Irã ameaça centros econômicos do Oriente Médio e petróleo dispara
Israel e Estados Unidos intensificam bombardeios a Teerã nesta terça-feira (3), e o Irã reage prometendo atacar “todos os centros econômicos” do Oriente Médio. Em meio à escalada, o preço do petróleo salta a US$ 85 e o general Ebrahim Jabari afirma que a cotação pode chegar a US$ 200 por barril.
Guerra entra no quarto dia e atinge o coração do regime iraniano
Uma coluna espessa de fumaça volta a dominar o céu de Teerã após novos ataques conjuntos de caças israelenses e americanos ao centro da capital iraniana. A ofensiva ocorre no quarto dia de guerra, iniciada no sábado (28), e atinge edifícios ligados ao núcleo do poder da República Islâmica, sacudida pela morte do aiatolá Ali Khamenei no primeiro dia do conflito.
De acordo com a agência iraniana Tasnim, um dos alvos é o prédio da instituição responsável por escolher o sucessor do líder supremo. Israel confirma ainda ataques aéreos contra a sede da Presidência iraniana, gabinetes do Conselho Supremo de Segurança Nacional, instalações de produção de mísseis balísticos e uma instalação nuclear subterrânea. Washington sustenta que os bombardeios miram o programa nuclear e as capacidades de mísseis do país persa.
A resposta de Teerã vem em forma de ameaça direta à espinha dorsal econômica da região. O general Ebrahim Jabari, alto comandante do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC), afirma que o Irã está pronto para atacar “todos os centros econômicos” do Oriente Médio se os bombardeios continuarem. “O Ocidente precisa entender que o petróleo a US$ 85 é apenas o começo. Se insistirem, veremos o barril a US$ 200”, declara ele, segundo a imprensa local.
Na madrugada desta quarta-feira (4, horário local), o Exército israelense anuncia uma “ampla onda de ataques” depois do lançamento de três barragens de mísseis iranianos contra alvos israelenses. O Crescente Vermelho iraniano calcula que mais de 780 pessoas já morrem no território do país desde o início das operações de Israel e Estados Unidos no sábado.
Estreito de Ormuz paralisado e risco econômico global
Os impactos econômicos se espalham mais rápido que os mísseis. O fechamento do Estreito de Ormuz, ponto de passagem de cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, paralisa o tráfego de navios-tanque e deixa dezenas de milhares de passageiros retidos em aeroportos e portos das monarquias do Golfo. As imagens de filas e saguões lotados em Dubai, Doha e Manama traduzem, em escala humana, a súbita fragilidade de uma das rotas mais estratégicas do planeta.
A interrupção afeta diretamente exportadores como Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein e Kuwait, que abrigam bases militares americanas e se tornam parte do tabuleiro da guerra. Economias dependentes de energia importada, da Europa à Ásia, acompanham com apreensão cada novo ataque anunciado em Tel Aviv, Teerã ou Washington. A alta imediata do petróleo a US$ 85 o barril se transforma em indicador diário de risco, com analistas calculando o impacto sobre inflação, juros e crescimento global.
No front diplomático, o governo iraniano envia um recado duro às capitais europeias. Alemanha, França e Reino Unido sinalizam disposição de apoiar “ações defensivas” para reduzir a capacidade militar iraniana. O Ministério das Relações Exteriores de Teerã rebate que qualquer participação europeia seria “um ato de guerra”. O chanceler Abbas Araghchi afirma, na rede X, que “nunca houve uma suposta ‘ameaça iraniana’” e acusa o Ocidente de inflar o risco para justificar mais intervenção.
A Casa Branca, sob Donald Trump, tenta moldar o conflito como chance de redesenhar o mapa político da região. No sábado, o presidente americano conclama os iranianos a derrubar o regime instaurado em 1979. Dias depois, em meio a bombardeios e ruas sob tensão, recomenda que manifestantes esperem “até que a situação esteja estabilizada”. Trump diz que os ataques já matam possíveis sucessores de Khamenei e que um bombardeio “importante” atinge uma reunião que debatia o novo líder supremo.
Risco de expansão da guerra e incertezas no horizonte
A escalada preocupa vizinhos imediatos e parceiros estratégicos. O chanceler turco, Hakan Fidan, alerta que qualquer mudança de regime em Teerã traz “riscos para a região”, em um recado que reflete o temor de um vácuo de poder às portas da Turquia. Israel, por sua vez, insiste que busca apenas impedir que o Irã desenvolva uma bomba atômica e fortalecer sua própria segurança diante do que chama de “ameaça existencial”.
O fechamento do Estreito de Ormuz transforma o Golfo em corredor militarizado. Trump afirma que, se necessário, a Marinha americana vai escoltar navios-petroleiros pela passagem, medida que amplia a presença de destróieres e porta-aviões em um espaço já saturado por submarinos, drones e mísseis de curto alcance. Cada novo comboio escoltado representa mais tensão entre navios iranianos e forças ocidentais.
A guerra se desloca, assim, de uma disputa concentrada no território iraniano para uma ameaça direta ao fluxo de energia e ao comércio global. Governos calculam estoques, companhias aéreas redesenham rotas e investidores correm para ativos considerados seguros, como ouro e títulos americanos. O cenário de petróleo a US$ 200, descrito por Jabari, deixa de soar como retórica e passa a integrar o planejamento de risco de bancos centrais e empresas.
Diplomatas em capitais ocidentais e do Oriente Médio falam em canais discretos de negociação, mas até agora não há sinal visível de cessar-fogo. Com mais de 780 mortos no Irã, centros de poder bombardeados em Teerã e o principal estreito petrolífero do mundo paralisado, a pergunta que se impõe é se os líderes envolvidos ainda veem limite claro para uma guerra que já ultrapassa fronteiras militares e começa a redesenhar a economia global.
