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Desabamento de lar de idosos em BH deixa 12 mortos e expõe falhas

O desabamento da Casa de Repouso Pró-Vida, na madrugada de 5 de março de 2026, deixa 12 mortos e 8 sobreviventes em Belo Horizonte. A tragédia atinge idosos em situação de vulnerabilidade e escancara o risco em prédios que passam por reformas sem fiscalização adequada.

Resgate varre madrugada e encerra buscas após 28 horas

O prédio cede por volta de 1h30 de quinta-feira, no Jardim Vitória, Região Nordeste da capital mineira. Em poucos segundos, o que antes era um complexo com casa de repouso, residência, academia e clínica de estética se transforma em um amontoado de concreto, poeira e gritos abafados. A rotina silenciosa dos idosos vira operação de guerra.

O Corpo de Bombeiros mobiliza o maior efetivo já registrado na região em uma ocorrência do tipo. Ao longo do dia, o número de militares cresce até chegar a 140 agentes, reforçados na noite de quinta-feira, por volta de 22h40. Eles avançam sobre os escombros com escoras, cães farejadores, máquinas e, sobretudo, silêncio, na tentativa de ouvir qualquer sinal de vida. “Pedimos que quem ainda estivesse vivo batesse nos escombros, qualquer ruído ajudava a orientar as buscas”, relatam os bombeiros.

As primeiras vítimas são retiradas ainda nas primeiras horas da manhã. Três idosos têm a morte confirmada por volta de 6h, 10h e 10h50 de quinta. Às 11h20, os militares localizam o corpo de Renatinho, filho do dono da casa de repouso e proprietário da academia que funcionava no último andar. O clima, que já é de choque, ganha contornos pessoais entre os vizinhos, que conhecem a família há anos.

O balanço de mortes sobe ao longo do dia. A quinta vítima, outro idoso, tem o óbito confirmado por volta de 12h30. A sexta, pouco depois de 13h. No início da noite, os bombeiros encontram duas idosas, de 87 e 88 anos, soterradas. No fim da noite, emerge dos destroços o corpo de uma idosa de 99 anos. Na madrugada desta sexta-feira, mais dois corpos, ainda sem identidade divulgada, aparecem entre 0h40 e 4h. A última vítima é localizada por volta de 6h, encerrando cerca de 28 horas de buscas ininterruptas.

Oito pessoas saem com vida do desastre e seguem para atendimento em unidades de saúde, como o Hospital Odilon Behrens e a UPA Nordeste. Os dois proprietários do estabelecimento estão no prédio no momento do desabamento e são resgatados. Equipes médicas e psicólogos passam a acompanhar sobreviventes e familiares, entre o alívio de quem reencontra parentes e o choque de quem recebe a confirmação de morte.

Prédio de alto risco, reformas recentes e fiscalização em xeque

O edifício que abriga a Casa de Repouso Pró-Vida é classificado como de alto risco pelo próprio Corpo de Bombeiros, categoria que exige projetos específicos de segurança e prevenção. Entre fevereiro e agosto de 2025, o imóvel passa por uma série de intervenções, com foco no pavimento superior, onde funciona a academia de Renatinho. Ao longo desse período, o prédio mistura funções distintas: lar de idosos no primeiro andar, residência dos proprietários no segundo, academia no terceiro e clínica de bronzeamento no térreo.

Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que reformas mal planejadas em prédios antigos podem comprometer vigas, pilares e lajes, ainda mais quando há sobrecarga de uso. “Cada mudança na estrutura precisa respeitar um cálculo técnico e ser acompanhada de perto. Quando isso não ocorre, o risco deixa de ser teórico”, diz um engenheiro civil com experiência em perícias estruturais. As causas exatas do desabamento, porém, ainda estão em apuração pelas autoridades.

O caso acende um alerta para a rede de instituições que atendem idosos em Minas Gerais e no país. Lares de repouso costumam ocupar construções adaptadas, nem sempre planejadas desde o início para receber pessoas com mobilidade reduzida e necessidade de evacuação rápida. “A população idosa cresce, mas o padrão de segurança de muitos desses espaços permanece preso ao improviso”, avalia uma advogada que atua na defesa de direitos de idosos.

No Jardim Vitória, moradores relatam barulhos constantes de obras e circulação intensa no prédio nos últimos meses. Parte da vizinhança, porém, admite que se acostuma com a presença do imóvel e não imagina o risco concreto de um colapso. A tragédia, agora, reposiciona a discussão sobre quem fiscaliza reformas, quem autoriza o funcionamento de atividades múltiplas em um mesmo edifício e como o poder público acompanha estabelecimentos que abrigam pessoas vulneráveis.

Pressão por responsabilização e revisão das regras

A repercussão do desabamento extrapola Belo Horizonte e chega a Brasília, com cobranças por mudanças nas normas que regulam casas de repouso. Autoridades estaduais prometem uma investigação rigorosa sobre a cadeia de responsabilidades, da aprovação de projetos às últimas reformas. O Ministério Público acompanha o caso e avalia a abertura de inquéritos civis e criminais para apurar negligência, omissão e eventuais irregularidades nas licenças de funcionamento.

Famílias das vítimas e sobreviventes recebem atendimento psicológico e começam a se organizar para buscar assistência jurídica. Entidades de defesa dos idosos pedem um mutirão de fiscalização em lares públicos e privados, com prazos definidos para correção de falhas estruturais. Redes de solidariedade se formam no bairro para apoiar quem perdeu parentes e bens pessoais no desabamento.

O setor de cuidados de longa permanência, que já opera sob pressão financeira e alta demanda, entra novamente em foco. Especialistas defendem a criação de um cadastro nacional de instituições, com notas de risco e transparência sobre vistorias, algo semelhante ao que já existe em outros países. “Segurança estrutural não pode depender apenas da consciência do dono do imóvel. Precisa ser política de Estado, com fiscalização contínua”, afirma um pesquisador em políticas públicas de envelhecimento.

As próximas semanas devem ser marcadas por laudos técnicos, oitivas e disputas sobre responsabilidades, enquanto as famílias se dedicam ao luto. A cena do prédio colapsado no Jardim Vitória, porém, permanece como lembrança concreta de um problema mais amplo: a convivência entre envelhecimento acelerado da população, improviso urbano e fiscalização falha. A principal pergunta, agora, é se o choque dessa madrugada será suficiente para tirar do papel as mudanças prometidas antes que outro prédio desabe.

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