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PF prende braço operacional de suposta milícia de Vorcaro em MG

A Polícia Federal prende em Minas Gerais, nesta quarta-feira (4/3), Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, apontado como chefe operacional de uma milícia privada ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. A detenção ocorre em nova fase da Operação Compliance Zero, que apura fraudes financeiras bilionárias e um esquema de vigilância e intimidação contra ex-funcionários, adversários e jornalistas.

PF mira núcleo de intimidação em caso que abala sistema financeiro

Mourão entra no inquérito como peça central de uma engrenagem que, segundo a PF, vai muito além de ameaças pontuais. Os investigadores descrevem uma estrutura estável, com hierarquia, fluxo de pagamentos e divisão de tarefas, destinada a proteger os interesses de Vorcaro e de seu conglomerado financeiro no momento em que o Banco Master desaba sob suspeitas de fraude e má gestão.

Nos relatórios encaminhados ao Supremo Tribunal Federal, o nome de Mourão aparece com o codinome “Sicário” — pistoleiro, em espanhol. Nas mensagens interceptadas, ele trata diretamente com o banqueiro, recebe ordens de monitoramento e cobra o repasse de recursos que, segundo a PF, chegam a R$ 1 milhão por mês para sustentar a chamada “Turma”, nome interno dado ao grupo de vigilância.

A prisão desta quarta-feira marca a primeira grande ofensiva do ministro André Mendonça desde que ele assume a relatoria do caso, em fevereiro, após a saída de Dias Toffoli em meio a questionamentos sobre sua relação com pessoas ligadas ao Master. Mendonça autoriza mandados de prisão contra Mourão, o próprio Vorcaro, o cunhado e pastor Fabiano Campos Zettel e o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva.

A PF afirma que, poucas horas após a prisão, Mourão tenta se matar na Superintendência Regional do órgão em Minas Gerais, onde está sob custódia. Ele é socorrido e levado para o Hospital João XXIII, em Belo Horizonte. Duas fontes ouvidas sob reserva relatam que a equipe médica inicia protocolo para verificar morte encefálica, mas o quadro não é oficialmente confirmado. A Polícia Federal evita falar em morte, e a Secretaria de Saúde de Minas Gerais alega sigilo imposto pela Lei Geral de Proteção de Dados.

A defesa de Mourão diz, em nota ao G1, que esteve com ele até por volta das 14h “em plena integridade física e mental” e que só toma conhecimento do incidente após comunicado da PF. “Até este momento, não há qualquer confirmação sobre o estado de saúde de Luiz Phillipi”, afirma. A BBC News Brasil não localiza os advogados novamente depois do episódio.

Mensagens citam milícia privada, plano de agressão e acesso a dados sigilosos

Os autos revelam conversas de celular em que Vorcaro, segundo a PF, escolhe alvos, comenta reportagens negativas e fala em “moer” uma ex-empregada que o teria ameaçado. “Tem que moer essa vagabunda. Puxa endereço tudo”, registra uma das mensagens atribuídas ao banqueiro e enviada a Mourão. O interlocutor responde: “O que é pra fazer?”, ao que Vorcaro insiste: “Puxa endereço tudo”.

Em outro trecho, reproduzido na decisão de Mendonça, o empresário fala sobre um jornalista identificado, após cruzamento de dados, como o colunista Lauro Jardim, de O Globo. “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, diz mensagem atribuída a Vorcaro. Mourão responde: “Pode? Vou olhar isso…”. O banqueiro confirma: “Sim”. O plano não se concretiza, como relata o próprio jornalista à rádio CBN.

Para os investigadores, esses diálogos compõem um padrão de atuação. O ministro do STF resume na decisão: há “fortes indícios” de que Vorcaro determina a Mourão a simulação de um assalto para agredir o jornalista e, com isso, “calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária” aos interesses privados do grupo. O jornal O Globo reage em nota: “Os envolvidos nessa trama criminosa devem ser investigados e punidos com o rigor da lei. O Globo e seus jornalistas não se intimidarão com ameaças”.

As mensagens também descrevem a “Turma” como uma espécie de central clandestina de inteligência, alimentada por acessos ilegais a bancos de dados da própria PF, do Ministério Público Federal e até de organismos internacionais, como o FBI e a Interpol. Segundo a investigação, Mourão usaria credenciais de terceiros para driblar barreiras de segurança e obter informações sigilosas sobre jornalistas, ex-funcionários, concorrentes e autoridades.

O grupo, aponta a PF, funciona em quatro frentes articuladas: um núcleo financeiro que estrutura as fraudes ligadas ao Banco Master; um núcleo de corrupção institucional, focado na cooptação de servidores do Banco Central; um núcleo de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial; e o núcleo de intimidação e obstrução de justiça, onde se insere a milícia privada comandada por Mourão. Juntos, esses braços criam um sistema capaz de movimentar grandes somas, influenciar decisões regulatórias e tentar neutralizar investigações e cobertura jornalística.

