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Joinville tenta Filipe Luís para liderar projeto de SAF

O Joinville tenta contratar Filipe Luís, demitido do comando do Flamengo na segunda-feira (2), para liderar o projeto esportivo do clube em meio à transição para SAF. A aproximação parte do presidente interino Derian Campos, que admite ter buscado o ex-treinador por telefone e redes sociais, sem resposta até agora. A investida revela a ambição do JEC em profissionalizar a gestão do futebol e atrair investidores.

Joinville mira ex-técnico do Flamengo para virar a chave

Derian Campos vive dias de caça a soluções. À frente do Joinville de forma interina, ele tenta acelerar a transformação do clube em Sociedade Anônima do Futebol e busca um nome de peso para comandar o dia a dia do futebol. O alvo é Filipe Luís, ex-lateral da seleção brasileira e recém-demitido do Flamengo, visto na Arena Joinville como possível manager, espécie de gestor que concentra decisões sobre elenco, contratações e modelo de jogo.

O movimento começa praticamente em seguida à saída do treinador do Ninho do Urubu. A demissão é confirmada na segunda-feira, 2 de março de 2026, após semanas de desgaste e cobranças públicas no Flamengo. Horas depois, o nome de Filipe passa a circular no Norte de Santa Catarina como peça central de um projeto que pretende recolocar o Joinville no mapa do futebol nacional, após anos de queda de receita, rebaixamentos em série e estádios mais vazios.

Bastidores da tentativa e cálculo político do JEC

Derian conta que age por conta própria para tentar seduzir o ex-técnico. O dirigente relata que recorre a amigos em comum para conseguir o número de telefone de Filipe, insiste em ligações, busca contato também pelas redes sociais e, até aqui, esbarra no silêncio. “Tentei sim contato com ele, busquei o telefone dele com amigos, mandei mensagem pelas redes sociais, mas não consegui falar com ele”, afirma o presidente interino.

A recusa, por ora, não desanima. Derian usa a tentativa como mensagem interna e externa. “O recado que eu quis passar foi que eu não tenho limite com relação à solução que eu preciso trazer pro Joinville. O Filipe Luís é de Jaraguá do Sul. Creio que ele tenha feito contato com alguns fundos, alguns times, ele entende já um pouco de SAF. Eu sou vendedor, não posso ter limite”, diz. A fala expõe o cálculo político: aproximar o clube de um personagem com trânsito em grandes centros, experiência recente em um gigante do país e raízes em Santa Catarina.

O Joinville corre contra o tempo para estruturar sua SAF. O presidente interino afirma que negocia com ao menos um grupo interessado e promete apresentar uma proposta formal à comissão do conselho do clube “nas próximas semanas”. O desenho inicial prevê a venda do controle do departamento de futebol a um investidor, com prazo de aporte e metas esportivas claras, modelo seguido recentemente por times como Cruzeiro e Vasco, ainda que com resultados diferentes.

Dentro desse tabuleiro, Filipe surge como potencial ponte entre o capital e o campo. A ideia é que ele assuma a responsabilidade pela montagem do elenco, pela escolha de comissão técnica e pela definição de um projeto de jogo de médio prazo, função comum em clubes europeus, mas ainda rara no Brasil. Para um Joinville que amarga a ausência nas principais divisões nacionais e vive anos de orçamento enxuto, um nome desse porte pode servir como atalho para recuperar credibilidade.

Efeito cascata: SAF em Joinville, crise no Flamengo

O movimento do JEC acontece enquanto o Flamengo ainda tenta digerir a saída de Filipe Luís. As últimas horas do treinador no Ninho do Urubu são marcadas por reuniões tensas. Sem o técnico, o diretor de futebol José Boto se reúne com o elenco e faz um discurso duro, no qual divide responsabilidades pela queda. Segundo relatos, o português afirma que parte do grupo “abusou da liberdade dada por Filipe” e cobra mudança imediata de postura.

Boto também cita o uruguaio Arrascaeta como exemplo de cobrança que vem acompanhada de entrega em campo. “(Arrascaeta) entregou em campo e mostrou que merecia, e quando quisemos renovar pediu mais do que tinha pedido, e nós tivemos que dar”, diz o dirigente, em fala revelada inicialmente pelo portal Coluna do Fla e confirmada depois. A mensagem é clara: o novo ciclo, agora com o português Leonardo Jardim no comando e salário milionário, exige rendimento proporcional ao investimento.

O contraste expõe dois momentos opostos. No Rio, o Flamengo tenta preservar protagonismo esportivo, apesar das crises recorrentes e das disputas internas por poder, em ano de decisão de Campeonato Carioca contra o Fluminense e expectativa por títulos nacionais. Em Santa Catarina, o Joinville busca apenas voltar a ser relevante, com a meta imediata de formar um elenco competitivo para subir degraus nas divisões estaduais e nacionais em até três temporadas.

O eventual acerto com Filipe teria efeito prático imediato em Joinville. Um manager com nome reconhecido tende a facilitar negociações com jogadores, agentes e fundos de investimento. Patrocinadores locais e regionais, sensíveis à exposição de marca, passam a enxergar um projeto estruturado, e não apenas uma aposta romântica em um clube tradicional. A chance de atrair novos contratos de patrocínio em 2026 e 2027 aumenta quando o projeto é associado a um personagem com carreira sólida na Europa e passagem recente pelo Flamengo.

O que vem agora para Filipe Luís, Joinville e Flamengo

O caminho para que o plano saia do papel ainda é longo. Filipe, aos 40 anos, avalia o próximo passo da carreira depois de uma transição rápida dos gramados para o banco de reservas. A experiência no Flamengo leva pouco mais de um ano e termina sob pressão, mas consolida a imagem de um profissional estudioso, próximo de modelos europeus de gestão de elenco e de jogo. Em um cenário de aquecimento do mercado para gestores híbridos, que transitam entre comissão técnica e diretoria, o interesse de um clube em reestruturação não parece isolado.

Derian, por sua vez, precisa convencer ao menos duas frentes: o próprio Filipe e os conselheiros do Joinville. O conselho estuda a proposta de SAF que deve chegar à mesa em breve, com previsão de análise ainda no primeiro semestre de 2026. Investidores querem estabilidade política e clareza de comando. Um acerto com um profissional de referência antes da assinatura do contrato pode pesar na decisão, mas também exige garantias de autonomia e orçamento para montagem do elenco.

O Flamengo observa à distância. A diretoria, pressionada após a saída de Filipe e as cobranças internas, tenta blindar o elenco e oferecer a Leonardo Jardim condições para trabalhar. O desempenho nas próximas semanas, em especial nas finais do Carioca e no início das competições nacionais, vai definir o tom da temporada. Um eventual sucesso de Filipe como gestor em um clube emergente reacenderia o debate sobre o uso de ex-jogadores em funções estratégicas fora da beira do campo.

O silêncio de Filipe até agora mantém o tabuleiro em aberto. Ele pode optar por um novo desafio como treinador em clube de Série A, aceitar um papel mais executivo em projeto de SAF ou fazer uma pausa após a passagem conturbada pelo Flamengo. Para Joinville, Flamengo e para o mercado de futebol brasileiro, a decisão indica mais do que o destino de um profissional: ajuda a desenhar qual modelo de gestão vai prevalecer nos próximos anos.

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