Crise no futebol do Flamengo deixa José Boto perto de saída
José Boto vive o momento mais delicado desde que chega ao Flamengo e pode deixar o cargo de diretor de futebol ainda em março de 2026. O dirigente português enfrenta desgaste interno com a cúpula rubro-negra e o elenco, enquanto o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, já testa alternativas para uma mudança na estrutura do departamento de futebol.
Multa, crise e silêncio no Ninho do Urubu
No Ninho do Urubu, a discussão já não é se Boto permanece, mas em quais condições ele sai. Se a diretoria optar pela demissão antes do fim do contrato, válido até dezembro de 2026, o Flamengo terá de pagar uma multa rescisória equivalente a quatro salários. Pessoas envolvidas nas conversas tratam esse cenário como cada vez mais provável.
O dirigente também avalia um pedido de demissão, segundo relatos de integrantes do clube. A hipótese ganha força à medida que o processo de “fritura” avança, com críticas internas, ruído de comunicação com o vestiário e perda de apoio em diferentes setores da Gávea. A dúvida, hoje, é mais sobre o timing do rompimento do que sobre sua inevitabilidade.
Boto, porém, não pretende sair de imediato. A prioridade declarada nos bastidores é não interferir no início de trabalho do técnico Leonardo Jardim, contratado para substituir Filipe Luís após a derrota para o Corinthians na Supercopa do Brasil, em Brasília. Próximo do treinador, o diretor pretende esperar algumas semanas, até que o compatriota se adapte ao clube e ao dia a dia do centro de treinamento.
Rachaduras no comando e desgaste com elenco
A crise atual é vista por conselheiros e dirigentes como a mais profunda desde a chegada de Boto ao Brasil. Dentro do departamento de futebol, o diagnóstico é duro: a comunicação entre a direção e as lideranças do elenco praticamente inexiste. Jogadores relatam distância do dirigente e pouca abertura para diálogo em momentos decisivos.
O ambiente piora após a demissão de Filipe Luís. Em reunião na última terça-feira, no CT, Boto ressalta o papel dos atletas no processo que levou à queda do ex-treinador. Os jogadores ouvem em silêncio e deixam a sala sem reação pública, mas a leitura é de que o recado aumenta o ruído com o vestiário. Líderes do elenco passaram a enxergar o diretor como excessivamente vaidoso e pouco disposto a dividir responsabilidades.
Episódios do cotidiano alimentam essa percepção. Após vitórias, Boto costuma entrar em campo e cumprimentar os atletas diante das câmeras. Na derrota para o Corinthians, em janeiro, o dirigente permanece no túnel que dá acesso ao gramado, fumando, e demora a aparecer. Um dos líderes cobra, em tom irônico: “Ué, cadê o chefe? Agora não aparece?”.
Funcionários do clube também se queixam do comportamento do português. Relatos apontam vaidade acima do razoável, grosseria no dia a dia e até a exigência de serviços pessoais. A cada duas semanas, pessoas do departamento são chamadas à residência de Boto, na Barra da Tijuca, para tarefas de limpeza e organização. Internamente, o hábito é visto como abuso de função e ajuda a ampliar o isolamento do dirigente.
Em meio ao incêndio político, Boto tenta se aproximar de Bap. Na apresentação oficial de Leonardo Jardim, nesta quinta-feira (5), o diretor toma a palavra antes do presidente e assume o protagonismo na decisão que derruba Filipe Luís. “Quando me convidaram para o Flamengo, o presidente deu uma série de atribuições. Uma era fazer diagnósticos e encontrar soluções. Eu fiz, dei a solução e o presidente aceitou, bateu o martelo”, afirma. A fala é lida como tentativa de dividir desgaste e mostrar alinhamento com o comando do clube.
Re desenho no futebol e impacto imediato
Nos bastidores da Gávea, Bap trabalha em silêncio por uma reformulação do futebol. O presidente já conversa com possíveis substitutos e desenha cenários para uma troca que não deixe o CT sem comando em plena crise e às vésperas de decisões importantes na temporada. A saída de Boto só não é sacramentada pela falta de acordo com um sucessor imediato.
O Flamengo estuda dois modelos principais para o novo desenho. Um deles prevê um diretor com perfil mais “boleiro”, com trânsito direto no vestiário, capaz de restabelecer a ponte com as lideranças do elenco. A outra opção é um executivo mais técnico, acompanhado de um supervisor com maior entrada entre os jogadores. Em ambos os casos, a prioridade é reduzir ruídos e dar a Leonardo Jardim um ambiente minimamente estável.
A multa de quatro salários, embora represente gasto relevante dentro da folha diretiva, não é o principal obstáculo. A maior preocupação é o efeito dominó de mais uma troca no comando do futebol. A instabilidade impacta negociações de reforços e saídas, interfere no planejamento de médio prazo e pode contaminar o desempenho em campo em um ano que inclui Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Copa Libertadores.
Para Boto, a equação também pesa. A avaliação de aliados é que um pedido de demissão preservaria sua imagem no mercado europeu e brasileiro, abrindo portas para novos projetos em 2027. Ser demitido, ainda que com o pagamento integral da multa rescisória, poderia colar no dirigente o rótulo de responsável por um ciclo turbulento no clube de maior orçamento do país.
Pressão, calendário e a dúvida sobre o desfecho
Enquanto o impasse se arrasta, o time entra em campo sob pressão ampliada. Cada resultado passa a ser lido também como termômetro da força política de Boto e da urgência por mudanças no organograma. Uma sequência ruim pode acelerar o rompimento. Uma reação em campo tende a dar fôlego ao dirigente para negociar uma saída menos traumática.
Bap, por sua vez, tenta equilibrar a necessidade de respostas rápidas com o temor de aprofundar a instabilidade. Depois de uma demissão contestada como a de Filipe Luís, qualquer novo movimento brusco será examinado com lupa por torcedores, conselheiros e mercado. A escolha do sucessor de Boto, quando vier, sinalizará qual modelo de gestão o Flamengo pretende adotar nos próximos anos.
Entre multa rescisória, desgaste interno e calendário apertado, o clube caminha em um fio tênue. A permanência de José Boto parece uma questão de tempo, não de convicção. A dúvida, hoje, é se o diretor sairá pela porta da rua ou se abrirá ele mesmo a maçaneta, em busca de um recomeço longe do Ninho do Urubu.
