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PF apura elo de Lulinha com lobista em fraude bilionária no INSS

A Polícia Federal investiga, desde 2019, se Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, tem ligação financeira com o esquema que frauda benefícios do INSS. A apuração mira possíveis repasses ocultos feitos por um lobista preso e por uma empresária próxima ao filho do presidente. A ofensiva já expõe o governo, pressiona o STF e alimenta a disputa com a oposição no Congresso.

Operação Sem Desconto chega ao círculo do presidente

A Operação Sem Desconto, da PF em parceria com a Controladoria-Geral da União, desmonta um esquema que desvia cerca de R$ 6,3 bilhões de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024. O golpe se apoia em descontos associativos lançados direto no benefício do INSS, muitas vezes sem autorização do segurado. Entidades de fachada cobram por serviços que quase nunca existem, como convênios médicos genéricos e auxílio funerário.

O modelo que permite esse tipo de desconto está previsto em lei desde 1991, mas só ganha escala a partir de 2019. Em 2022, o Congresso elimina a exigência de renovação periódica da autorização dos beneficiários. A mudança abre espaço para que cobranças irregulares se prolonguem sem checagem, e o volume de dinheiro que sai das aposentadorias dispara.

As investigações avançam sobre o comando do esquema. A PF aponta o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, como um dos operadores centrais. Ele é preso em setembro e se torna o eixo de um rastro de transferências milionárias, empresas de fachada e viagens internacionais. Nesse rastro, surgem Lulinha e a empresária Roberta Moreira Luchsinger.

Quebra de sigilo, mesada de R$ 300 mil e empresa de fachada

O nome de Lulinha entra formalmente no inquérito após depoimentos e mensagens apreendidas. Uma das linhas de apuração é se ele atua como sócio oculto de Antunes. Em relato à PF, o ex-funcionário Edson Claro afirma que o filho do presidente recebe uma “mesada” de R$ 300 mil do Careca do INSS e teria embolsado ainda 25 milhões, sem detalhar a moeda. O depoente também diz que ambos viajam juntos para Portugal.

Mensagens de celular reforçam as dúvidas dos investigadores. Em uma delas, Antunes manda um operador transferir R$ 300 mil para uma empresa em nome de Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha. Questionado sobre o destinatário real do dinheiro, responde que seria “o filho do rapaz”. A PF tenta comprovar se a expressão se refere a Fábio Luís.

Segundo a corporação, Roberta recebe cerca de R$ 1,5 milhão de empresas ligadas ao lobista, em parcelas. Uma delas é a Brasília Consultoria Empresarial Ltda., classificada pelos investigadores como “empresa de fachada do grupo de Antônio Camilo Antunes”. A PF descreve a atuação da empresária como “essencial para a ocultação de patrimônio, movimentação de valores e gestão de contas bancárias e estruturas empresariais utilizadas como instrumentos da lavagem de capitais”.

Roberta, herdeira de ex-acionista do Credit Suisse e ex-candidata do PT à Assembleia Legislativa de São Paulo em 2018, nega qualquer relação com o esquema do INSS. Sua defesa sustenta que os repasses se vinculam a um projeto na área de canabidiol, tocado com Antunes, que não sai do papel e ocorre antes das revelações sobre os desvios.

STF entra em cena e CPI amplia pressão política

Com a escalada das suspeitas, a PF pede ao Supremo Tribunal Federal a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Lulinha. O ministro André Mendonça, relator do inquérito, autoriza a medida em decisão sigilosa, tomada cerca de um mês antes de se tornar pública. O filho do presidente não é indiciado, mas passa a ter a vida financeira vasculhada.

Em paralelo, a CPI mista do INSS, instalada no Congresso, decide seguir o mesmo caminho. Em 26 de janeiro, a comissão aprova a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís. Governistas acusam o presidente do colegiado, senador Carlos Viana (Podemos-MG), de conduzir uma votação “em bloco”, sem fundamentação individual. Pedem a anulação da decisão.

O ministro Flávio Dino suspende, em liminar, a quebra aprovada pela CPI. Ele aponta que a comissão não pode “afastar direitos constitucionais no atacado” e exige análise caso a caso. A decisão vale também para Roberta Luchsinger, que tem os dados protegidos de imediato. Horas depois, a defesa de Lulinha pede a extensão do mesmo benefício para o filho do presidente, em movimento seguido por outros investigados.

Antes do freio de Dino, porém, parte das informações bancárias já circula em Brasília. Documentos enviados à CPI, divulgados pelo portal Metrópoles e confirmados pela Folha, indicam que Lulinha movimenta R$ 19,5 milhões em quatro anos. Entre janeiro de 2022 e 30 de janeiro deste ano, entram R$ 9,774 milhões e saem R$ 9,758 milhões de uma conta no Banco do Brasil.

Os dados mostram ainda transferências de R$ 721 mil feitas pelo presidente Lula ao filho. Só em 22 de julho de 2022, saem R$ 384 mil da conta do petista. Outras duas transferências ocorrem em 27 de dezembro de 2023. A maior fatia da receita de Fábio Luís, porém, vem de suas empresas LLF Tech Participações, com R$ 2,3 milhões, e G4 Entretenimento e Tecnologia, com R$ 772 mil. O empresário Jonas Suassuna Filho, dono do sítio de Atibaia frequentado por Lula, recebe R$ 704 mil em parcelas mensais de R$ 10 mil.

Governo em desgaste e inquérito em aberto

No Planalto, o caso é tratado como foco permanente de desgaste. Auxiliares de Lula admitem preocupação com a repercussão sobre a tentativa de reeleição, sobretudo porque o governo aposta na blindagem da família do presidente como trunfo ético. A CPI do INSS rompe essa barreira ao centrar fogo em Lulinha e transformar seus extratos bancários em munição política.

Em público, Lula insiste na distância institucional. Em entrevista em dezembro, afirma que “ninguém ficará livre” de investigação se estiver envolvido, “incluindo filho meu”. Ele cita ainda ministros próximos: “Se tiver o Haddad vai ser investigado, o Rui Costa com essa seriedade vai ser investigado”. Em privado, chama o filho a Brasília, cobra explicações e ouve de Fábio Luís que está “100% tranquilo”. A orientação do presidente é que o filho se defenda formalmente.

A defesa de Lulinha reage ao vazamento dos dados de sigilo e fala em “crime grave”, prometendo acionar todas as instâncias para punir os responsáveis. Advogados de Antunes dizem que o lobista é inocente e contestam a leitura da PF sobre as transferências. Os investigadores, por sua vez, avançam sobre mais registros de viagens, relações societárias e cruzamentos de mensagens apreendidas.

O futuro do caso depende de uma combinação de fatores. No STF, o plenário ainda precisa referendar ou rever as decisões de Mendonça e Dino sobre quebras de sigilo e limites da CPI. No Congresso, a comissão tenta reconstruir pedidos com fundamentação individual, o que pode reabrir a disputa. Na PF, o inquérito segue sem previsão de conclusão, com possibilidade de novas medidas cautelares e eventual indiciamento de envolvidos.

À medida que o inquérito se aprofunda, a fronteira entre responsabilidade individual e custo político se estreita. O desfecho dirá até que ponto a autoridade do presidente resiste ao teste de ter o próprio filho no centro de uma investigação bilionária.

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