Esportes

TJD-SP suspende Gustavo Marques por 12 jogos por ataque machista a árbitra

O Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo suspende por 12 jogos o zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, e o multa em R$ 30 mil por ataques machistas contra a árbitra Daiane Caroline Muniz dos Santos. A decisão é tomada nesta quarta-feira (4), menos de duas semanas após as declarações sobre a capacidade da juíza por ela ser mulher, dadas depois da eliminação do clube no Campeonato Paulista.

Punição rápida após declarações pós-jogo

O episódio que leva o caso ao tribunal ocorre em 21 de fevereiro de 2026, no Morumbi, depois da derrota do Bragantino por 2 a 1 para o São Paulo, resultado que tira o time de Bragança Paulista do Paulistão. Ainda no gramado, diante das câmeras de TV, Gustavo Marques questiona a escalação de Daiane e a vincula diretamente ao fato de ser mulher, atribuindo a ela a responsabilidade pela eliminação.

Em uma das entrevistas, o zagueiro afirma que a Federação Paulista de Futebol “não deveria colocar uma mulher para apitar um jogo deste tamanho” e diz não acreditar na capacidade da árbitra por causa do gênero. Ele a acusa de favorecer o São Paulo e de “acabar com o sonho” do Bragantino de chegar à semifinal. As falas circulam em redes sociais, geram reação imediata de torcedores, movimentos de mulheres e de entidades ligadas ao futebol feminino.

Daiane, árbitra FIFA e uma das principais representantes brasileiras em competições internacionais, apita jogos de elite há anos, incluindo partidas de Série A do Brasileiro. A contestação de sua escalação não se limita ao desempenho naquela noite, mas ataca diretamente sua condição de mulher em um ambiente historicamente dominado por homens. A crítica extrapola o debate esportivo e se transforma em caso disciplinar.

O Bragantino reage já no dia seguinte. Em nota oficial, o clube repudia as declarações do defensor, afirma não compactuar com atitudes discriminatórias e informa que Gustavo reconhece o erro ainda nas dependências do estádio, onde pede desculpas à árbitra. A Federação Paulista também se manifesta em apoio público a Daiane e encaminha o episódio ao TJD-SP, abrindo o caminho para a denúncia formal.

Tribunal enquadra zagueiro e reforça combate ao machismo

O julgamento ocorre em São Paulo e mira não apenas o conteúdo, mas o alcance das falas. As declarações vão ao ar em rede nacional, em entrevista ao vivo, logo após um jogo decisivo do Campeonato Paulista. Para os auditores do TJD-SP, o zagueiro ultrapassa a crítica comum à arbitragem e entra no terreno da discriminação de gênero e do ataque à honra da profissional.

A pena de 12 partidas de suspensão vale apenas para competições estaduais organizadas pela FPF, como o próprio Paulistão e a Copa Paulista. A multa de R$ 30 mil recai diretamente sobre o jogador, que ainda pode recorrer dentro da Justiça Desportiva. O tribunal enquadra Gustavo em dispositivos do Código Brasileiro de Justiça Desportiva que tratam de ofensas e manifestações preconceituosas contra integrantes da arbitragem.

O peso simbólico da condenação é imediato. Em um cenário em que árbitras e assistentes mulheres ainda enfrentam resistência, a punição é lida por dirigentes e especialistas como recado claro de que o discurso machista não encontra mais espaço institucional. A FPF, que já vinha promovendo campanhas contra discriminação, promete fortalecer ações de educação com clubes e atletas.

As próprias declarações de Gustavo ajudam a dimensionar o caso. Em outro trecho da entrevista, o zagueiro diz que a federação deve “olhar para os jogos deste tamanho e não colocar uma mulher”, ainda que tente relativizar o ataque ao afirmar ter “respeito às mulheres do mundo” e mencionar mãe e esposa. O contraste entre a justificativa e o conteúdo da crítica reforça a leitura de violência simbólica contra a árbitra.

Reação no futebol e efeitos práticos da decisão

A repercussão ultrapassa o Bragantino. Entidades esportivas, grupos de arbitragem e atletas se manifestam nas redes em apoio a Daiane. Colegas homens e mulheres lembram que questionar a competência de uma árbitra apenas por ser mulher não é opinião, mas discriminação. A juíza recebe solidariedade pública e se torna símbolo de um debate mais amplo sobre igualdade de gênero no esporte.

Para o Red Bull Bragantino, a suspensão traz impacto direto no campo. O clube perde um zagueiro de rotação importante para até 12 jogos em competições locais, o que afeta planejamento de elenco e uso de jovens da base. A multa de R$ 30 mil, embora não pese no orçamento do time, tem efeito pedagógico sobre o atleta, que passa a ser visto como exemplo negativo em ações internas de compliance.

O caso também pressiona federações e clubes a revisar protocolos. A FPF indica que vai reforçar cursos e campanhas educativas sobre discurso de ódio, discriminação e violência de gênero, atingindo jogadores, treinadores e dirigentes. Outras entidades acompanham o julgamento e estudam adotar parâmetros semelhantes em regulamentos próprios, alinhando punições para episódios de machismo, racismo e homofobia.

Movimentos de torcedoras organizadas apontam a decisão como avanço, mas cobram coerência em casos futuros. A avaliação é que o futebol brasileiro ainda naturaliza xingamentos e ataques misóginos vindos das arquibancadas e de entrevistas pós-jogo. A punição a Gustavo, nesse contexto, funciona como teste da disposição dos tribunais desportivos em enfrentar o problema de forma consistente.

Machismo em campo e próximos passos do caso

A conduta de Gustavo se soma a outros episódios recentes de violência simbólica contra mulheres no esporte, em especial no futebol. Árbitras, técnicas e comentaristas relatam ataques diários, muitos deles impulsionados por derrotas e frustrações que acabam despejadas sobre figuras femininas em posição de autoridade. A linha entre crítica esportiva e discurso discriminatório, antes tratada como zona cinzenta, passa a ser delimitada com mais rigor pelos tribunais.

O jogador promete rever sua postura e se compromete, internamente, a colaborar com campanhas contra a discriminação, segundo pessoas próximas ao elenco. A defesa ainda pode recorrer da decisão do TJD-SP, o que pode reduzir ou manter a pena. A discussão, porém, já transborda o caso individual: a suspensão de 12 jogos e a multa de R$ 30 mil se tornam referência para o futebol brasileiro, que agora precisa provar se está disposto a manter o mesmo padrão de intolerância a ataques machistas quando a pressão vier de outros clubes, outros jogadores e outros microfones.

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