Ataques dos EUA e de Israel devastam marinha e bases militares do Irã
Uma campanha aérea conjunta dos Estados Unidos e de Israel atinge em cheio a infraestrutura militar do Irã entre 28 de fevereiro e 4 de março de 2026. Imagens de satélite mostram navios, bases de mísseis e instalações ligadas ao programa nuclear iraniano em chamas. Washington afirma que busca aniquilar a marinha iraniana e impedir o avanço de armas nucleares.
Frota iraniana em chamas e alvos nucleares sob ataque
As primeiras imagens chegam no fim de semana, vindas de Konarak, no sudeste iraniano, e de Bandar Abbas, no estratégico Estreito de Ormuz. Fumaça densa sobe de embarcações atracadas e de hangares destruídos. Até a noite de terça-feira, análises da BBC Verify, serviço de verificação de dados e imagens da BBC, indicam pelo menos 11 navios da marinha iraniana destruídos ou seriamente danificados.
No centro da base de Bandar Abbas, o IRINS Makran, maior navio da marinha iraniana e plataforma crucial para o lançamento de drones, aparece rodeado por manchas de fogo e fumaça preta. A empresa de segurança marítima Vanguard aponta ainda a destruição das fragatas IRIS Bayandor, IRIS Naghdi e IRIS Jamaran. A mesma companhia relata o afundamento do IRIS Shahid Bagheri, navio de transporte de drones de última geração, informação que, por ora, não é confirmada de forma independente.
Em vídeo publicado no X, o almirante Brad Cooper, chefe do Comando Central dos EUA (Centcom), eleva o tom. Segundo ele, 17 embarcações iranianas são destruídas, entre elas o “principal submarino operacional” do país. “Por décadas, o regime iraniano perturbou a navegação internacional”, declara. “Hoje, não há um único navio iraniano navegando no Golfo da Arábia, no Estreito de Ormuz ou no Golfo de Omã e não iremos parar.”
O presidente americano, Donald Trump, aposta na linguagem de aniquilação. Na segunda-feira, ele afirma que os Estados Unidos estão “aniquilando” a marinha do Irã e lista três objetivos centrais da operação: destruir a frota, desmantelar bases de mísseis e bloquear qualquer avanço rumo à bomba nuclear. Seu secretário da Defesa, Pete Hegseth, detalha um desses movimentos ao confirmar que um submarino americano lança um torpedo contra um navio de guerra iraniano no Oceano Índico na quarta-feira, 4 de março.
O impacto ultrapassa o Golfo Pérsico. Autoridades do Sri Lanka relatam, também na quarta-feira, que um navio iraniano afunda próximo às águas territoriais do país, com 140 pessoas desaparecidas e uma corrida de resgate em curso. A extensão exata das perdas humanas na marinha iraniana ainda é incerta, prejudicada pela fumaça que encobre parte das embarcações nas imagens de satélite.
Na costa, os danos se acumulam. Em Konarak, imagens mostram estruturas de concreto desabadas e píeres retorcidos. A empresa de inteligência Maiar afirma ter identificado danos em seis navios na base e em grande parte das construções de apoio. Em Bandar Abbas, a mesma consultoria contabiliza ao menos cinco embarcações atingidas ou afundadas, incluindo o Makran.
Base de mísseis, programa nuclear e aparato de segurança sob pressão
A ofensiva vai além dos alvos no mar. Em pronunciamento na noite de terça-feira, o almirante Cooper afirma que os ataques destruíram “centenas de instalações de defesa aérea, mísseis balísticos e drones” em solo iraniano. Imagens de satélite analisadas por empresas de inteligência apontam crateras e hangares destruídos em bases de mísseis em Khorgu, no sul do Irã, e em Tabriz, no noroeste, além de bunkers e depósitos de armamentos atingidos na base aérea de Konarak.
No oeste iraniano, perto de Kermanshah, a base de drones de Choqa Balk-e aparece recortada por rastros de explosões. Armazéns, bunkers e equipamentos de lançamento são danificados em série. No leste, na base aérea de Zahedan, próxima às fronteiras com Afeganistão e Paquistão, imagens confirmam estragos em uma instalação de radar considerada peça importante na vigilância aérea da região.
O coração simbólico da ofensiva, porém, volta a ser Natanz, centro do programa nuclear iraniano. Instalações de acesso à usina de enriquecimento subterrânea sofrem novos danos, um ano após ataques americanos de 2025. Na ocasião, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) afirma que as construções destruídas serviam a acessos de pedestres e veículos e que “nenhuma consequência radiológica” era esperada. Desta vez, autoridades iranianas voltam a negar que o programa nuclear sofra um “golpe definitivo”, como afirma Trump, mas não apresentam detalhes técnicos.
