Conta ligada a Khamenei divulga imagem de míssil iraniano contra Israel
Uma conta oficial ligada a Ali Khamenei publica, nesta quarta-feira (5/3), uma peça de propaganda militar que mostra mísseis iranianos atingindo uma cidade associada a Israel. A imagem circula nas redes horas depois de novos relatos sobre os ataques norte-americanos e israelenses que matam o líder supremo em Teerã. O material eleva a tensão no Oriente Médio e reforça a retórica de retaliação do regime iraniano.
Propaganda militar após a morte do líder supremo
A postagem surge menos de uma semana após os bombardeios que, no sábado (28/2), atingem instalações estratégicas em Teerã e resultam na morte de Khamenei. Mesmo sem o líder no comando, o canal oficial mantém ativa a narrativa de confronto, agora turbinada por uma iconografia de guerra que mira diretamente Israel.
No cartaz divulgado, um míssil iraniano cruza o céu e atinge uma cidade estilizada, marcada explicitamente pela bandeira de Israel. No plano central, o armamento aparece pronto para o lançamento, instalado sobre uma plataforma móvel, sob a bandeira tricolor do Irã. A composição remete a um arsenal em prontidão permanente, mesmo em meio ao vácuo de poder aberto pela morte do aiatolá.
A parte inferior da arte mostra um cenário industrial limpo, com estruturas metálicas, painéis digitais e técnicos em jalecos operando equipamentos de grande porte. A mensagem implícita é de capacidade tecnológica consistente, capaz de sustentar um programa de mísseis de longo alcance, desenvolvido ao longo de décadas à margem de sanções internacionais. A propaganda transforma laboratórios e oficinas em vitrine do que Teerã vende como autossuficiência militar.
O texto que acompanha a imagem, em persa, faz referência direta ao avanço dos mísseis balísticos e à disposição para responder a ataques externos. Ainda que não traga datas, nomes de alvos ou coordenadas, a associação visual com a bandeira israelense dispensa sutilezas. A conta, vinculada ao gabinete do líder supremo, já é usada há anos como alto-falante da linha mais dura do regime e volta a cumprir esse papel no momento de maior incerteza interna desde a Revolução Islâmica de 1979.
Escalada simbólica em um tabuleiro já inflamado
A publicação não ocorre no vazio. O Irã enfrenta há pelo menos 20 anos sucessivas rodadas de sanções dos Estados Unidos e da Europa, justamente por causa do programa de mísseis e do avanço nuclear. A escolha de exibir um ataque direto à bandeira de Israel, em 5 de março de 2025, acrescenta um novo degrau à escalada, agora no terreno da comunicação digital.
Analistas ouvidos por veículos internacionais descrevem a peça como um recado simultâneo para fora e para dentro. Para o público doméstico, o cartaz tenta mostrar que o eixo militar segue intacto, apesar das baixas na cúpula e dos danos em instalações em Teerã. Para rivais regionais, a imagem sugere que qualquer operação futura contra território iraniano pode encontrar resposta com mísseis de alcance regional.
A retórica visual ganha peso porque surge num ambiente já saturado por trocas de acusações diárias entre Teerã e Jerusalém. Israel, que não comenta oficialmente cada mensagem iraniana, sustenta desde 2024 uma política de “atenção máxima” ao programa de mísseis do adversário. Em comunicados recentes, militares israelenses classificam o aparato balístico iraniano como “ameaça existencial”, expressão usada para justificar operações preventivas além das fronteiras.
A imagem da conta ligada a Khamenei pressiona também os Estados Unidos, que lideram coalizões militares e diplomáticas na região. Washington tenta, desde 2015, combinar sanções, negociações e ações secretas para frear o avanço tecnológico do Irã. Publicações como a desta quarta podem fortalecer alas no Congresso americano que defendem novas penalidades econômicas e reforço da presença militar no Golfo Pérsico.
Risco de reação em cadeia e próximos passos
No curto prazo, a propaganda tende a alimentar respostas verbais e diplomáticas de Israel e de seus aliados europeus. Em crises anteriores, mensagens semelhantes provocam aumento imediato em alertas de segurança, reforço de defesas aéreas e monitoramento mais intenso de rotas marítimas e aéreas ligadas ao Irã. A alta do preço do petróleo e do gás, em um mercado já sensível a choques, é um risco concreto caso a retórica avance para choques militares diretos.
A médio prazo, a peça reforça a percepção de que o programa de mísseis se torna elemento central da estratégia iraniana de dissuasão. Israel pode responder com novas operações cirúrgicas contra instalações militares, enquanto potências como Rússia e China observam espaço para ampliar influência em Teerã. A Organização das Nações Unidas, que acompanha o dossiê iraniano há mais de duas décadas, enfrenta o desafio de agir antes que a guerra de imagens se converta em guerra aberta.
Diplomatas em capitais ocidentais avaliam que o período até o fim de 2025 será decisivo para definir se o Irã caminha para algum tipo de acomodação negociada ou para um confronto ainda mais direto com Israel. A conta ligada a Khamenei, ao projetar mísseis sobre a bandeira israelense poucos dias após a morte do líder, deixa no ar uma pergunta simples e inquietante: quem, em Teerã, está disposto a controlar o gatilho.
