Governo do Líbano avalia plano para limitar poder armado do Hezbollah
Autoridades libanesas discutem, nos bastidores, um plano para limitar o poder militar do Hezbollah em meio à escalada recente com Israel. A avaliação ocorre sob forte pressão interna e regional, em um momento em que o país tenta evitar nova crise armada em seu território.
Conflito na fronteira reacende debate sobre armas
O avanço das trocas de fogo entre o Hezbollah e as forças israelenses desde o fim de setembro recoloca a questão central da segurança no Líbano: um país com Exército frágil, economia em colapso e uma milícia fortemente armada que opera dentro e fora das fronteiras. Nos últimos dez dias, ataques de foguetes, drones e artilharia obrigam a retirada de milhares de civis das áreas de fronteira, em especial no sul do país, onde o grupo tem presença consolidada.
Integrantes do governo em Beirute discutem a possibilidade de combinar medidas políticas e de segurança para conter a escalada. A leitura dominante é que uma nova guerra aberta, semelhante ao conflito de 2006, pode empurrar o Líbano para um ponto de ruptura institucional em poucos meses, num país que ainda tenta se reerguer da explosão do porto de Beirute em 2020 e da crise bancária que, desde 2019, já derrubou o valor da moeda local em mais de 90%.
O Hezbollah mantém hoje um arsenal estimado por serviços de inteligência estrangeiros em dezenas de milhares de foguetes de curto e médio alcance, além de mísseis mais sofisticados, veículos aéreos não tripulados e unidades de combate com experiência em guerras na Síria. Esse poder militar desafia, na prática, a autoridade do Estado libanês e alimenta a percepção, em Israel e em capitais ocidentais, de que qualquer faísca local pode se transformar em confronto regional.
Equilíbrio delicado entre política e milícia
O plano em discussão não fala em desarmamento imediato, mas em “medidas graduais” para reduzir a capacidade de mobilização militar do grupo, segundo fontes políticas libanesas ouvidas sob condição de anonimato. A ideia é usar instrumentos de pressão institucional e negociação, sem arrastar o país para um confronto interno direto com a milícia xiita, que conta com apoio de parte significativa da comunidade xiita e ocupa hoje cerca de 13 das 128 cadeiras do Parlamento.
Dirigentes próximos ao primeiro-ministro reconhecem o risco. “Qualquer passo em falso pode reacender fantasmas da guerra civil e paralisar o Estado”, admite um conselheiro do gabinete, em referência ao conflito de 1975 a 1990, que devastou o país por 15 anos. O governo tenta calibrar o discurso: mostra que reage à escalada com Israel, mas evita ser visto como instrumento de pressões externas contra o Hezbollah e, por extensão, contra o Irã.
Teerã segue como principal patrono político e militar do grupo, com apoio financeiro e fornecimento de armas desde a década de 1980. Israel, por sua vez, acompanha cada movimento. Oficiais israelenses calculam que, em um cenário de ofensiva ampla a partir do Líbano, o Hezbollah seria capaz de lançar milhares de foguetes em poucos dias contra o norte de Israel. Uma mudança real na capacidade de fogo da milícia, ainda que parcial, teria impacto direto no cálculo militar israelense e nas margens de negociação de qualquer cessar-fogo futuro.
Dentro do Líbano, partidos cristãos e sunitas pressionam há anos pelo monopólio estatal da força, previsto na resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU, de 2004, que pede o desarmamento de todas as milícias no país. O tema volta ao centro da agenda com cada nova crise na fronteira. Desta vez, a combinação de colapso econômico, institucional e social torna o debate mais urgente e mais perigoso ao mesmo tempo.
Riscos de polarização e impacto regional
Uma tentativa de impor limites ao braço armado do Hezbollah pode redesenhar o mapa político libanês em poucos meses. Partidos aliados da milícia, que controlam ministérios-chave desde 2018, avaliam que um recuo militar forçado reduziria sua capacidade de barganha e exposição regional. Setores da sociedade civil, por outro lado, veem na discussão uma rara janela para reequilibrar o poder entre Estado e grupos armados, condição que consideram indispensável para destravar reformas econômicas e renegociar a dívida, que supera 180% do PIB.
Diplomatas europeus em Beirute descrevem o momento como “ponto de inflexão”. Em reuniões recentes com autoridades libanesas, o recado é direto: sem alguma forma de contenção do Hezbollah, novos pacotes de ajuda financeira e programas de reconstrução podem enfrentar resistências no Congresso dos Estados Unidos e em Parlamentos europeus. “A comunidade internacional não quer financiar um Estado refém de uma milícia”, resume um embaixador ocidental, em conversa reservada.
No tabuleiro regional, o Irã observa com atenção qualquer movimento que possa reduzir a profundidade estratégica de seu principal aliado na fronteira norte de Israel. Um enfraquecimento do Hezbollah mexeria no cálculo de Teerã em outras frentes, como Síria, Iraque e Iêmen, onde grupos alinhados ao regime iraniano também atuam em zonas de conflito. Analistas no Golfo avaliam que, se perceber ameaça real ao grupo, o Irã pode responder com aumento de apoio financeiro ou até com novas frentes de pressão militar indireta contra Israel e aliados ocidentais.
Israel acompanha o debate interno libanês como oportunidade e risco. Um Hezbollah mais contido militarmente reduziria a ameaça direta às cidades do norte israelense e poderia abrir espaço para negociações de fronteira mediadas por potências ocidentais em um horizonte de um a dois anos. Ao mesmo tempo, uma tentativa fracassada de desarmamento ou limitação de armas poderia desencadear uma guerra civil no Líbano e, por consequência, criar um ambiente ainda mais imprevisível na fronteira.
Pressão por decisões e incertezas à frente
O governo libanês trabalha com um calendário apertado. Interlocutores apontam uma janela de “semanas, não meses” para apresentar algum gesto concreto, seja na forma de proposta formal de diálogo nacional sobre armas, seja por meio de medidas de segurança mais discretas, como maior controle de movimentação de armamentos em áreas sensíveis. O temor é que, se nada mudar até o fim do ano, a escalada militar na fronteira se torne irreversível.
Sem consenso interno, qualquer caminho parece arriscado. Um recuo completo deixaria o Líbano mais exposto às decisões do Hezbollah e de seus patrocinadores externos. Um confronto direto com a milícia poderia mergulhar o país em nova espiral de violência, com impacto imediato sobre a população, o sistema bancário e a capacidade de atrair investimentos. O dilema expõe a pergunta que atravessa o debate em Beirute, nas capitais árabes e nas chancelarias ocidentais: até que ponto o Líbano consegue redesenhar o papel do Hezbollah sem desmontar, junto com as armas, os frágeis pilares que ainda sustentam o Estado?
