Ciencia e Tecnologia

Rover chinês encontra gelo subterrâneo e indício de antigo oceano em Marte

O jipe-robô chinês Zhurong identifica, em 2026, uma camada de gelo enterrada na planície Utopia, no hemisfério norte de Marte. A descoberta reforça a hipótese de que a região abrigou um antigo oceano marciano e abre novas frentes na busca por sinais de vida passada.

Gelo escondido sob o solo marciano

A confirmação do gelo subterrâneo vem de medições feitas pelo Zhurong em uma área plana e aparentemente desértica de Marte. Sob pouco mais de uma dezena de metros de areia avermelhada, o robô detecta uma camada de “gelo sujo” com cerca de 7 metros de espessura, enterrada a aproximadamente 15 metros de profundidade na planície Utopia. Os dados integram o estudo “Evidências de gelo subsuperficial raso no local de pouso da Tianwen-1”, publicado na revista científica Earth and Planetary Science Letters.

Os cientistas da Administração Espacial Nacional da China (CNSA, na sigla em inglês) consideram a camada uma mistura de gelo de água, solo marciano e cascalho, com pequenas frações de rocha sólida. “O estudo infere que essa camada é de ‘gelo sujo’, ou seja, uma mistura de gelo de água, solo marciano e cascalho, contendo uma pequena quantidade de rocha”, informou a agência. A presença desse material a tão pouca profundidade, em uma região que já foi apontada como possível leito oceânico, fortalece a tese de que Marte manteve grandes volumes de água líquida em sua superfície no passado remoto.

Janela para o clima antigo e para futuras missões

O achado muda a forma como pesquisadores enxergam a história climática do planeta vermelho. Ao revelar um reservatório de água congelada ainda em processo de degradação, o Zhurong fornece pistas sobre como Marte passou de um mundo possivelmente úmido, com mares e rios, para a paisagem árida observada hoje. Segundo a CNSA, “atualmente, essa camada de gelo ainda está se degradando lentamente, e sua irregularidade espacial na espessura pode refletir esse processo de degradação”. O encolhimento gradual indica que parte do gelo sublima, ou seja, passa direto do estado sólido para vapor na baixa pressão atmosférica marciana.

Os pesquisadores apontam que esse gelo pode alimentar o ciclo de água atual do planeta. “Simultaneamente, a camada de gelo pode transportar vapor de água para cima através de canais como fissuras, afetando a composição do material da superfície”, explicou a agência. Em termos práticos, isso significa que a fina atmosfera de Marte, hoje formada principalmente por dióxido de carbono, ainda recebe contribuições de vapor de água vindas do subsolo. O processo ajuda a moldar a poeira, as crostas superficiais e até a formação de geadas em determinadas épocas do ano marciano.

Impacto na busca por vida e na exploração humana

A descoberta da camada de gelo na planície Utopia tem implicações diretas para a busca de vida microbiana passada e para planos de enviar humanos a Marte nas próximas décadas. Regiões que concentraram água por milhões de anos são candidatas naturais para abrigar formas de vida simples, ao menos no passado. A confirmação de um antigo oceano, agora congelado e fragmentado sob o solo, indica que a área pode preservar registros químicos dessa época. Traços de sais, minerais alterados pela água e moléculas orgânicas podem ter ficado presos no gelo e no sedimento misturado a ele.

Para futuras missões tripuladas, a presença de gelo subsuperficial raso interessa por outro motivo: infraestrutura. Água é um dos recursos mais caros de transportar da Terra, e a possibilidade de extrair gelo localmente reduz custos e aumenta a autonomia de astronautas. Uma camada com 7 metros de espessura, a apenas 15 metros de profundidade, está dentro do alcance de sistemas de perfuração projetados para ambientes extremos. Em um cenário de colonização, o gelo pode servir para consumo humano, agricultura em estufas e produção de combustível, ao ser separado em hidrogênio e oxigênio.

O que ainda falta descobrir em Marte

Os dados do Zhurong também dialogam com observações anteriores de sondas orbitais da Nasa e da Agência Espacial Europeia, que já indicavam sinais de gelo enterrado na região. A contribuição chinesa vem do olhar de perto, com medições feitas diretamente a partir da superfície. A confirmação em solo reforça modelos que preveem grandes reservas de gelo em latitudes médias do hemisfério norte, acumuladas ao longo de ciclos climáticos que se estendem por centenas de milhares de anos. Mesmo assim, permaneceu aberta a questão de quanto desse gelo ainda sobrevive, em que estado físico se encontra e quão acessível é para futuras operações.

As respostas completas ainda dependem de novas missões, inclusive de retorno de amostras à Terra. A sonda chinesa Tianwen-1, que levou o Zhurong até Marte, inaugura a presença do país na exploração de superfície do planeta e amplia a competição científica com Estados Unidos e Europa. Ao revelar uma camada de gelo em degradação na planície Utopia, o programa chinês pressiona outras agências a detalhar a distribuição de água marciana com mais precisão. A próxima década deve mostrar se esse oceano congelado guarda apenas memória geológica ou indícios concretos de que Marte já foi um mundo habitável.

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