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Violência contra mulheres cresce 9% em 2025, com explosão de estupros

A violência contra mulheres volta a subir em 2025 no Brasil. Levantamento exclusivo revela aumento de 9% no total de vítimas e um salto de 56,6% nos casos de violência sexual e estupro em relação a 2024.

Explosão de estupros e crianças no centro da estatística

O estudo “Elas Vivem: a urgência da vida”, da Rede de Observatórios da Segurança, aponta 4.558 mulheres vitimadas em 2025 nos nove estados monitorados. Os dados, obtidos com exclusividade pela CNN Brasil, mostram que o país registra, em média, mais de 12 mulheres atacadas por dia apenas nessas regiões.

Entre todos os tipos de violência, o crescimento mais agudo ocorre na violência sexual e no estupro. Os registros saltam de 602 para 961 casos em um ano, um avanço de 56,6%. Em mais da metade dos episódios, a vítima ainda não chegou à vida adulta: 56,5% das mulheres atacadas sexualmente são crianças e adolescentes de 0 a 17 anos.

As tentativas de feminicídio e as agressões físicas respondem por 1.798 ocorrências no período, consolidando um retrato de violência extrema. O levantamento também mapeia agressões verbais, cárcere privado, dano ao patrimônio, sequestro, homicídios, feminicídios, transfeminicídios e supressão de documentos, entre outras formas de ataque.

Os números são produzidos a partir de um monitoramento diário de notícias sobre violência e segurança pública, cruzadas com bases de dados oficiais. Pesquisadores leem reportagens, identificam casos com indícios de violência de gênero e organizam essas informações em um banco próprio, que passa por revisão antes da consolidação final.

Segundo a Rede de Observatórios, essa metodologia permite capturar episódios que a burocracia policial não classifica como violência contra a mulher, mesmo quando há claros sinais de agressão de gênero. “Casos enquadrados como lesão corporal, ameaça ou briga de família muitas vezes escondem violência misógina”, aponta a coordenação do estudo.

São Paulo lidera em números absolutos; Amazonas explode em proporção

O recorte por estado revela realidades distintas. São Paulo concentra o maior número de casos: entre 2020 e 2025, são 5.881 registros de violência de gênero. A partir de 2023, o estado ultrapassa mil ocorrências anuais. Apenas em 2025, o levantamento identifica 1.065 situações de violência contra mulheres, das quais 549 são cometidas por parceiros ou ex-parceiros.

Os dados expõem a face mais letal da violência doméstica. Relações afetivas, que deveriam representar segurança, aparecem como principal cenário de agressões graves. Pesquisadores destacam que o agressor costuma conhecer a rotina da vítima, o que facilita ameaças, perseguições e ataques repetidos.

O Amazonas ocupa o segundo lugar em número de registros, com 1.023 casos, mesmo com população quase dez vezes menor que a paulista. A taxa proporcional de violência é uma das mais altas do país. O estado registra 54 mortes violentas de mulheres em 2025, somando homicídios, feminicídios e transfeminicídios.

Entre as 353 vítimas de violência sexual identificadas no Amazonas, 78,4% são meninas e adolescentes de até 17 anos. O dado joga luz sobre a vulnerabilidade de crianças em regiões marcadas por desigualdade, distâncias extremas e baixa presença do Estado. A combinação de pobreza, isolamento geográfico e redes de proteção frágeis deixa meninas mais expostas a abusos dentro de casa e em comunidades.

O estudo reforça ainda a dimensão racial da violência. Em âmbito nacional, 62,6% das vítimas de feminicídio são mulheres negras, o que demonstra que gênero e raça se cruzam na produção da tragédia. A maior parte delas vive em áreas periféricas, com acesso limitado a serviços públicos de saúde, justiça e assistência social.

Outra frente de alerta aparece nas tentativas de proteção que falham. Segundo o levantamento, 13,1% das mulheres mortas por feminicídio tinham medida protetiva em vigor. A informação indica que a distância entre a decisão judicial e a proteção efetiva segue grande, seja por falta de estrutura policial, seja por ausência de monitoramento eficiente dos agressores.

Subnotificação, pressão por políticas e disputa por respostas

Os pesquisadores destacam que os números não retratam todo o problema, mas o topo de um iceberg. A violência contra a mulher é um dos crimes mais subnotificados do país. Muitas vítimas não procuram a polícia por medo, vergonha, dependência econômica ou descrença no sistema de justiça. “Quando olhamos apenas os boletins oficiais, perdemos uma parte importante da realidade”, afirma a equipe da Rede de Observatórios.

O monitoramento de notícias ajuda a reduzir essa cegueira institucional. Ao rastrear diariamente reportagens de TV, rádio, jornais impressos e portais, o estudo identifica casos que não aparecem com clareza nas estatísticas oficiais, mas que deixam rastro na cobertura jornalística local. A partir daí, pesquisadores classificam cada episódio por tipo de violência, perfil da vítima, local e possível relação com o agressor.

O quadro de 2025 pressiona governos estaduais e o governo federal a rever prioridades. O aumento de 9% no total de mulheres vitimadas, somado ao salto de 56,6% na violência sexual, aponta falhas na prevenção, na proteção e na responsabilização de agressores. Especialistas cobram expansão de casas-abrigo, delegacias especializadas com atendimento 24 horas, equipes treinadas em hospitais e centros de referência e redes de apoio capazes de acolher vítimas em tempo real.

Os dados de São Paulo e Amazonas ilustram ainda que a violência não se limita a grandes metrópoles nem a regiões isoladas. Ela atravessa cidades ricas e pobres, capitais e interiores, mas atinge com mais força quem tem menos acesso a direitos. Em comum, as vítimas enfrentam demora em medidas de proteção, dificuldade para romper ciclos de violência e, muitas vezes, a ausência de respostas rápidas quando decidem denunciar.

O estudo “Elas Vivem” serve de base para debates sobre novas políticas públicas e para a revisão das já existentes. Organizações da sociedade civil defendem o fortalecimento da Lei Maria da Penha na prática diária, com fiscalização rigorosa de medidas protetivas e monitoramento eletrônico de agressores reincidentes. Cobram também campanhas permanentes de informação, para que mulheres e meninas saibam onde e como buscar ajuda.

A manutenção do monitoramento até o fim de 2025 deve indicar se o país assiste a um pico temporário de violência ou a uma curva contínua de agravamento. Enquanto não há resposta clara, a cada nova estatística de estupro, tentativa de feminicídio ou morte violenta, a pergunta que se impõe é se o Estado e a sociedade estarão dispostos a tratar esses números não como rotina, mas como urgência.

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