Irã suspende ataques a países do Golfo e pede trégua diplomática
O presidente interino do Irã, Masoud Pezeshkian, anuncia neste sábado (7) a suspensão temporária de ataques e lançamentos de mísseis contra países do Golfo. A medida vale para Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Catar, Kuwait e Omã, e admite exceção apenas em casos de retaliação.
Peso de uma semana de bombardeios e morte de Khamenei
Pezeshkian fala em rede nacional de TV na manhã de 7 de março de 2026, depois de uma semana em que mísseis e drones iranianos cruzam o céu do Golfo quase sem pausa. Os ataques fecham aeroportos, forçam o desvio de rotas comerciais e levam milhares de viajantes a antecipar a saída da região.
No discurso, o presidente interino tenta reposicionar Teerã diante dos vizinhos. “Peço desculpas pessoalmente aos países vizinhos que foram atacados pelo Irã”, diz, em tom incomum para a retórica iraniana recente. “Não temos a intenção de atacar países vizinhos. Como já disse repetidamente, eles são nossos irmãos”, afirma.
O anúncio ocorre em meio à escalada mais grave no Oriente Médio em anos. Em 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel iniciam uma onda de ataques contra alvos militares e estratégicos no Irã, oficialmente em resposta a tensões crescentes em torno do programa nuclear iraniano. No dia seguinte, a mídia estatal de Teerã informa que o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo desde 1989, está entre as vítimas dos bombardeios.
A morte do dirigente, confirmada no domingo, abala o regime e desencadeia uma resposta em cadeia. O Irã passa a disparar mísseis contra países do Oriente Médio que abrigam bases norte-americanas, entre eles Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia e Iraque. No auge da retaliação, autoridades iranianas prometem “a ofensiva mais pesada” da história do país.
Pezeshkian, eleito sob o impacto do vácuo de poder, adota discurso de firmeza diante dos Estados Unidos e de Israel, mas agora tenta conter o transbordamento da guerra para os vizinhos árabes. Ao mesmo tempo, a Casa Branca, sob Donald Trump, responde com novas ameaças. “É melhor que eles não façam isso, porque se fizerem, nós os atingiremos com uma força nunca antes vista”, declara o republicano, reforçando o risco de um confronto direto de grandes proporções.
Ordem às Forças Armadas e recado aos vizinhos
No pronunciamento desta manhã, Pezeshkian revela ter dado uma orientação explícita ao comando militar. Segundo ele, o conselho de liderança de três membros que governa o Irã de forma interina “informou às forças armadas que, a partir de agora, não deve haver ataques contra países vizinhos nem lançamento de mísseis, a menos que eles queiram nos atacar a partir desses países”.
O presidente interino insiste que o objetivo é reduzir a temperatura militar e abrir espaço para negociações políticas. “Acho que precisamos resolver isso com diplomacia, em vez de lutar e criar problemas com os países vizinhos”, afirma. Ao mesmo tempo, lança um aviso às monarquias do Golfo, que abrigam dezenas de instalações militares dos EUA e de aliados ocidentais.
“Não se tornem brinquedos nas mãos do imperialismo”, diz Pezeshkian, em referência às bases norte-americanas na região. O apelo combina pedido e ameaça: ele pede que esses países evitem que seu território seja usado como plataforma para ações militares contra o Irã, sob pena de voltarem a entrar na linha de fogo.
O anúncio, no entanto, não se traduz de imediato em silêncio nos céus da região. Minutos depois do discurso, radares ainda registram interceptações sobre os Emirados Árabes Unidos, e sirenes de alerta voltam a soar no Bahrein. Militares e diplomatas ouvidos por agências internacionais dizem, em caráter reservado, que a cadeia de comando no Irã continua sob tensão após a morte de Khamenei, o que pode atrasar a implementação de ordens políticas.
A suspensão anunciada também não equivale a um cessar-fogo formal. O governo iraniano condiciona a interrupção dos lançamentos à ausência de ataques conduzidos a partir de territórios vizinhos. Na prática, qualquer novo disparo de míssil contra alvos iranianos com origem em bases do Golfo pode ser usado como justificativa para retomar ofensivas.
Risco de escalada permanece e foco se volta à diplomacia
O gesto do presidente interino é recebido como um primeiro sinal de contenção em uma crise que, em menos de dez dias, já altera rotas aéreas, encarece seguros de navegação no Estreito de Ormuz e provoca queda abrupta no turismo regional. Companhias aéreas internacionais desviam voos para fora do espaço aéreo iraniano e do Golfo, elevando custos de operação e tempo de viagem.
Para os países vizinhos, a suspensão dos ataques, se de fato implementada, reduz o risco imediato de danos a infraestrutura crítica, como refinarias, terminais de gás e portos. Cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo passa diariamente pelo Estreito de Ormuz, entre Irã e Omã. Qualquer interrupção prolongada nesse corredor pressiona preços globais de energia e impacta economias que ainda tentam se recuperar de choques recentes.
Diplomatas europeus e enviados da ONU veem na fala de Pezeshkian uma brecha para retomar canais de negociação que estavam quase fechados desde os primeiros ataques. Países como Catar e Omã, que tradicionalmente atuam como mediadores discretos, intensificam contatos com Teerã, Washington e capitais do Golfo em busca de um mecanismo de desescalada. A expectativa é transformar a suspensão unilateral em algum formato de compromisso mútuo, ainda que limitado.
Analistas lembram que o histórico da região é de trégua frágil. Em crises anteriores, janelas de diálogo se abrem por poucos dias antes de novas rodadas de violência. A diferença agora está no vazio de liderança após a morte de Khamenei e na pressão interna sobre Pezeshkian, que precisa ao mesmo tempo demonstrar força diante de Israel e dos Estados Unidos e evitar que o Irã seja arrastado a uma guerra prolongada e imprevisível.
Nos próximos dias, chancelerias ocidentais e árabes devem testar a disposição real de Teerã em sustentar a suspensão dos ataques. Em paralelo, cresce a expectativa pela reação de Washington e de Tel Aviv, que até agora mantêm a linha de pressão militar. A pergunta que se impõe é se o gesto de Teerã inaugura um ciclo de negociação ou será apenas uma pausa breve em uma escalada que ainda não encontrou limite claro.
