Grupos curdos no Iraque preparam incursão armada contra regime do Irã
Grupos curdos iranianos exilados no norte do Iraque afirmam preparar uma incursão armada contra o regime de Teerã nas próximas semanas, em março de 2026. Eles veem nos sucessivos bombardeios dos Estados Unidos e de Israel contra alvos iranianos a chance mais concreta em décadas de levar a luta para dentro do país. A operação, porém, depende da abertura do espaço aéreo por Washington e expõe o risco de arrastar o Iraque para o centro de uma nova frente de guerra regional.
Curdos veem brecha após seis dias de ataques ao Irã
Os planos ganham corpo no sexto dia seguido de ataques aéreos americanos e israelenses contra bases da Guarda Revolucionária Islâmica e instalações militares no Irã. Os bombardeios, que começam no início de março, atingem depósitos de armas, centros de comando e estruturas ligadas à elite militar do regime. Não há confirmação oficial de tropas dos dois países em solo iraniano, mas, na fronteira com o Iraque, combatentes curdos falam em oportunidade histórica.
Hana Yazdanpana, liderança do Partido da Liberdade do Curdistão (PAK), diz à BBC que os grupos preparam esse movimento há quase meio século. “Nós estamos nos preparando para isso há 47 anos, desde a era da Revolução Islâmica”, afirma, em referência a 1979, quando o aiatolá Ruhollah Khomeini chega ao poder. Ela garante, no entanto, que “nem um único peshmerga se moveu” até agora.
Os peshmergas, como são conhecidos os combatentes curdos — em curdo, “aqueles que enfrentam a morte” —, aguardam um sinal externo. Yazdanpana explica que a coalizão de seis grupos de oposição, recém-formada, coordena cada passo, tanto no campo político quanto no militar. “Ninguém se move sozinho. Saberemos se nossos irmãos forem avançar”, diz. A avaliação é que qualquer incursão antes da neutralização do poder aéreo iraniano seria um ato de desespero.
O primeiro requisito é o controle do céu. “Não podemos nos mover se o espaço aéreo acima de nós não estiver limpo”, afirma Hana. O segundo é a destruição de depósitos de armas do regime. “Caso contrário, seria suicídio. O regime é muito brutal, e a arma mais avançada que temos é um fuzil Kalashnikov.” Ela admite ter pressionado Washington “muitas vezes” por uma zona de exclusão aérea sobre a região de fronteira. “Fui eu quem enviou os e-mails dizendo ‘precisamos disso com urgência’.”
A Casa Branca, sob Donald Trump, nega que estude armar diretamente esses grupos, embora muitos de seus integrantes tenham recebido treinamento americano no Iraque, durante a guerra contra o grupo Estado Islâmico entre 2014 e 2019. Em público, o governo diz concentrar a ofensiva em alvos ligados à Guarda Revolucionária, responsável por operações externas e pela repressão interna no Irã. Na prática, cada novo ataque alimenta a expectativa de que a linha de frente se desloque para o interior do país, com os curdos à frente.
Alvos sob fogo, alianças frágeis e um vizinho em risco
Enquanto cresce a especulação sobre um avanço curdo, também aumentam as tentativas de Teerã de desarticular seus antigos inimigos. A BBC registra as marcas de ataques iranianos contra ao menos duas bases de oposição na fronteira, incluindo o impacto de um míssil balístico que atinge uma instalação do PAK e mata um combatente. Em resposta, parte das forças esvazia acampamentos conhecidos e se dispersa em áreas montanhosas do norte do Iraque, numa tentativa de escapar dos radares e dos drones.
Os líderes curdos admitem que entram numa equação assimétrica. O Irã tem cerca de 90 milhões de habitantes e uma das forças militares mais robustas do Oriente Médio. Os curdos representam por volta de 10% da população iraniana, algo em torno de 9 milhões de pessoas, e convivem há décadas com prisões, execuções e exílio. “Sessenta por cento da minha família foi presa e sofreu maus-tratos por causa das atividades políticas”, relata Mustafa Mauludi, de 67 anos, vice-presidente do Partido Democrata do Curdistão (KDPI) do Irã.
