Ataques dos EUA e Israel paralisam marinha iraniana e miram programa nuclear
Uma ofensiva coordenada dos Estados Unidos e de Israel destrói ou danifica ao menos 11 navios da marinha iraniana e atinge bases de mísseis e instalações nucleares entre 28 de fevereiro e 4 de março de 2026. As ações miram a capacidade militar do Irã em terra e no mar e elevam o risco de uma escalada regional.
Imagens de satélite revelam dimensão dos ataques
Novas imagens de satélite analisadas pela BBC Verify, serviço de checagem de dados e imagens da BBC, mostram fumaça densa sobre bases navais estratégicas iranianas. Em Konarak, no sudeste do país, e em Bandar Abbas, no Estreito de Ormuz, navios aparecem em chamas entre a segunda (2/3) e a terça-feira (3/3). O maior deles, o IRINS Makran, usado como plataforma de drones, surge envolto em fumaça preta, atracado ao cais principal.
As fotos, fornecidas pela empresa de inteligência Vantor, indicam danos severos em estruturas de cais, armazéns e oficinas navais. Analistas da empresa de inteligência Maiar relatam pelo menos cinco embarcações “atingidas ou afundadas” em Bandar Abbas. Em Konarak, a mesma empresa identifica danos em seis navios e em várias construções da base, reduzidas a escombros em imagens registradas na segunda-feira.
Em paralelo, a empresa de segurança marítima Vanguard lista entre as embarcações destruídas as fragatas IRIS Bayandor, IRIS Naghdi e IRIS Jamaran. A companhia afirma ainda que o IRIS Shahid Bagheri, navio de transporte de drones lançado em 2025, foi afundado, informação que a BBC Verify não consegue confirmar de forma independente. O comando central dos EUA, porém, fala em números ainda maiores.
O chefe do Comando Central americano (Centcom), almirante Brad Cooper, declara em vídeo publicado no X que 17 embarcações iranianas são destruídas, incluindo o “principal submarino operacional” do país. “Por décadas, o regime iraniano perturbou a navegação internacional”, afirma. “Hoje, não há um único navio iraniano navegando no Golfo da Arábia, no Estreito de Ormuz ou no Golfo de Omã e não iremos parar.”
Marinha visada, mísseis e núcleo nuclear sob pressão
O presidente americano, Donald Trump, usa a expressão “aniquilar” para descrever o objetivo em relação à marinha iraniana. Em discurso na segunda-feira (2/3), ele elenca três metas principais no Irã: destruir a força naval, eliminar bases de mísseis e impedir o avanço do programa nuclear. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, confirma na quarta-feira (4/3) o uso de um submarino americano que dispara um torpedo contra um navio de guerra iraniano no Oceano Índico, em ataque de alto mar.
Enquanto os navios queimam em Konarak e Bandar Abbas, a campanha aérea avança para o interior do país. Imagens de satélite mostram impactos em bases de mísseis em Khorgu, no sul do Irã, e em Tabriz, no noroeste. Em Konarak, além do porto militar, bunkers e depósitos de mísseis na base aérea vizinha aparecem perfurados e destelhados. Na base de drones de Choqa Balk-e, perto de Kermanshah, no oeste, armazéns e equipamentos de lançamento aparecem destruídos, numa tentativa clara de desgastar a capacidade iraniana de ataque à distância.
Instalações nucleares também entram na mira. Em Natanz, há anos apontado como centro do programa de enriquecimento de urânio do Irã, as imagens mais recentes revelam novos danos em estruturas de acesso à usina subterrânea. O local já havia sido atingido por ataques americanos em 2025. Na ocasião, Teerã nega que as principais instalações nucleares tenham sido “obliteradas”, como sustenta Trump, e a Agência Internacional de Energia Atômica informa que não há “consequência radiológica” registrada.