Fabiano Campos Zettel, advogado, empresário e pastor evangélico, cunhado de Vorcaro e maior doador pessoa física das campanhas de Jair Bolsonaro (PL) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) em 2022, aparece como responsável pelos pagamentos à “Turma”. Em uma conversa via WhatsApp obtida pela PF, Mourão cobra: “Bom dia. O Fabiano não mandou este mês e a turma está perguntando. Dá uma olhada com ele por favor. Obrigado”. O custo mensal do grupo, segundo o inquérito, alcança R$ 1 milhão.

Banco liquidadado, confiança em xeque e disputa política em Brasília

O caso explode em um sistema financeiro que ainda absorve o impacto da liquidação extrajudicial do Banco Master e de quatro empresas ligadas ao conglomerado, decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. No mesmo dia, a PF prende Vorcaro ao tentar embarcar em um jatinho para os Emirados Árabes Unidos. O BC cita crise de liquidez, deterioração da situação patrimonial e riscos ao sistema como motivos para a intervenção.

Entre 2019 e 2024, o Master cresce com uma estratégia agressiva de venda de CDBs, títulos que prometem rentabilidade acima da média de mercado para atrair investidores pessoas físicas e empresas. O modelo exige, na outra ponta, captação constante de recursos para honrar juros elevados. Documentos do BC mostram que, a partir de novembro de 2024, o banco passa a ter dificuldade para “rolar” essas captações e intensifica a venda de carteiras de crédito consignado — empréstimos cujas parcelas são descontadas direto na folha de pagamento de servidores.

O próprio Vorcaro admite, em depoimento, que enfrenta crise de liquidez, mas tenta afastar o rótulo de insolvência. “Existia uma crise, não era de hoje, mas o Banco Master sempre foi solvente, sempre teve muito mais ativo que passivo”, afirma. Ele define o modelo de negócios como “100% baseado” no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que assegura até R$ 250 mil por investidor em caso de quebra do banco. “Não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo”, diz.

As investigações, porém, enxergam algo mais profundo: a suspeita de que irregularidades financeiras se somam à cooptação de servidores de alto escalão do Banco Central, como Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, afastados de suas funções. De acordo com a PF, eles atuam como “consultores informais” de Vorcaro, revisam minutas de documentos que o banco envia ao regulador e antecipam ações de fiscalização, num contorno perigoso entre influência e corrupção.

A própria tramitação do caso no STF expõe o alcance político do banqueiro. A saída de Dias Toffoli da relatoria, em fevereiro, decorre da pressão causada por menções ao ministro em relatórios da PF sobre o Master. A entrada de André Mendonça reabre o tabuleiro em Brasília e alimenta a expectativa de novas revelações sobre o trânsito de Vorcaro em gabinetes do Judiciário e do Executivo.

A defesa do banqueiro insiste em negar qualquer intenção de intimidar críticos ou interferir em investigações. Em nota, Vorcaro afirma que “jamais teve intenção de intimidar ou ameaçar jornalistas e que suas mensagens foram tiradas de contexto”. Diz ainda que sempre respeita a imprensa, que eventuais desabafos em mensagens privadas não se traduzem em ordens reais e que “jamais determinou ou determinaria agressões ou qualquer espécie de violência”. Seus advogados sustentam que ele colabora de forma “transparente” com as autoridades.

Investigações internas, pressão por transparência e incerteza no STF

A tentativa de suicídio de Mourão, ainda cercada de dúvidas, abre uma frente sensível para a própria Polícia Federal. A corporação anuncia a abertura de investigação interna e promete encaminhar ao gabinete de Mendonça todos os vídeos que registram a dinâmica do episódio na carceragem. O material pode definir responsabilidades sobre a custódia do preso e alimentar debates sobre protocolos de segurança em operações de alto impacto.

No plano judicial, a tendência é de prolongamento do caso. Mendonça descreve um “esquema estruturado” de interferência nas apurações, que inclui monitoramento ilegal de autoridades e jornalistas, tentativa de neutralizar reportagens negativas e uso de informação privilegiada para antecipar passos de investigadores e reguladores. A Procuradoria-Geral da República deve avaliar novas denúncias criminais a partir do avanço da Operação Compliance Zero.

Investidores que aplicam em CDBs de bancos médios acompanham o desfecho com atenção. O rombo do Master, potencialmente coberto em parte pelo FGC, levanta a discussão sobre o custo indireto para o contribuinte e sobre o grau de supervisão que o Banco Central exerce em instituições que apostam em crescimento acelerado com juros acima da média. O episódio também reaquece o debate no Congresso sobre regras de transparência, limites à concentração de poder em banqueiros e proteção efetiva a jornalistas ameaçados.

O futuro da investigação depende, agora, da análise dos novos dados digitais, dos laudos financeiros e da eventual colaboração de réus e delatores. A PF ainda tenta mapear todas as frentes de atuação da “Turma” e confirmar até que ponto a milícia privada de Vorcaro consegue de fato influenciar decisões de Estado. Enquanto isso, permanece em aberto a pergunta que orienta o caso: onde termina o risco de uma aposta financeira mal calculada e começa o uso de poder econômico para intimidar críticos e contornar a própria lei?

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