Mauludi diz viver à espera da queda do regime islâmico. Ele descreve primos mortos e presos, e projeta o retorno a um vilarejo curdo do outro lado da fronteira. “Quando eu chegar ao primeiro vilarejo, vou dizer em voz alta: ‘Tenho lutado por vocês, vocês são meu povo, e agora lutarei ainda mais’.” O objetivo simbólico é estar em território iraniano até 21 de março, data do Nowruz, o Ano-Novo curdo e persa, que marca o início da primavera no hemisfério norte.
As desconfianças em relação às potências ocidentais seguem vivas. Um provérbio repetido entre militantes lembra que “os curdos não têm amigos além das montanhas”. Muitos no movimento observam a oscilação da política americana na Síria, onde combatentes curdos se sentem abandonados após mudanças de posição de Washington nos últimos anos. Ainda assim, lideranças como Abdullah Mohtadi, secretário-geral do Partido dos Trabalhadores do Curdistão do Irã (Komala), adotam um tom pragmático. “Os EUA e Israel não começaram essa guerra por nossas esperanças, mas por seus próprios interesses. Mas isso será bom para nós e nos ajudará a entrar”, afirma.
Mohtadi insiste que seus grupos são hoje “a força mais organizada politicamente no Irã” e pede apoio aberto da comunidade internacional. Cobra do Reino Unido, por exemplo, o reconhecimento da Guarda Revolucionária como organização terrorista e critica a “hesitação” britânica em ceder bases para operações contra Teerã. Para ele, deixar passar o momento atual significaria desperdiçar a melhor chance de mudança desde 1979. “Não vamos deixar que essa oportunidade de mudança seja desperdiçada”, resume.
Escalada pode redesenhar mapa político da região
Uma incursão armada dos curdos iranianos a partir do Iraque teria efeitos imediatos nas fronteiras e na política regional. A primeira pressão recai sobre Bagdá. O governo iraquiano afirma que não permitirá que grupos usem seu território para “se infiltrar ou cruzar a fronteira iraniana para realizar atos terroristas”. Na prática, enfrenta o desafio de controlar centenas de quilômetros de terreno montanhoso, historicamente poroso, enquanto tenta evitar represálias diretas de Teerã.
Diplomatas na região alertam que qualquer movimento coordenado de “vários milhares” de combatentes — estimativa fornecida por um jornalista curdo local — pode transformar uma campanha aérea em guerra híbrida, com frentes irregulares em solo. Um avanço bem-sucedido, mesmo limitado a áreas curdas do oeste do Irã, alimentaria demandas de autonomia e reacenderia temores em países como Turquia e Síria, que também abrigam populações curdas expressivas. Um fracasso, por outro lado, reforçaria a narrativa do regime iraniano de que enfrenta “separatistas” manipulados por potências estrangeiras.
Para a população curda, o cálculo mistura esperança e luto. Em Sulaymaniyah, a cerca de 200 km da fronteira, uma mulher diz à BBC que está pronta para arriscar tudo. “Se tivermos a menor esperança de voltar a ver nossa terra natal, isso já nos basta”, afirma. Ela se refere ao Irã como “regime islâmico do carrasco” e acusa Teerã de ter “matado tantas pessoas” de sua comunidade. Entre militantes experientes, como Hana Yazdanpana, o sentimento é ambivalente. “Voltar para a minha terra será muito emocionante. Não sei se me sentirei feliz ou triste, porque aqueles que realmente mereciam ver este dia já se foram.”
Nos próximos dias, a equação no terreno depende de decisões tomadas em Washington, Jerusalém, Teerã e Bagdá. O ritmo e a intensidade dos bombardeios americanos e israelenses, a capacidade do Irã de manter suas bases operacionais e a disposição do Iraque em conter ou tolerar movimentos armados a partir de seu território definem se a fronteira continua em suspenso ou se se torna a nova linha de fogo. Para os curdos iranianos, acostumados a promessas quebradas, a pergunta é se desta vez a história muda — ou se mais uma vez eles descobrem, nas montanhas, os limites de seus aliados.