O alcance dos ataques desta nova fase ainda é impreciso, mas o Centcom afirma ter destruído “centenas” de alvos de defesa aérea, mísseis balísticos e drones. Em Zahedan, no leste do país, próximo às fronteiras com Afeganistão e Paquistão, uma instalação de radar surge seriamente danificada. Em Teerã, imagens da Vantor do dia 3 de março mostram destruição em pelo menos seis estruturas ligadas ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), além de sinais de danos na Universidade Nacional de Defesa e no Ministério da Inteligência.
Civis sob fogo cruzado e risco global no Estreito de Ormuz
A ofensiva militar tem custo humano crescente. Autoridades iranianas afirmam que ao menos 160 pessoas morrem no ataque a uma escola em Minab, no sul do país, entre elas crianças. A agência de notícias Human Rights Activists (HRANA), sediada nos Estados Unidos, contabiliza 1.097 civis mortos desde o início do conflito, em 28 de fevereiro. Diversas construções civis em Teerã e em outras cidades aparecem danificadas em vídeos e relatos locais.
Governos vizinhos sentem os efeitos do conflito em expansão. No Sri Lanka, autoridades relatam que um navio iraniano começa a afundar perto de suas águas na quarta-feira (4/3), com cerca de 140 pessoas desaparecidas, o que leva o país a iniciar uma operação de resgate. O episódio reforça a dimensão regional dos combates e a dificuldade de delimitar a linha entre alvos militares e impactos colaterais em rotas civis.
Mesmo sob ataques sucessivos, o Irã mantém capacidade de resposta assimétrica, apontam analistas militares ouvidos pela BBC Verify. O ex-chefe das forças armadas irlandesas, Mark Mellett, avalia que os EUA e Israel “neutralizam em grande parte ou, pelo menos, suprimem” a capacidade convencional da marinha iraniana, baseada em grandes navios de guerra. Ele alerta, porém, que o país ainda dispõe de drones, minissubmarinos e navios fantasmas, petroleiros que operam à margem das normas marítimas e usam táticas para esconder sua identidade.
Especialistas da Maiar projetam que Teerã pode apostar, nos próximos dias, em lanchas rápidas armadas com mísseis antinavio, capazes de ataques de oportunidade contra navios militares e petroleiros. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, permanece como ponto mais sensível. O Irã tem meios para espalhar minas navais nas principais rotas de transporte e lançar enxames de drones contra portos e terminais estratégicos no Golfo.
Incógnitas sobre escalada e pressão por negociação
Os ataques em solo iraniano também miram a espinha dorsal do aparato de segurança interna do regime, avalia o ex-chefe do Centcom Joseph Votel. Em entrevista à BBC, ele afirma que muitos alvos buscavam minar “a capacidade do regime de controlar a população”. Em Teerã, a sede do CGRI, a universidade militar e prédios ligados à inteligência aparecem atingidos, o que sinaliza tentativa de fragilizar tanto a repressão interna quanto a coordenação de operações externas.
O Instituto para o Estudo da Guerra, centro de pesquisa com sede nos EUA, nota uma redução dos ataques de mísseis iranianos contra Israel e Emirados Árabes Unidos. Para os analistas do instituto, essa queda é forte indicação de que a campanha para destruir lançadores de mísseis balísticos obtém “sucesso considerável”. Ainda assim, não há clareza sobre a extensão dos estoques remanescentes do Irã nem sobre sua disposição em abrir uma frente mais direta contra interesses americanos na região.
Mercados de energia reagem com nervosismo, diante do risco de qualquer interrupção no fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz. Governos europeus e asiáticos intensificam pedidos por contenção e negociações diplomáticas para evitar uma guerra mais ampla, enquanto as imagens de satélite seguem como principal ferramenta para acompanhar a evolução do conflito em tempo quase real.
A BBC Verify continua a analisar novos registros da Vantor e de outras empresas comerciais, em meio a uma campanha militar que ainda não dá sinais claros de recuo. As próximas semanas devem mostrar se a pressão aérea de Estados Unidos e Israel consegue limitar de forma duradoura o poder militar do Irã ou se empurra o conflito para uma fase mais imprevisível, marcada por ataques não convencionais e riscos maiores para o tráfego marítimo global.
