Robô chinês encontra camada de “gelo sujo” sob antigo mar em Marte
O jipe-robô chinês Zhurong identifica, na Planície Utopia, em Marte, uma camada subterrânea de “gelo sujo” com cerca de 7 metros de espessura. O achado, divulgado até o início de março de 2026, revela água preservada abaixo da superfície e reacende a discussão sobre o passado oceânico do planeta vermelho.
Vestígios de um antigo oceano marciano
A camada de gelo aparece enterrada a aproximadamente 15 metros de profundidade, sob o solo do hemisfério norte marciano. Ali, na vasta Planície Utopia, diferentes missões já sugerem, há décadas, a existência de um antigo mar. Zhurong agora acrescenta uma peça concreta a esse quebra-cabeça ao mostrar que parte da água não desaparece: permanece presa, misturada ao solo e a fragmentos de rocha.
Os dados foram reunidos pela missão Tianwen-1, da Administração Nacional do Espaço da China (CNSA), e publicados no artigo “Evidências de gelo subsuperficial raso no local de pouso da Tianwen-1”, na revista Earth and Planetary Science Letters. A agência descreve a estrutura como uma mistura de gelo de água, solo marciano e cascalho, com pouca rocha compacta. “O estudo infere que essa camada é de ‘gelo sujo’, ou seja, uma mistura de gelo de água, solo marciano e cascalho, contendo uma pequena quantidade de rocha”, informou a CNSA.
Os instrumentos de Zhurong medem a forma como o subsolo reflete sinais enviados pelo robô e reconstruem camadas escondidas sob a poeira vermelha. A espessura irregular do gelo indica que essa reserva não está estática. “Atualmente, essa camada de gelo ainda está se degradando lentamente, e sua irregularidade espacial na espessura pode refletir esse processo de degradação”, explicou a agência em nota.
Água que evapora devagar e redesenha Marte
O gelo não desaparece de uma vez. A pesquisa sugere um processo contínuo, em que parte dessa mistura subterrânea libera vapor que sobe por fissuras e canais naturais. Segundo a CNSA, “a camada de gelo pode transportar vapor de água para cima através de canais como fissuras, afetando a composição do material da superfície”. Na prática, o subsolo funciona como um reservatório que ainda conversa com o ambiente atual de Marte.
Os cientistas chineses defendem que essa camada é um remanescente mais espesso de depósitos antigos, hoje reduzidos. Com o passar de milhões de anos, o gelo diminui e é coberto por solo marciano, como uma cicatriz geológica de um clima mais úmido. O registro preserva pistas sobre quando Marte teve água líquida em maior abundância e quando entrou no regime seco e frio observado hoje, com temperaturas que podem cair abaixo de -100 °C em algumas regiões.
A descoberta sustenta a hipótese de que a Planície Utopia abrigou um oceano no passado remoto. Se grande parte dessa água congelou sob a superfície, o planeta pode ter guardado porções significativas em camadas como essa, espalhadas em diferentes latitudes. Para a ciência, isso significa uma oportunidade rara de ler a história climática de Marte em camadas, como se fossem páginas sobrepostas de um arquivo geológico.
Impacto para futuras missões e para a corrida espacial
A confirmação de gelo a apenas alguns metros abaixo da superfície muda o planejamento de futuras missões. Reservas assim podem reduzir o volume de água que precisa ser levado da Terra em viagens tripuladas e em bases de pesquisa. A poucos metros de profundidade, o acesso se torna tecnicamente mais simples que perfurações profundas, o que reduz custos e riscos.
A camada em degradação lenta também interessa à busca por vestígios de vida passada. Ambientes em que água e minerais permanecem em contato por longos períodos oferecem condições mais estáveis para reações químicas complexas. Mesmo que Marte atual seja inóspito na superfície, bolsões como esse podem preservar assinaturas químicas de um tempo em que o planeta era mais parecido com a Terra primordial.
O avanço reforça a posição da China na exploração marciana. A CNSA mostra capacidade de pousar, operar e produzir dados inéditos em uma região-chave do planeta, até aqui estudada principalmente por sondas norte-americanas e europeias. Com resultados revisados e publicados em uma revista internacional, Pequim entra com mais força no debate científico sobre a água em Marte e atrai potenciais parceiros para novas missões conjuntas.
O que vem a seguir em Marte
Os dados de Zhurong alimentam modelos que tentam reconstruir, passo a passo, a evolução dos mares marcianos. Pesquisadores agora buscam mapear a extensão dessa camada de “gelo sujo” além da área de pouso da Tianwen-1 e comparar o subsolo de Utopia com outras regiões onde orbitadores já sugerem a presença de gelo enterrado. Cada novo ponto confirmado ajuda a desenhar o mapa da água marciana com mais precisão.
No curto prazo, a descoberta tende a influenciar o desenho de sondas, brocas e laboratórios móveis que irão a Marte na próxima década. No médio prazo, integra o cálculo de agências que planejam missões humanas para depois de 2040. A pergunta que permanece em aberto, enquanto o gelo subterrâneo termina de se degradar, é se essas reservas guardam apenas a memória física de um oceano antigo ou também as marcas de uma biologia que nunca vimos fora da Terra.
