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Desabamento em lar de idosos em BH deixa 12 mortos e expõe falhas

Um prédio de três pavimentos que abrigava a Casa de Repouso Pró-Vida desaba na madrugada desta quinta-feira (5/3), em Belo Horizonte, e deixa 12 mortos e oito feridos. As vítimas são, em maioria, idosos que dormiam quando a estrutura cede, por volta de 1h30, no Bairro Jardim Vitória, Região Nordeste da capital. Bombeiros encerram as buscas na manhã desta sexta (6/3), após localizar o último corpo entre os escombros.

Resgate sob pressão e madrugada de buscas em BH

O silêncio do bairro se rompe com o estrondo do desabamento e, em poucos minutos, dá lugar ao som de sirenes e gritos por ajuda. Militares do Corpo de Bombeiros chegam ao local em meio a poeira, fiação rompida e lajes amontoadas. A orientação imediata é clara: qualquer sobrevivente deve bater nos escombros para ser ouvido. A partir daí, a corrida é contra o tempo.

De acordo com os bombeiros, as três primeiras vítimas localizadas são idosos, encontrados às 6h, 10h e 10h50 de quinta-feira. O filho do proprietário, conhecido como Renatinho, dono da academia que funcionava no último andar, é retirado sem vida por volta de 11h20, tornando-se a quarta morte confirmada. Ao longo do dia, as equipes vasculham camada por camada do prédio, num trabalho que exige escoramento manual, cuidado com novos desabamentos e atenção a qualquer sinal de vida.

A quinta morte, de outro idoso, é confirmada por volta de 12h30. Pouco depois, por volta de 13h, vem a sexta confirmação. Na noite de quinta, os militares encontram mais duas idosas, de 87 e 88 anos, soterradas entre blocos de concreto e estruturas retorcidas. No fim da noite, o corpo de uma idosa de 99 anos é resgatado, encerrando um dia de sucessivas más notícias para famílias que se aglomeram atrás das fitas de isolamento.

Por volta das 22h40, mais 30 militares chegam para reforçar o resgate, elevando o efetivo a 140 bombeiros, o maior desde o início da ocorrência. A madrugada de sexta-feira avança com ritmo intenso. Dois corpos são localizados à 0h40 e às 4h. Às 6h, o comandante da operação confirma a 12ª e última vítima, e as buscas por desaparecidos são encerradas. “Fizemos todo o possível para encontrar sobreviventes, mas a extensão dos danos foi devastadora”, resume um oficial no local.

Oito pessoas são resgatadas com vida ao longo da operação e encaminhadas a unidades de saúde, entre elas o Hospital Odilon Behrens e a UPA Nordeste. Algumas chegam em estado grave, com múltiplos ferimentos e quadro de choque. Outras apresentam escoriações e desorientação, efeito da madrugada sob escombros e da perda repentina de vizinhos e amigos.

Prédio de alto risco, reformas recentes e falhas em cadeia

O edifício onde funcionava a Casa de Repouso Pró-Vida não abriga apenas idosos. No primeiro andar está o lar de idosos; acima, no segundo pavimento, a residência dos proprietários; no terceiro, a academia administrada por Renatinho. No térreo, uma clínica de estética com serviços de bronzeamento opera diariamente. O prédio concentra diferentes atividades, fluxo constante de pessoas e equipamentos pesados instalados em andares superiores.

Segundo o Corpo de Bombeiros, a construção é classificada como de porte de alto risco, categoria que exige projetos específicos de segurança, análise detalhada de estrutura e rotas de fuga dimensionadas. Entre fevereiro e agosto de 2025, o imóvel passa por reformas significativas, sobretudo no pavimento superior, onde funciona a academia. As intervenções alteram a configuração original do prédio e elevam a carga sobre a estrutura.

Ainda não há laudo oficial sobre a causa do desabamento. Técnicos dos bombeiros e da Defesa Civil coletam amostras, fotos, projetos e depoimentos para tentar reconstituir o que ocorre na madrugada de quinta. A investigação deve cruzar dados das reformas recentes com eventuais sobrecargas, falhas de cálculo e possíveis adaptações feitas sem acompanhamento adequado. Especialistas ouvidos pela reportagem, em caráter preliminar, afirmam que mudanças em prédios antigos, com aumento de peso nos andares superiores, costumam exigir reforço estrutural amplo.

Moradores da região relatam que o movimento na casa de repouso é intenso nos últimos anos, com entrada frequente de prestadores de serviço e equipamentos. Alguns vizinhos afirmam ter ouvido barulhos incomuns em dias de chuva forte, mas dizem não ter imaginado que o prédio pudesse ruir de forma tão abrupta. “A gente via que era muita coisa para um prédio só, mas ninguém pensa que vai acordar com tudo no chão”, relata um morador que acompanhou o resgate desde a madrugada.

A tragédia ganha repercussão nacional ao longo do dia. Imagens de idosos retirados em macas, de cadeiras de rodas amassadas e camas retorcidas circulam pelas redes sociais e telejornais. A comoção se soma à indignação de familiares, que cobram respostas sobre as condições do imóvel e a fiscalização de casas de repouso em Belo Horizonte. O episódio reacende um debate recorrente: quem responde, na prática, pela segurança de idosos em instituições privadas.

Fiscalização sob pressão e debate sobre segurança de idosos

A prefeitura e o Corpo de Bombeiros prometem uma força-tarefa para reavaliar prédios semelhantes na capital, em especial os que concentram múltiplas atividades e atendem públicos vulneráveis. A pasta responsável por políticas para idosos anuncia revisão de cadastros, exigência de documentação atualizada e vistoria emergencial em casas de repouso em bairros de maior adensamento. A promessa é de relatórios em prazos curtos, com previsão de interdições quando houver risco iminente.

Organizações ligadas à defesa dos direitos da pessoa idosa cobram transparência nas investigações e apoio efetivo às famílias. Psicólogos e assistentes sociais são mobilizados para oferecer atendimento a sobreviventes e parentes das vítimas. A rede de saúde mental do município prepara grupos de acolhimento específicos para idosos que viviam no local e para trabalhadores que testemunham o desabamento.

O impacto econômico também começa a aparecer. Famílias que pagavam mensalidades à casa de repouso agora precisam buscar alternativas em outros estabelecimentos, muitas vezes mais caros e distantes. Proprietários de lares de idosos relatam aumento na procura por informações sobre segurança estrutural, licenças e planos de evacuação. Escritórios de engenharia e arquitetura recebem consultas de prédios antigos interessados em revisar projetos e reforçar estruturas.

Autoridades estaduais afirmam que o inquérito técnico deve indicar, nas próximas semanas, se houve negligência em reformas, falhas de fiscalização ou descumprimento de normas de segurança. Eventuais responsáveis podem responder nas áreas cível, administrativa e criminal. A definição de culpados, porém, não encerra o problema central, apontado por especialistas: a coexistência de prédios envelhecidos, adaptações sucessivas e fiscalização incapaz de acompanhar, em tempo real, todas as mudanças.

O desabamento da Casa de Repouso Pró-Vida expõe de forma brutal a fragilidade de políticas públicas voltadas aos idosos em ambientes urbanos. O país envelhece rapidamente, a demanda por instituições cresce, e muitas famílias delegam a terceiros o cuidado diário de seus parentes. A pergunta que se impõe, após a retirada do último corpo dos escombros, é se o poder público e o setor privado vão, de fato, transformar essa tragédia em ponto de virada na forma como o Brasil protege quem já não consegue escapar sozinho quando o prédio começa a cair.

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