Projeto de bairro leva Lanús ao título da Recopa sobre o Flamengo
O Lanús conquista a Recopa Sul-Americana de 2026 ao derrotar o Flamengo e confirma, no gramado, uma virada construída fora dele. O título no Maracanã coroa quase quatro décadas de reconstrução esportiva, social e financeira do clube de bairro da periferia de Buenos Aires.
Um título que nasce longe do vestiário
O troféu levantado em 2026 é mais do que uma vitória sobre um gigante brasileiro em crise. Para o Lanús, representa a consagração de um projeto que começa nos anos 80, quando o clube encara dívidas judiciais, brigas políticas e risco real de colapso. A Recopa surge como confirmação de que o caminho escolhido, baseado em sócios, comunidade e contas sob controle, funciona em alto nível continental.
O contraste com o adversário ajuda a dimensionar o feito. Enquanto o Flamengo soma mais um vice, volta a ouvir vaias da torcida e revive fantasmas de 2023, o Lanús se apoia em uma estrutura construída com planejamento de longo prazo. O clube argentino opera com orçamento anual em torno de 450 milhões de pesos, bem abaixo do poder financeiro rubro-negro, mas rende mais quando a disputa exige organização, convicção e estabilidade.
Da beira do abismo à Fortaleza lotada
No fim dos anos 70, a realidade é oposta ao cenário atual. O Lanús convive com processos, salários atrasados e um quadro social minguado, perto de 2 mil associados. A década seguinte marca o ponto de virada. Um grupo de sócios assume a direção, pacifica o ambiente e define uma meta pragmática: salvar o clube tornando-o sustentável e integrado à cidade. A primeira medida é encarar as dívidas e negociar parcelamentos para evitar bloqueios e penhoras.
O efeito mais visível está no crescimento do número de sócios. Em poucos anos, o quadro social salta de 2 mil para cerca de 10 mil pessoas. A receita recorrente permite investir na estrutura mínima para competir. O time conquista o acesso da terceira para a segunda divisão em 1981 e, nove anos depois, em 1990, retorna à elite do futebol argentino. A cada passo, a direção reforça o discurso de que o clube não se salva apenas com resultados em campo, mas com base sólida fora dele.
O símbolo da consolidação administrativa é o estádio La Fortaleza. Até o início dos anos 90, o antigo campo de madeira comporta só 7 mil torcedores, com instalações precárias. Dirigentes e empresários locais se articulam, levantam recursos e comandam a remodelação do estádio. A casa do Lanús é ampliada e modernizada, em um terreno de 27 hectares, até atingir a capacidade atual de 47 mil lugares. O projeto reforça a ideia de clube de bairro com ambição continental.
Ao redor da arena, o Lanús ergue uma sede social que muda a relação com a cidade. O clube passa a oferecer mais de 30 modalidades esportivas, com ginásio poliesportivo, piscina olímpica e espaços de convivência. O futebol profissional deixa de ser um fim isolado e passa a integrar um ecossistema comunitário sustentado por cerca de 40 mil sócios. A receita social vira pilar tão importante quanto a bilheteria e as vendas de jogadores.
Base forte, escola própria e títulos continentais
A transformação esportiva acompanha a evolução fora de campo. Em 1996, o Lanús conquista a Copa Conmebol e volta ao mapa do futebol sul-americano. Em 2007, vence o Campeonato Argentino pela primeira vez, sob comando de Ramón Cabrero, e ganha visibilidade nacional. Em 2016, repete o título e confirma que não é surpresa ocasional. No cenário continental recente, levanta a Copa Sul-Americana em 2013 e 2025, esta última sobre o Atlético-MG, e é vice da Libertadores em 2017, quando enfrenta o Grêmio na final.
Os dirigentes tratam as conquistas como consequência de uma lógica financeira clara. O modelo se apoia na formação e venda de atletas, com a base vista como ativo estratégico. O orçamento de cerca de 450 milhões de pesos obriga o clube a acertar nas apostas internas. Jogadores produzidos em La Fortaleza geram receitas de transferências e aliviam a folha salarial. A política evita contratações de risco alto e garante que as contas fechem no fim da temporada.
O trabalho com jovens não se limita ao campo. Em 2006, o Lanús inaugura sua própria escola, com ensino infantil. Em 2009, amplia o projeto para o nível primário e, em 2012, para o secundário. As unidades funcionam nos arredores do estádio e dentro do complexo esportivo, abertas à comunidade, sem exigência de vínculo com o futebol. A proposta é formar estudantes da cidade com estrutura de clube, não apenas atletas. O Lanús passa a oferecer ensino regular, prática esportiva e ambiente de proteção social em um mesmo espaço.
Dirigentes repetem, em entrevistas recentes, uma frase que resume a filosofia. “Se o clube não cuidar da sua gente, a bola vai punir em algum momento”, afirma um conselheiro, em conversa com a imprensa argentina. A Recopa de 2026, conquistada em jogo de ida em La Fortaleza e sacramentada no Maracanã, reforça a leitura de que o alinhamento entre gestão, base e comunidade produz competitividade duradoura.
Impacto na cidade e mensagem ao continente
O título continental altera a rotina de um município de pouco mais de 200 mil habitantes na Grande Buenos Aires. Ruas decoradas em grená, bares cheios e o entorno do estádio lotado mostram como o clube se confunde com a cidade. Comerciantes relatam aumento no movimento em dias de jogos decisivos e após conquistas. A marca Lanús atrai patrocínios locais e desperta interesse de empresas nacionais que veem no clube um caso de associativismo bem-sucedido.
Dentro de campo, o impacto é direto. A Recopa amplia a vitrine internacional do elenco e valoriza atletas formados na base. Cada título potencializa futuras vendas e reforça o ciclo financeiro. A instituição ganha peso nas negociações com clubes europeus e brasileiros, que já observam o mercado argentino em busca de oportunidades. O Lanús passa a sentar em mesas maiores, com mais poder de barganha, mesmo sem abandonar o discurso de clube de bairro.
Fora das quatro linhas, o modelo repercute entre dirigentes sul-americanos. Conselhos administrativos de outros clubes começam a citar o Lanús como exemplo de gestão com foco em sócios, controle de gastos e investimento em estrutura. A mensagem é direta: é possível competir com orçamentos menores se o projeto for estável, transparente e conectado à comunidade. Em um continente marcado por trocas constantes de comando e dívidas crônicas, a experiência argentina vira referência prática.
Depois da Recopa, o desafio de não se desviar
A vitória sobre o Flamengo empurra o Lanús para um novo patamar de exposição. A diretoria projeta aumento de receitas com bilheteria, produtos licenciados e novos acordos comerciais. A pergunta que surge, internamente e entre analistas, é se o clube conseguirá manter o equilíbrio entre ambição esportiva e prudência financeira. A história recente de rivais argentinos e brasileiros serve de alerta contra saltos sem rede de proteção.
O próximo passo passa por consolidar a presença constante em torneios continentais e seguir formando jogadores em casa. A escola, o complexo esportivo e o estádio modernizado sustentam essa ambição. A Recopa de 2026 entra na galeria de troféus como símbolo de uma escolha feita há quase 40 anos, quando o Lanús decide não ser apenas um time em busca de resultados imediatos. A dúvida, agora, é até onde um clube de bairro pode ir sem trair o próprio modelo que o trouxe de volta do abismo.