Em Teerã, os alvos se deslocam para o núcleo do poder. Israel afirma atacar um “quartel-general de segurança” na capital na noite de terça-feira. O Instituto para o Estudo da Guerra, centro de estudos com sede nos EUA, avalia que a recente redução de ataques de mísseis iranianos contra Israel e Emirados Árabes Unidos é “forte indicação” de que as tentativas de destruir lançadores balísticos obtêm “sucesso considerável”.
Imagens de satélite da empresa de inteligência Vantor, registradas em 3 de março, mostram destruição em ao menos seis edificações da sede do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI). Há sinais de danos também na Universidade Nacional de Defesa e no Ministério da Inteligência. O ex-chefe do Centcom Joseph Votel avalia, em entrevista à BBC, que muitos ataques têm como alvo “o aparato de segurança interna” do Irã. O objetivo, diz ele, é enfraquecer “a capacidade do regime de controlar a população”.
O custo humano cresce a cada dia. Autoridades iranianas relatam que pelo menos 160 pessoas, incluindo crianças, morrem após o bombardeio de uma escola em Minab, no sul do país. A agência Human Rights Activists (HRANA), com sede nos Estados Unidos, afirma que 1.097 civis são mortos desde o início do conflito, em 28 de fevereiro. Não há verificação independente desses números, mas as imagens de prédios residenciais destruídos em diversas cidades sugerem que a linha entre alvos militares e civis se torna cada vez mais tênue.
Capacidade militar enfraquecida, risco de guerra prolongada
Especialistas veem uma marinha iraniana profundamente enfraquecida, mas longe de estar fora de combate. O ex-chefe das forças armadas irlandesas, Mark Mellett, afirma à BBC Verify que os ataques americanos e israelenses “neutralizaram em grande parte ou, pelo menos, suprimiram” a capacidade iraniana de realizar ataques convencionais com seus maiores navios de guerra. Ao mesmo tempo, ele alerta que Teerã mantém meios para operar na sombra.
O Irã ainda conta com drones, minissubmarinos e os chamados navios fantasmas, uma rede de petroleiros que navega fora das regras tradicionais e oculta identidades para driblar sanções. Analistas da Maiar afirmam que o país pode recorrer, nos próximos dias, a lanchas de ataque rápido equipadas com mísseis antinavio, explorando a proximidade da costa e a dificuldade de detecção em mar congestionado.
O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, volta ao centro das preocupações. Mellett lembra que o Irã pode lançar minas navais em rotas estratégicas ou realizar ataques de drones contra petroleiros e portos da região. Um bloqueio parcial ou intermitente desse corredor elevaria preços de energia, pressionaria economias dependentes de importações e adicionaria um novo choque a um mercado já volátil.
Dentro do Irã, a destruição de bases de mísseis, centros de comando e instalações universitárias ligadas à defesa envia uma mensagem clara: os alvos não se limitam à linha de frente. O recado é tanto militar quanto político. Ao atingir o CGRI e estruturas de segurança interna, os ataques buscam, segundo Votel, reduzir a capacidade de repressão do regime em caso de novos protestos em massa, como os registrados em 2019 e 2022.
Para Washington e Tel Aviv, o saldo inicial é militarmente favorável. A frota de grandes navios iranianos encolhe, parte dos lançadores de mísseis é destruída e instalações sensíveis, como Natanz, sofrem danos sucessivos. O preço, porém, aparece nas cifras de mortos civis, na incerteza sobre a real extensão dos estragos e no risco de empurrar o conflito para uma guerra de atrito, marcada por ataques assimétricos e imprevisíveis.
Escalada aberta e cenário incerto para a região
O conflito ainda está em curso, e a escala total da destruição permanece desconhecida. Israel segue realizando ataques pontuais em território iraniano, enquanto os Estados Unidos mantêm pressão aérea sobre alvos considerados estratégicos. Em paralelo, equipes de análise como a BBC Verify e a Vantor continuam a vasculhar novas imagens de satélite em busca de pistas sobre a próxima fase da campanha.
A comunidade internacional observa com cautela. Países europeus reforçam apelos por contenção e alertam para o risco de uma escalada que arraste potências rivais para um confronto direto. Na Ásia, o afundamento de um navio iraniano próximo ao Sri Lanka, com 140 desaparecidos, revela que o conflito já extrapola as fronteiras do Golfo e projeta sombras sobre rotas comerciais no Oceano Índico.
Em Teerã, o regime tenta demonstrar controle, promete retaliação “no tempo e lugar adequados” e insiste em que o programa nuclear segue intacto. Analistas, contudo, lembram que a combinação de infraestrutura militar danificada, pressão econômica e desgaste político interno tende a alimentar decisões mais arriscadas. Resta saber se a ofensiva de 2026 será lembrada como o golpe que conteve a capacidade militar do Irã ou como o ponto de inflexão de uma guerra regional de contornos ainda imprevisíveis.
