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Morre em BH o operador ‘Sicário’, peça-chave do esquema de Vorcaro

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, morre nesta sexta-feira (6), aos 32 anos, após tentativa de suicídio sob custódia policial em Belo Horizonte. A morte é confirmada às 18h55 pelo Hospital João XXIII, onde ele está internado desde quarta (4). Operador de confiança de Daniel Vorcaro, ele é investigado por pirâmide financeira, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Morte sob custódia expõe ponto sensível da investigação

A confirmação do óbito chega no fim da tarde, após a conclusão do protocolo de morte encefálica iniciado às 10h15. Em nota, o advogado Robson Lucas da Silva informa que “o quadro clínico de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão evoluiu a óbito, que foi legalmente declarado às 18h55, após encerramento do protocolo de morte encefálica iniciado hoje, 06.03.26, por volta das 10h15. O corpo será encaminhado ao Instituto Médico Legal, seguindo-se o protocolo legal”.

O desfecho ocorre menos de 48 horas depois de “Sicário” atentar contra a própria vida enquanto estava sob custódia, no Hospital João XXIII. Ele havia sido levado à unidade de saúde na quarta-feira (4), depois do incidente, em circunstâncias que ainda não são detalhadas oficialmente. A morte de um investigado central, já sob controle do Estado, pressiona a Polícia Federal e força uma revisão dos procedimentos de segurança e acompanhamento de presos de alto risco.

Nas investigações, a PF identifica “Sicário” como um dos operadores mais próximos de Vorcaro dentro do grupo batizado de “A Turma”. Segundo os relatórios, ele atua na sombra, conectando o núcleo financeiro à frente de intimidação, coleta de dados e controle de informação. A morte encerra a possibilidade de novos depoimentos e amplia o peso de delações e provas documentais já em andamento.

O papel de ‘Sicário’ na engrenagem de ‘A Turma’

As apurações da PF descrevem Mourão como responsável pela “coordenação de atividades voltadas à obtenção de informações, monitoramento de pessoas e levantamento de dados considerados relevantes para os interesses do grupo”. Ele opera em sistemas restritos de órgãos públicos, acessando bases de dados usadas por forças de segurança e órgãos de investigação.

De acordo com a PF, o investigado chega a obter acesso indevido a sistemas da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal e até de organismos internacionais, como FBI e Interpol. A atuação inclui consultas e extrações de dados sigilosos. O objetivo, segundo a corporação, é blindar os negócios do grupo, mapear possíveis ameaças e antecipar movimentos de autoridades e críticos.

Mourão também é apontado como articulador de ações para remover conteúdos e perfis em plataformas digitais, numa tentativa de apagar rastros, obter dados de usuários e silenciar críticas públicas. Em paralelo, coordena equipes responsáveis pela execução de tarefas da organização. Relatórios da PF e da inteligência da Polícia Militar de Minas Gerais atribuem a ele função de comando, com poder de mobilização e cobrança de resultados.

Em um dos episódios investigados, “Sicário” participa de conversa com Vorcaro em que o banqueiro, segundo a PF, pede a organização de um assalto e uma agressão contra o jornalista Lauro Jardim, de O Globo. O diálogo reforça a suspeita de que o grupo extrapola o campo financeiro e tenta intimidar vozes incômodas no debate público.

No eixo financeiro, Mourão responde a uma ação proposta pelo Ministério Público de Minas Gerais. A denúncia aponta movimentação de R$ 28 milhões entre junho de 2018 e julho de 2021 em contas de empresas ligadas a ele, em esquema classificado como pirâmide financeira. O modelo promete ganhos altos e rápidos, mas depende da entrada constante de novos investidores, que costumam sair no prejuízo.

Na peça acusatória, o MP afirma que “a triangulação de valores através de pessoas jurídicas constitui movimento típico de lavagem de dinheiro, in casu com a ocultação dos valores provenientes, direta ou indiretamente, dos crimes contra a economia popular perpetrados”. As investigações indicam ainda que, antes de integrar o esquema, Mourão atuava como agiota. Relatório da inteligência da PM mineira conclui que ele “exercia papel central e de liderança em uma organização criminosa, coordenando a atuação dos demais integrantes e gerenciando atividades ilícitas”.

Impacto nas investigações e pressão por respostas

A morte de “Sicário” mexe com a estratégia de investigação da PF e de Ministérios Públicos envolvidos em casos ligados a Daniel Vorcaro. Um dos principais elos entre o núcleo financeiro e a frente operacional do grupo não poderá mais ser ouvido, o que tende a aumentar o valor de registros eletrônicos, mensagens apreendidas e colaborações premiadas já em curso. Também abre espaço para disputas jurídicas sobre a cadeia de custódia de provas e sobre eventuais lacunas de apuração.

O episódio reacende o debate sobre a responsabilidade do Estado na integridade física e mental de presos sob custódia. A defesa de Mourão afirma que ele não apresenta ao longo do dia sinais “aparentes de comprometimento de suas condições físicas ou psíquicas” e diz ter tomado conhecimento do incidente apenas depois de nota oficial atribuída à PF, que falava em “possível relação com tentativa de autoextermínio”. A versão deve alimentar pedidos de esclarecimento formal sobre as condições de vigilância, o acesso a atendimento psicológico e a cadeia de decisões que antecedem a tentativa de suicídio.

Especialistas em direitos humanos cobram, em casos semelhantes, transparência total, preservação de imagens, registros médicos e laudos independentes. O corpo de Mourão segue para o Instituto Médico Legal, que deve apontar, em laudo, a causa da morte e possíveis fatores associados. A família, a defesa e órgãos de controle podem requisitar perícias complementares.

A repercussão também avança para além do processo penal. A suspeita de um grande esquema de pirâmide financeira, que teria movimentado dezenas de milhões de reais, mantém em alerta investidores que se aproximam de operações com promessas de retorno rápido. O caso reforça a necessidade de fiscalização mais rígida sobre empresas que captam recursos do público sem supervisão do Banco Central ou da CVM.

Próximos passos da PF e o debate sobre prevenção

Com a morte de “Sicário”, a PF deve concentrar esforços em outros integrantes de “A Turma” e em documentos já apreendidos para recompor a teia de relações do grupo. A prisão de Daniel Vorcaro em penitenciária federal em Brasília, já confirmada, tende a ser o novo foco da fase operacional. A expectativa é de que, nas próximas semanas, a PF detalhe eventuais ajustes em protocolos de custódia e de monitoramento de presos de alta periculosidade.

No campo institucional, conselhos de direitos humanos, corregedorias e o Ministério Público podem abrir apurações específicas sobre as circunstâncias da tentativa de suicídio. A discussão sobre prevenção ganha força, com especialistas defendendo triagem mais rigorosa de risco de autoextermínio, acompanhamento psicológico contínuo e revisão de condições físicas de custódia. A investigação sobre “A Turma” avança agora sem um de seus personagens mais ativos, e permanece em aberto a pergunta sobre até onde se estende a rede de proteção que, por anos, permitiu o funcionamento do esquema.

Se você ou alguém que você conhece enfrenta momentos difíceis, com pensamentos suicidas ou depressão, procure ajuda profissional. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso 24 horas por dia pelo telefone 188 e pelo site cvv.org.br. Buscar esse suporte pode ser o primeiro passo para interromper um ciclo de sofrimento.

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