Ricos fogem da guerra no Oriente Médio em jatinhos e comboios de luxo
Milionários instalados em Dubai correm para fora do Oriente Médio em jatos particulares e comboios de SUVs blindados no início de março de 2026. O britânico Samuel Leeds paga cerca de R$ 1,1 milhão para deixar os Emirados após destroços de um drone caírem perto de sua mansão. A rota passa por aeroportos considerados mais seguros, como Mascate, em Omã, que vê disparar a participação de voos privados em plena escalada do conflito.
Drone sobre Palm Jumeirah e fuga em família
O ponto de virada para Samuel Leeds, investidor imobiliário de 33 anos, ocorre no último sábado, em Palm Jumeirah, um dos endereços mais caros de Dubai. Ele está em casa com os quatro filhos, de um a oito anos, quando ouve uma explosão e vê o céu se encher de fragmentos metálicos.
“Ouvimos uma explosão e os destroços começaram a cair”, relata, em entrevista ao jornal britânico The Independent. “Foi perturbador, especialmente com crianças pequenas, ver mísseis sobrevoando nossa casa.” Segundo ele, partes de um drone iraniano caem “como uma tempestade de granizo” sobre a propriedade à beira-mar, que tem sete quartos.
Leeds decide deixar Dubai e, em poucos dias, organiza um jato particular para o Reino Unido. O voo de evacuação, que parte na quarta-feira (4), custa cerca de £ 150 mil, o equivalente a R$ 1,1 milhão. Nas redes sociais, ele publica fotos da família a bordo e transforma a fuga em narrativa motivacional, anunciando que já planeja novos negócios e eventos em solo britânico.
A ostentação em meio à tensão armada provoca reação imediata. Usuários do X, antigo Twitter, acusam o investidor de insensibilidade e exibicionismo. A própria frase com que ele descreve a situação, “Se você tem dinheiro, sair dos Emirados Árabes Unidos não é realmente um problema”, vira símbolo de um privilégio inalcançável para a maioria dos moradores da região.
Aeroporto de Omã vira corredor de fuga para endinheirados
O caso de Leeds se encaixa em um movimento mais amplo de fuga de ricos residentes no Golfo, em meio a bombardeios e ameaças crescentes sobre o espaço aéreo do Oriente Médio. Desde o fim de semana, executivos de bancos globais, investidores e turistas de alto poder aquisitivo montam rotas improvisadas para sair da zona de risco. O mapa inclui longas travessias de deserto, fronteiras congestionadas e jatinhos que decolam a preços de guerra.
Com Emirados, Catar e outros centros aéreos sob restrições, Mascate, capital de Omã, se firma como principal válvula de escape. Dados da plataforma FlightRadar24 mostram que, na quarta-feira, voos privados respondem por 31% das operações no Aeroporto Internacional de Mascate. É quase um terço de todas as decolagens em um terminal que, até poucos dias atrás, era secundário na malha internacional.
As tarifas explodem. A revista Forbes registra que um jato de pequeno porte entre Mascate e Istambul, na Turquia, custa ao menos US$ 95 mil, cerca de R$ 500 mil, o dobro do valor cobrado em tempos de normalidade. Em aeronaves maiores, a mesma rota pode chegar a US$ 140 mil, algo em torno de R$ 740 mil. O bilhete garante um assento longe das explosões, mas aprofunda a sensação de que só escapa quem pode pagar.
O impacto alcança também o chão. Empresas de segurança privada montam verdadeiras caravanas de luxo pelas estradas do Golfo. Frotas de SUVs blindados cruzam os 900 quilômetros entre Dubai e Riad, na Arábia Saudita, em viagens de até dez horas. Lá, passageiros embarcam em novos voos particulares ou comerciais com destino à Europa e à Ásia. Fontes ligadas ao setor contam ao canal Fox Business que mais de dez voos de evacuação, quase todos saindo de Omã, já são organizados por uma única intermediária, a Air Charter Service, com outros em fila.
O fenômeno respinga no esporte de elite. O golfista espanhol Jon Rahm, bicampeão de torneios Major, aciona sua parceria com a VistaJet para retirar colegas do circuito LIV retidos em Omã. São sete jogadores e um caddie levados de carro por mais de quatro horas até Mascate, antes de embarcar em um jato direto para Hong Kong, após o cancelamento de voos regulares.
Desigualdade exposta em meio a bombas e negociações
A corrida de jatinhos e SUVs de luxo escancara um abismo que já existia, mas se torna mais visível sob o barulho das sirenes. Enquanto uma minoria abastada compra saídas calculadas, grande parte da população permanece exposta a alertas de ataque, filas em supermercados e incerteza diária sobre o futuro imediato.
Especialistas em segurança regional apontam que a elite econômica tem mais do que conforto. Ao concentrar poder financeiro e redes de relacionamento globais, esse grupo consegue mobilizar rapidamente aviões, equipes de proteção e rotas alternativas, driblando o caos. Na outra ponta, trabalhadores migrantes e famílias de classe média seguem presos a cancelamentos de voos comerciais, fronteiras fechadas e abrigos improvisados.
A desigualdade de acesso à proteção alimenta o debate político em capitais ocidentais e nos próprios países do Golfo. Critérios de prioridade em operações de evacuação entram em discussão, assim como a responsabilidade de empresas estrangeiras com funcionários baseados em zonas de conflito. Ao mesmo tempo, governos tentam manter a imagem de controle interno, mesmo enquanto veem a saída silenciosa de executivos, investidores e celebridades.
A movimentação intensa em Mascate e em terminais da Arábia Saudita também tem efeito geopolítico. Omã, historicamente discreto e voltado à mediação diplomática, ganha peso como corredor humanitário e plataforma de fuga para elites globais. O novo fluxo tende a influenciar negociações sobre rotas aéreas, cooperação em segurança e presença militar na região, em um tabuleiro já marcado por tensões entre Irã, países árabes e potências ocidentais.
No curto prazo, empresas de aviação executiva, seguradoras e firmas de proteção privada lucram com a demanda emergencial. No médio prazo, diplomatas e analistas avaliam se a saída de figuras-chave do mundo financeiro e corporativo vai redesenhar investimentos, acelerar mudanças de domicílio fiscal e afastar parte do capital estrangeiro que, nos últimos anos, transforma Dubai em um hub global.
Pressão sobre governos e a pergunta que fica
Governos do Golfo e aliados ocidentais correm para ampliar voos de repatriação e criar rotas alternativas de evacuação em março. Companhias como British Airways confirmam aeronaves lotadas entre 5 e 7 de março saindo de Mascate, enquanto Qatar Airways e Lufthansa adicionam voos extras. A ajuda pública, porém, ainda anda atrás da logística privada que, com mais velocidade e dinheiro, garante os primeiros assentos para quem pode pagar.
O contraste entre imagens de jatinhos lotados de famílias e vídeos de cidades sob alerta de ataque tende a permanecer como um dos símbolos desta fase do conflito. A pressão por respostas mais igualitárias deve aumentar à medida que a guerra se prolonga e novos episódios de fuga de milionários vêm à tona. A pergunta que ecoa, de Dubai a Londres, passa menos por quem consegue sair, e mais por quem continua sem qualquer rota segura quando o céu volta a ficar escuro.
