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Irã e Israel trocam série de mísseis e elevam risco de guerra ampla

Irã e Israel trocam uma série de ataques com mísseis no sexto dia do conflito ampliado no Oriente Médio. A escalada alarma governos e mercados em todo o mundo.

Conflito muda de patamar em menos de uma semana

Os lançamentos desta quinta-feira (6º dia de confrontos) consolidam um novo patamar de enfrentamento direto entre dois dos principais adversários da região. Depois de anos de choques indiretos, por meio de aliados e milícias, Teerã e Jerusalém abrem uma fase em que os dois países se atacam frontalmente, com impacto imediato sobre a segurança regional.

Autoridades de segurança na região descrevem as últimas 24 horas como as mais tensas desde a guerra de 1973. “A margem de erro é mínima, e qualquer falha de cálculo pode desencadear um conflito de grandes proporções”, afirma um diplomata europeu que acompanha as negociações, sob condição de anonimato. Israel diz mirar alvos militares ligados ao programa de mísseis iraniano. O Irã fala em responder a “agressões contínuas” e promete novas retaliações se considerar sua soberania ameaçada.

Risco para energia, economia global e alianças

A troca de mísseis ocorre em meio a um aumento constante de tensão desde o início do mês e reforça o temor de um conflito prolongado. O Oriente Médio concentra cerca de 31% da produção mundial de petróleo e controla gargalos estratégicos, como o Estreito de Ormuz, por onde passam, em média, 20% do petróleo transportado por mar. Qualquer ameaça à navegação na região tende a pressionar preços de energia e alimentar a inflação global, num momento em que grandes economias ainda tentam consolidar a recuperação pós-pandemia.

Analistas ouvidos por centros de pesquisa em Washington e Bruxelas veem risco real de arrasto para além das fronteiras de Irã e Israel. “Cada foguete disparado aumenta a probabilidade de envolvimento de aliados, seja por tratados de defesa, seja por pressão política interna”, avalia a cientista política Samira Khatib, especialista em Oriente Médio. Países do Golfo, Estados Unidos, Rússia e potências europeias monitoram radares, fluxos de navios e comunicações militares em tempo real, cientes de que uma escalada pode reconfigurar alianças e empurrar rivais para lados opostos de uma mesma linha de frente.

De ataques pontuais à troca direta de mísseis

O conflito atual ganha corpo a partir de uma sequência de confrontos e ataques atribuídos a ambos os lados nas últimas semanas. A corrente crise começa a se delinear há cerca de dez dias, com bombardeios a posições de grupos aliados ao Irã em países vizinhos. No primeiro dia da escalada, Israel acusa Teerã de ter fornecido apoio logístico e armamento avançado a milícias que atuam nas suas fronteiras. O Irã reage com ameaças públicas e declara que “qualquer ataque contra seus aliados será tratado como ataque direto”.

Nos dias seguintes, alvos militares próximos a instalações estratégicas, como bases aéreas e centros de comando, sofrem ataques aéreos. A resposta iraniana chega em ondas calculadas de mísseis, que buscam atingir estruturas militares e simbólicas de Israel. Em menos de uma semana, segundo estimativas de serviços de inteligência da região, dezenas de projéteis são lançados em ambas as direções, em ataques sucessivos que testam os sistemas de defesa aérea e colocam as populações em estado constante de alerta. Em várias cidades, sirenes soam repetidas vezes ao longo do dia e da noite, e milhares de pessoas passam horas em abrigos.

O histórico de rivalidade entre os dois países molda o cenário atual. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o regime iraniano adota um discurso de confronto com Israel, que, por sua vez, vê o programa nuclear e de mísseis de Teerã como ameaça existencial. Em 2015, o acordo nuclear entre o Irã e potências globais reduz temporariamente a tensão, ao impor limites ao enriquecimento de urânio. Em 2018, a saída dos Estados Unidos do pacto, sob o governo Donald Trump, reabre a disputa e leva a novas sanções. A troca mais recente de mísseis se insere nesse ciclo de avanços diplomáticos interrompidos por choques militares sucessivos.

Economia em alerta e população em suspense

A escalada militar já provoca reflexos concretos. Nos mercados internacionais, o preço do barril de petróleo Brent oscila com alta acumulada em torno de dois dígitos desde o início da semana, segundo operadores em Londres. Companhias de frete marítimo revisam rotas, alongam prazos de entrega e discutem sobretaxas de risco, enquanto seguradoras recalculam prêmios para embarcações que cruzam a região. Investidores ajustam carteiras com maior peso em ativos considerados seguros, como ouro e títulos públicos de países centrais.

Na região, o custo humano se agrava a cada novo disparo. Agências humanitárias relatam deslocamentos forçados em áreas próximas a bases militares, com famílias deixando suas casas em poucas horas. “As pessoas vivem entre a tela do celular e o som das sirenes, tentando adivinhar onde o próximo míssil vai cair”, descreve um trabalhador humanitário que atua em um dos países vizinhos. Hospitais reforçam estoques e equipes, enquanto governos locais discutem planos de evacuação em caso de alvos próximos a áreas densamente povoadas.

A diplomacia internacional entra em campo, ainda sem sinais claros de trégua. Membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU realizam consultas de emergência desde o terceiro dia da escalada, mas não chegam, até agora, a uma resolução consensual. Potências com interesses diretos em energia e segurança na região avaliam a adoção de sanções adicionais, embargos de armas ou iniciativas de mediação. O risco é que medidas punitivas ampliem o isolamento e empurrem as partes ainda mais para a lógica militar, em vez de abrir espaço para negociações.

Pressão por trégua e incerteza sobre próximos movimentos

Diplomatas falam em uma janela estreita, medida em dias, para conter a escalada antes que alianças militares formais entrem em ação. Se aliados de Irã e Israel se sentirem obrigados a responder, o conflito pode ganhar uma dimensão que foge ao controle das capitais envolvidas. “Uma guerra mais ampla no Oriente Médio hoje não ficaria restrita à região e teria efeitos em cadeia sobre segurança alimentar, preço de energia e fluxos migratórios”, alerta o analista de segurança regional Karim Darwish.

Num cenário em que nenhum dos lados quer parecer fraco diante de sua própria opinião pública, o desafio é encontrar uma saída que permita recuo sem humilhação. Iniciativas de cessar-fogo supervisionado, garantias de não agressão ou mecanismos de verificação de ataques podem entrar na mesa nas próximas rodadas de contatos, se houver disposição real para conversa. Enquanto novas baterias de mísseis permanecem apontadas e prontas para disparo, a principal pergunta que permanece é se os líderes em Teerã e Jerusalém estão dispostos a aceitar o custo político de parar antes que a próxima salva de foguetes redesenhe, de forma irreversível, o mapa de poder do Oriente Médio.

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