Trump exige rendição total do Irã e amplia incerteza no Oriente Médio
Donald Trump descarta qualquer negociação e exige a rendição incondicional do Irã para encerrar a guerra no Oriente Médio, iniciada há quase uma semana. O recado vem nesta sexta-feira (6), em meio à escalada de bombardeios na região e ao alerta da ONU para o risco de colapso humanitário e econômico.
Verdades definitivas em meio às explosões
O presidente dos Estados Unidos usa sua plataforma preferida, a Truth Social, para fixar a nova linha da Casa Branca. “Não haverá nenhum acordo com o Irã exceto a rendição incondicional!”, escreve. A frase encerra, ao menos por ora, qualquer espaço público para mediação política por parte de Washington.
A declaração surge depois de seis dias de uma guerra que não se limita mais à fronteira entre Estados Unidos, Israel e Irã. Bombardeios se espalham por todo o Oriente Médio, atingem aliados estratégicos de Washington no Golfo e empurram milhões de pessoas para a incerteza. A ofensiva conjunta de EUA e Israel, iniciada no sábado, atinge instalações militares e infraestrutura iraniana e leva Teerã a responder com mísseis e drones contra bases e alvos na região.
Na mesma mensagem, Trump tenta combinar a ameaça militar com uma promessa de reconstrução sob novos interlocutores em Teerã. Ele diz que, depois da escolha de um “líder(es) GRANDIOSO(S) E ACEITÁVEL(IS)”, os Estados Unidos trabalharão com aliados “para tirar o Irã da beira da destruição, tornando-o economicamente maior, melhor e mais forte do que nunca”. No fim, condensa a ambição em um slogan: “MAKE IRAN GREAT AGAIN (MIGA)”, eco da frase de campanha “Make America Great Again”.
A postura americana contrasta com a avaliação urgente feita em Nova York. O secretário-geral da ONU, António Guterres, alerta que “todos os ataques ilegais no Oriente Médio e além estão causando um sofrimento e um dano enormes à população civil de toda a região, e representam um grave risco para a economia mundial, especialmente para as pessoas mais vulneráveis”. Ele avisa que “a situação pode sair do controle” e pede o fim imediato dos combates e “negociações diplomáticas sérias”.
Guerra se espalha e encurrala civis
Teerã vive a rotina mais dura de bombardeios desde o início da ofensiva. Na tarde desta sexta-feira, novas e potentes explosões voltam a atingir a zona leste da capital iraniana. Colunas de fumaça preta sobem sobre os edifícios, relatam jornalistas da agência France Presse. Segundo a Irna, agência estatal, ao menos 1.230 pessoas morrem desde sábado em ataques no país, número que não é verificado de forma independente.
A paisagem urbana se esvazia. “A cidade esvaziou, muita gente foi embora”, conta Robert, empresário de 60 anos que cruza a fronteira com a Armênia. Ele descreve uma rotina de explosões “pelo menos cinco ou seis vezes por dia”. A morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo iraniano, atingido no primeiro dia da ofensiva, pesa ainda mais sobre as ruas. Multidões vestidas de preto se espalham pela primeira sexta-feira de oração desde o anúncio, carregando bandeiras nacionais e retratos do líder.
Israel afirma atacar “mais de 400 alvos” no Irã apenas nesta sexta-feira, em várias regiões do país, em um padrão semelhante ao dos dias anteriores. A resposta de Teerã não se limita ao território israelense. Mísseis e drones iranianos buscam bases aéreas e instalações ligadas aos Estados Unidos em países do Golfo, numa tentativa de elevar o custo político da campanha.
Arábia Saudita e Catar dizem ter repelido ataques contra suas bases aéreas. No Bahrein, um hotel e prédios civis são atingidos. Ao menos 13 pessoas morrem nos países do Golfo, entre elas sete civis, incluindo uma menina de 11 anos no Kuwait. Em Israel, as autoridades contam 10 mortos desde o início da escalada.
O Líbano entra de vez no conflito. O Hezbollah, grupo xiita aliado de Teerã, dispara foguetes contra Israel para “vingar” a morte de Khamenei, e abre uma nova frente de confrontos. O exército israelense afirma ter atacado 500 alvos no território libanês desde segunda-feira e diz ter matado “70 terroristas” do grupo. As autoridades libanesas calculam ao menos 217 mortos e quase 800 feridos, enquanto imagens mostram prédios destruídos e veículos queimados no sul de Beirute.
O deslocamento forçado cresce a cada dia. O Conselho Norueguês para Refugiados estima em cerca de 300 mil o número de pessoas obrigadas a deixar suas casas no Líbano em menos de uma semana. O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, fala em risco de “catástrofe humanitária” se os bombardeios continuarem no mesmo ritmo.
Mercado de energia sob pressão máxima
Os impactos ultrapassam as fronteiras da região e chegam às cotações de petróleo, gás e frete marítimo. O Estreito de Ormuz, por onde costumam passar 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do planeta, segue intransitável desde quarta-feira, quando a Guarda Revolucionária do Irã afirma ter assumido “controle total” da passagem. Empresas de navegação desviam rotas, elevam custos de seguro e atrasam entregas, enquanto governos calculam efeitos em inflação e crescimento.
Analistas ouvidos por organismos internacionais veem um cenário de risco duplo: interrupção prolongada do fluxo de energia e incerteza política sobre qualquer cessar-fogo. O travamento de Ormuz, mesmo por algumas semanas, pode empurrar para cima o preço dos combustíveis e pressionar economias frágeis, especialmente em países importadores da África e da Ásia.
Organizações de direitos humanos também exigem respostas para episódios ainda pouco esclarecidos. Um dos casos mais sensíveis é o bombardeio de uma escola em Minab, no Irã, no primeiro dia da guerra. Teerã fala em 150 mortos, a maioria crianças e funcionários. Reportagem do New York Times sugere que o ataque pode ter origem americana. O alto-comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, pede investigação “rápida” e com “total transparência”. Nenhum governo assume autoria até agora.
O saldo político ainda é incerto. Ao apostar na rendição total do adversário, Trump amplia o espaço para narrativas de resistência dentro do Irã e entre seus aliados. A morte de Khamenei cria um vácuo de liderança que pode tanto abrir disputas internas quanto fortalecer alas mais radicais diante da pressão externa. Para aliados europeus e parceiros da OTAN, a postura americana reduz margens de manobra diplomática.
Pressão por diplomacia esbarra em discurso de força
As próximas semanas devem testar a capacidade de mediação de potências regionais e de organismos multilaterais. Países que mantêm canais com Teerã, como Catar e Omã, tentam preservar algum espaço para diálogo mesmo sob fogo cruzado. A ONU insiste em um cessar-fogo imediato, mas não há sinal público de recuo em Washington ou em Teerã.
Governos acompanham com atenção a evolução dos ataques no Golfo e o risco de novos fechamentos de rotas estratégicas. Uma escalada adicional, com danos a grandes terminais de exportação ou oleodutos, poderia transformar uma guerra já devastadora em choque global de energia. Entre a promessa de “Make Iran Great Again” e as colunas de fumaça sobre Teerã, permanece aberta a pergunta sobre quem, e em que condições, terá espaço para negociar o fim dessa guerra.
