Nobel da Paz acusa Putin de usar guerra para restaurar Império Russo
Quatro anos após a invasão russa, a advogada ucraniana Oleksandra Matviichuk acusa Vladimir Putin de não buscar a paz, mas a restauração de um Império Russo baseado em crimes de guerra. Com 97 mil episódios de violações documentados, ela afirma que a Ucrânia virou laboratório de táticas brutais e alerta para o destino de 1,6 milhão de crianças sob ocupação.
Quarto inverno de guerra e um projeto de império
O conflito entra no quarto inverno com temperaturas que chegam a 20 graus Celsius abaixo de zero e cidades que congelam às escuras. Mísseis balísticos e drones russos atingem redes elétricas, sistemas de aquecimento e infraestrutura básica da qual dependem milhões de civis. A ONU já classifica os ataques sistemáticos como crimes contra a humanidade.
Matviichuk, diretora do Centro para as Liberdades Civis e Nobel da Paz de 2022, acompanha esse cenário desde 24 de fevereiro de 2022, dia em que a Rússia invade a Ucrânia em larga escala. Desde então, sua organização registra 97 mil crimes de guerra, em uma base que ela considera apenas “a ponta do iceberg”. Os relatos incluem desaparecimentos forçados, torturas, estupros, execuções sumárias e valas comuns em áreas ocupadas.
Para a advogada, o objetivo do Kremlin vai muito além de ampliar fronteiras. “Seria ingênuo pensar que centenas de milhares de soldados russos morreram para que Putin pudesse capturar Avdiivka ou Bakhmut”, afirma. Segundo ela, o presidente russo persegue um legado histórico: “Putin sonha sobre seu legado e busca restaurar o Império Russo. Para ele, a Ucrânia é uma ponte para a Europa”.
Essa leitura ajuda a explicar, na visão da Nobel, por que o cessar-fogo não avança. Ela sustenta que a Rússia usa a própria ideia de negociação como arma, para desgastar o apoio internacional a Kiev. “Putin pretende engajar-se em negociações de paz para reduzir o apoio internacional à Ucrânia, o que tornaria mais fácil que ele atingisse suas metas”, diz. Ela lembra que Moscou rejeita propostas de cessar-fogo total apresentadas por Volodymyr Zelensky desde os primeiros meses da invasão.
Autoritarismo contra democracia e o destino das crianças
Matviichuk descreve a guerra como choque direto entre dois modelos de poder. “Isso não é simplesmente uma guerra entre dois Estados — é uma guerra entre dois sistemas: autoritarismo e democracia”, afirma. Na leitura da ativista, a Rússia tenta provar que um país armado com armas nucleares pode redesenhar fronteiras internacionais à força e impor suas próprias regras ao restante do mundo.
No terreno, essa disputa abstrata se traduz em cenas de horror. Ela relata o caso de um casal de idosos morto ao tentar fugir de um vilarejo ocupado na região de Sumy. O marido puxa a esposa em um trenó rumo ao ponto de resgate ucraniano. Um drone lança explosivos sobre a mulher. O homem chora por uma hora diante do corpo, até ser atingido por um segundo drone. “A ocupação é a mesma guerra, apenas em uma forma diferente”, resume.
O foco mais inquietante, porém, está nas crianças. Segundo Matviichuk, cerca de 1,6 milhão de menores vivem hoje sob ocupação russa. Eles enfrentam proibições ao uso do idioma ucraniano, estudam por livros que apagam a existência da Ucrânia como Estado e são submetidos a um processo intenso de militarização. “Crianças dos territórios ocupados são levadas para campos desportivos e de saúde, onde vestem uniformes militares, vivem em quartéis e aprendem a usar armas”, denuncia.
A pressão aumenta com a idade. A partir dos 14 anos, adolescentes ucranianos são obrigados a tirar passaporte russo. Aos 18, entram no alistamento militar obrigatório. “A Rússia está criando uma nova geração de soldados de Putin a partir desses 1,6 milhão de crianças ucranianas. Porque elas irão matar e morrer em qualquer país onde a Rússia lhes ordene que matem e morram”, alerta. Para a Nobel, o caso deixa de ser apenas um drama de direitos humanos e passa a representar ameaça direta à segurança regional.
Em paralelo, o Centro para as Liberdades Civis tenta resgatar biografias soterradas pelo volume de violência. “Enquanto esta guerra transforma pessoas em números, nós estamos devolvendo os nomes às pessoas”, afirma Matviichuk. As histórias coletadas por sua rede nacional de documentaristas alimentam processos judiciais, denúncias na ONU e dossiês que podem chegar a tribunais internacionais.
Cessar-fogo, pressão internacional e o risco de escalada
O avanço do inverno e o desgaste do front recolocam a discussão sobre um cessar-fogo imediato. Para Matviichuk, qualquer trégua só tem sentido se vier acompanhada de garantias claras de retirada russa e de um processo robusto de responsabilização. “A paz não virá quando um país que for invadido parar de resistir. Isso não é paz, mas ocupação”, afirma. Na visão dela, desmontar o aparato de crimes de guerra é condição para qualquer acordo duradouro.
O impasse afeta não só ucranianos e russos. Países da União Europeia seguem diretamente expostos ao conflito, ainda que se mantenham, por ora, fora do campo de batalha. “As pessoas na União Europeia estão relativamente seguras, apenas porque o Exército ucraniano está conseguindo fazer com que o Exército russo retroceda”, diz a ativista. Cada recuo de Kiev alimenta o temor de que a fronteira da guerra avance para o oeste.
No curto prazo, a pressão recai sobre governos e organismos internacionais, chamados a agir em três frentes: reforço militar à Ucrânia, proteção a civis e avanço de mecanismos de justiça internacional. A lista de 97 mil crimes de guerra, construída desde 2022, pode servir de base para futuras acusações contra comandantes russos e autoridades políticas, incluindo o próprio Putin. A ONU já reconhece crimes contra a humanidade, mas a responsabilização efetiva ainda aparece distante.
Matviichuk insiste que o desfecho da guerra moldará a ordem global das próximas décadas. “Putin busca provar que um país com capacidade militar poderosa e armamento nuclear pode violar a ordem internacional”, afirma. Se essa aposta funcionar, outros líderes autoritários podem se sentir autorizados a repetir o roteiro. A dúvida que permanece, enquanto o quarto inverno congela as cidades ucranianas, é se a comunidade internacional reagirá a tempo de interromper esse ciclo antes que uma nova geração cresça aprendendo a confundir império com destino.
