Trump diz que Cuba vive “últimos momentos” e fala em grande mudança
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma neste sábado (7) que Cuba vive seus “últimos momentos de vida” diante da prolongada crise econômica e política. Em discurso na cúpula com aliados latino-americanos, em Doral, na Flórida, ele diz esperar uma “grande mudança” na ilha e revela negociações em curso entre os dois países.
Crise em Cuba entra no centro da agenda de Trump
Trump convoca chefes de Estado e representantes de países latino-americanos para a reunião em Doral, cidade da região metropolitana de Miami onde a comunidade cubano-americana tem forte presença. Diante dos aliados, descreve um país à beira do colapso e insiste que o regime instalado em Havana não sustenta mais a pressão econômica e social.
“Eles não têm dinheiro, não têm combustível. Eles têm um regime ruim, que já está ruim há muito tempo”, afirma, ao justificar o diagnóstico de que o sistema cubano está em fase terminal. O presidente fala após uma semana marcada por relatos de apagões prolongados na ilha, filas para compra de alimentos básicos e cortes adicionais no fornecimento de combustível.
A fala ocorre num momento em que Washington volta a usar o tema Cuba como eixo da política para a América Latina. Desde o início do ano, autoridades dos dois países mantêm contatos discretos, e Trump decide levar as tratativas ao palco da cúpula para demonstrar protagonismo diante dos vizinhos. “Estamos aguardando a grande mudança que em breve chegará a Cuba”, diz, sem detalhar prazos ou formato dessa transição.
O presidente apresenta as negociações como fruto de uma iniciativa direta de seu governo. Segundo ele, representantes de Havana indicam disposição para rever pontos sensíveis da relação bilateral, congelada por décadas de sanções econômicas e trocas de acusações políticas. “Eles querem negociar e estão negociando com Marco (Rubio), comigo e com outros, e acredito que um acordo com Cuba seria facilmente fechado”, afirma.
Coalizão militar e disputa por influência na região
No mesmo discurso, Trump amplia o alcance da mensagem e tenta amarrar a crise cubana a uma estratégia mais ampla para a região. Ele anuncia a intenção de criar “uma nova coalizão militar” com países latino-americanos, dedicada a combater cartéis de drogas e o crime organizado transnacional. A proposta, apresentada como resposta à violência ligada ao narcotráfico, também mira atores que Washington classifica como hostis a seus interesses.
O presidente não divulga lista de países convidados nem metas numéricas para a coalizão, mas indica que busca apoio de ao menos uma dezena de governos. A promessa é de compartilhar inteligência, ampliar operações conjuntas e reforçar a presença militar em pontos estratégicos. Na plateia, diplomatas veem o anúncio como mais um movimento para conter a influência de regimes aliados da Rússia, da China e do Irã na América Latina, entre eles o governo cubano.
Trump também trata, ainda que de forma breve, do conflito com Teerã. Afirma que pretende manter as mortes de militares e civis americanos em ações contra o Irã “no mínimo”, sinalizando que não busca, neste momento, uma escalada imediata. A mensagem funciona como recado simultâneo a aliados latino-americanos, preocupados com a instabilidade global, e a adversários que observam a capacidade dos EUA de atuar em múltiplos teatros de crise.
As declarações sobre Cuba, porém, dominam os bastidores do encontro. Assessores diplomáticos calculam que qualquer mudança brusca em Havana pode redesenhar o tabuleiro político regional. A ilha convive com embargo americano desde o início da década de 1960, e tentativas de reaproximação, como a abertura ensaiada a partir de 2014, avançam de forma desigual. A nova rodada de conversas, se confirmada, recoloca na pauta temas como alívio de sanções, fluxo migratório e cooperação em segurança.
O que pode mudar para Cuba e para a América Latina
A leitura de Trump de que Cuba vive “últimos momentos de vida” não indica, até agora, um roteiro claro de transição política. Para diplomatas que acompanham a região há ao menos 20 anos, o recado principal está na combinação entre pressão e oferta de negociação. Ao expor em público que Havana busca um acordo, o presidente tenta elevar o custo de recuo para o regime cubano e, ao mesmo tempo, sinaliza espaço para concessões.
Se avançarem, as tratativas podem atingir pilares da relação bilateral, como restrições comerciais, limites a investimentos e regras para envio de remessas de cubano-americanos à ilha. Em 2025, essas remessas somam bilhões de dólares e funcionam como uma das principais fontes de divisas do país. Qualquer relaxamento adicional nas sanções tende a aliviar a escassez de produtos e o desabastecimento de combustíveis, mas também depende da resposta do governo cubano a exigências sobre abertura política e direitos civis.
A coalizão militar anunciada por Trump projeta impacto direto em fronteiras, portos e rotas aéreas da região. Países que aderirem podem receber reforço em equipamentos, treinamento e tecnologia de vigilância, enquanto enfrentam pressão política interna de setores que rejeitam maior presença dos Estados Unidos em assuntos de segurança. Organizações de direitos humanos já alertam que iniciativas do tipo costumam elevar o risco de abusos em operações contra grupos armados e comunidades vulneráveis.
Para Cuba, o cenário mistura risco e oportunidade. O aprofundamento da crise, com falta de combustível, queda na arrecadação em moeda forte e êxodo crescente para países vizinhos, deixa o regime mais exposto a pressões externas. Ao mesmo tempo, a disposição de negociar diretamente com Trump e com o secretário de Estado, Marco Rubio, abre uma janela rara para reconfigurar a relação com Washington depois de mais de seis décadas de atritos.
Pressão sobre Havana e incertezas sobre o desfecho
Trump transforma a cúpula de Doral em vitrine de sua política para o hemisfério. Ao apostar em frases de efeito e em anúncios de impacto, tenta ocupar o centro da cena diplomática em um momento em que crises simultâneas, do Caribe ao Golfo Pérsico, disputam atenção e recursos de Washington. A estratégia encontra eco entre lideranças latino-americanas críticas ao regime cubano, mas enfrenta resistência de governos que defendem diálogo sem condicionantes.
Nas próximas semanas, a atenção se volta para os sinais que virão de Havana. Gestos concretos de abertura econômica, alguma flexibilização do controle político interno ou novos pedidos de socorro a aliados tradicionais, como Rússia e Venezuela, indicarão o rumo escolhido pelo regime. Em Washington, a Casa Branca também terá de decidir se converte o discurso em medidas práticas, como ajustes no embargo ou convites formais para conversas de alto nível.
As palavras de Trump em Doral colocam Cuba diante de uma encruzilhada conhecida, mas agora sob pressão econômica ainda mais aguda. A promessa de uma “grande mudança” cria expectativa na comunidade internacional e entre milhões de cubanos que convivem com escassez diária e incerteza política. Resta saber se a retórica do presidente americano se traduz em um acordo capaz de alterar, de fato, a trajetória da ilha e o equilíbrio de forças na América Latina.
