingo, 1º de março, Teerã tenta reorganizar o topo do poder. O clérigo Alireza Arafi, aliado de longa data de Khamenei, é nomeado para o Conselho de Liderança, órgão que assume o papel de líder supremo até que a Assembleia de Peritos escolha um sucessor. Ele divide o comando provisório com o presidente Masoud Pezeshkian e o chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei.

A sucessão, porém, acontece sob fogo cruzado. O regime lança na região uma onda de retaliações sem precedentes. Mísseis e drones disparados a partir do território iraniano e de plataformas no Golfo miram países que abrigam bases americanas, como Emirados Árabes Unidos, Catar e Bahrein. Explosões são ouvidas nas praias de Dubai e nas ruas de Doha.

Estreito de Ormuz em xeque e Europa em alerta

O Irã anuncia, na segunda-feira, 2 de março, o fechamento do Estreito de Ormuz a navios dos Estados Unidos, Israel e Europa. A faixa de mar por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo vira o principal ponto de pressão do conflito. Qualquer interrupção ali mexe com preços globais, pressiona governos dependentes de energia importada e reacende o fantasma de choques do petróleo dos anos 1970.

Trump reage com ameaça direta. Diz que os Estados Unidos escoltarão navios “se necessário” e ordena que a Marinha amplie a presença na região. O movimento eleva o risco de incidentes em águas já congestionadas por embarcações militares, petroleiros e navios cargueiros.

Israel, por sua vez, tenta mostrar que o coração do regime iraniano está vulnerável. As Forças de Defesa de Israel anunciam, na terça-feira, 3, que desmontam o complexo de liderança do regime em Qom, a 150 quilômetros de Teerã. Uma fonte ouvida pelo jornal Times of Israel afirma que clérigos de alto escalão se reúnem ali para discutir o futuro comando do país quando o local é atingido.

Os custos da ofensiva para Washington começam a aparecer na quarta-feira, 4. O Departamento de Guerra informa a morte de dois militares após ataque iraniano ao porta-aviões USS Abraham Lincoln, no Golfo Pérsico. O número de soldados americanos mortos na retaliação iraniana chega a seis, somando baixas registradas desde domingo.

Trump promete vingança e autoriza, como parte da resposta, o ataque que afunda um navio de guerra iraniano próximo à costa do Sri Lanka. Mais de 87 militares morrem, dezenas seguem desaparecidos entre os cerca de 180 tripulantes. É o primeiro afundamento de uma embarcação militar por forças americanas desde a Segunda Guerra Mundial, um gesto calculado para mostrar capacidade de projeção em qualquer oceano.

A escalada não se limita ao eixo direto entre Washington, Tel Aviv e Teerã. A guerra empurra países europeus para uma zona de risco crescente. Um ataque de drone contra uma base britânica no Chipre leva o Reino Unido a reforçar a ilha com helicópteros de defesa antidrone e um navio de guerra que deve chegar em cerca de uma semana.

A França envia uma fragata ao Chipre e anuncia o deslocamento do porta-aviões nuclear Charles de Gaulle e de escoltas para o Mediterrâneo. O presidente Emmanuel Macron fala em reforços adicionais de defesa aérea. A Grécia mobiliza duas fragatas, Kimon e Psara, que atracam na ilha na quarta-feira, 4, ampliando o cinturão europeu em torno da zona de conflito.

No Golfo, a tensão segue em alta. Na quinta-feira, 5, nova leva de projéteis iranianos cruza o céu da região. O Ministério da Defesa do Catar relata 14 mísseis balísticos e quatro drones lançados contra o país. Treze são interceptados, o último cai em águas territoriais. Todos os drones são abatidos, sem registro de vítimas, segundo o governo.

Os Emirados Árabes Unidos afirmam que sistemas de defesa aérea derrubam mísseis e drones vindos do Irã. Moradores de Abu Dhabi relatam à Reuters pelo menos cinco explosões que fazem janelas tremerem na região da Corniche. No Bahrein, um ataque provoca incêndio em instalação industrial em Maameer, contido sem mortos, mas com danos materiais.

Sucessão em Teerã, pressão global e incógnitas

No centro da disputa está a vaga aberta no topo do regime iraniano. Trump diz ao site Axios, na quinta-feira, 5, que pretende interferir politicamente no processo. “O filho de Khamenei é inaceitável para mim. Queremos alguém que traga harmonia e paz ao Irã”, declara.

Mojtaba Khamenei, herdeiro político apontado há anos como possível sucessor do pai, sobrevive aos ataques, segundo fontes iranianas ouvidas pela Reuters. O nome dele segue no jogo, mas agora sob pressão direta de Washington e de facções internas que veem risco de nova rodada de sanções e isolamento caso a linha dura prevaleça.

A disputa interna em Teerã acontece enquanto o tabuleiro global se mexe. Reportagem do Washington Post, publicada na sexta-feira, 6, revela que a Rússia fornece ao Irã informações sobre a localização de navios e aeronaves dos Estados Unidos no Oriente Médio. Três autoridades citadas sob anonimato dizem que o Kremlin repassa dados de inteligência militar sensíveis. O grau de envolvimento russo ainda é incerto, mas o gesto amplia o temor de uma guerra por procuração na região.

Indagado sobre Rússia e China, aliados de Teerã, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, tenta minimizar o peso dos dois países. Afirma que “eles não são realmente um fator aqui”. A frase contrasta com a avaliação de diplomatas e analistas que enxergam, na aproximação entre Moscou, Pequim e Teerã, um eixo disposto a testar os limites da influência americana.

O impacto imediato da guerra aparece nas estatísticas e no mercado. Mais de 1.200 pessoas morrem em ataques diretos, bombardeios, afundamento de navios e retaliações em cadeia. O risco de fechamento prolongado do Estreito de Ormuz já pressiona contratos futuros de petróleo e alimenta temores de inflação em economias dependentes de energia importada, do sul da Ásia à Europa.

A cada novo ataque de míssil ou drone, cresce a chance de erro de cálculo. Uma interceptação malsucedida, um navio civil confundido com alvo militar ou um míssil que escape da rota prevista podem arrastar novos atores para uma guerra ainda restrita, formalmente, a três protagonistas.

Diplomatas falam, em privado, em janelas estreitas para negociação. A sucessão do líder supremo, a recomposição do comando militar iraniano e o custo político de recuos para Trump, para o governo israelense e para a elite de Teerã dificultam qualquer recuo rápido. A pergunta que se impõe, uma semana depois do primeiro ataque, é se alguém ainda controla o ritmo da escalada ou se o Oriente Médio entra em um ciclo de violência que outros já não conseguem interromper.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *