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Trump fala em “tomada de poder amigável” em Cuba em meio a crise

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma nesta sexta-feira (27) que Cuba “está em grande dificuldade” e sugere uma “tomada de poder amigável” em Havana. Ele diz que há conversas entre os dois países e afirma que “algo muito positivo pode acontecer”, sem apresentar prazos nem medidas concretas.

Crise energética pressiona Havana e eleva aposta de Washington

Trump fala com jornalistas na saída da Casa Branca e descreve a ilha como um país em declínio. O presidente afirma que o secretário de Estado, Marco Rubio, “está tomando conta disso”, sem detalhar que tipo de negociação ocorre com o governo cubano. A declaração vem em meio a uma crise energética que atinge todo o território cubano, com apagões diários e racionamento de combustíveis.

Desde o fim de 2025, Cuba depende cada vez menos do petróleo venezuelano, que chega em volume menor e com maior instabilidade. A interrupção parcial do fornecimento, associada às sanções americanas sobre Caracas, reduz em milhares de barris por dia o abastecimento da ilha e força o governo cubano a cortar voos internos, restringir o transporte público e priorizar o uso de diesel e gasolina em hospitais e serviços de segurança. Autoridades locais estimam que o déficit de geração elétrica atinge picos superiores a 25% da demanda em algumas províncias.

A Casa Branca vê nesse quadro um ponto de inflexão político. Ao dizer que Havana e Washington conversam sobre uma “tomada de poder amigável”, Trump sugere a possibilidade de uma transição negociada na liderança da ilha, mais de seis décadas após a Revolução de 1959. Ele não menciona nomes, não fala em eleições nem em calendário, mas deixa claro que aposta em um desfecho pacífico. “Talvez tenhamos uma tomada de poder amigável”, afirma, sem responder a perguntas sobre envolvimento militar.

O governo americano sustenta há anos que sanções econômicas contra Cuba e Venezuela respondem a uma “ameaça excepcional” à segurança nacional dos Estados Unidos. Na prática, as medidas financeiras e comerciais tornam mais caro e arriscado para empresas estrangeiras negociar com os dois países, o que restringe o crédito, encarece o transporte marítimo e dificulta acordos de fornecimento de combustíveis. Em Havana, esse efeito aparece no cotidiano em forma de filas longas em postos de gasolina, falhas no transporte urbano e interrupções de energia que podem durar mais de 6 horas por dia em alguns bairros.

Disputa geopolítica envolve Cuba, Venezuela, Rússia e a guerra na Ucrânia

As declarações de Trump não se limitam ao Caribe. Ao falar com a imprensa, o presidente afirma ter conversado com Vladimir Putin e diz buscar um acordo para encerrar a guerra na Ucrânia, que completa quatro anos nesta semana. “Queremos fazer um acordo com Rússia e Ucrânia para fim de guerra”, afirma, sem indicar quando ocorreu o contato com o líder russo nem quais propostas estão à mesa.

A menção a Putin insere a crise cubana em um tabuleiro geopolítico mais amplo. A Rússia mantém laços históricos com Havana, oferece créditos e cooperação em áreas como energia e defesa e, nos últimos anos, tenta recuperar parte da influência perdida após o fim da União Soviética em 1991. Qualquer mudança na liderança cubana interessa diretamente a Moscou, que vê a ilha como ponto estratégico a menos de 200 quilômetros da Flórida. Ao sinalizar abertura a uma transição pacífica, Washington busca limitar o espaço de manobra russo no Caribe ao mesmo tempo em que tenta redesenhar o equilíbrio de forças na região.

No caso da Venezuela, país-chave para o fornecimento de petróleo a Cuba desde o início dos anos 2000, as sanções americanas reduzem a capacidade de produção e exportação da estatal PDVSA. Antes das restrições mais severas, Caracas enviava cerca de 100 mil barris diários a preços subsidiados para Havana, segundo estimativas de analistas independentes. Hoje, o volume é incerto e irregular, afetado tanto por dificuldades financeiras quanto por limitações logísticas impostas por bancos e empresas de transporte internacionais que evitam enfrentar punições de Washington.

O discurso de Trump mira, ao mesmo tempo, o público doméstico e os aliados externos. Ao insistir que Cuba “está em grande dificuldade”, o presidente reforça para sua base política a narrativa de que a pressão econômica produz resultados e abre caminho para um eventual “novo capítulo” nas relações EUA–Cuba. A mensagem também ecoa em países da região que observam com atenção a combinação de sanções, crise energética e desgaste político em regimes aliados de Caracas e Moscou.

Em paralelo, o presidente se vê às voltas com problemas internos. Ao comentar a situação do secretário de Comércio, Howard Lutnick, citado em documentos do Departamento de Justiça sobre contatos com o criminoso sexual Jeffrey Epstein após 2008, Trump se limita a dizer que ele “dirá o que tiver de dizer”. Não há explicações adicionais, o que mantém o caso em aberto e adiciona uma frente de desgaste político em ano de disputa eleitoral intensa nos Estados Unidos.

Impactos imediatos, riscos de instabilidade e o que pode vir a seguir

As palavras do presidente americano têm efeito direto sobre a percepção de risco em Cuba. Investidores, organizações humanitárias e governos da região avaliam a possibilidade de instabilidade prolongada caso os apagões se intensifiquem e a economia encolha ainda mais em 2026. Setores como turismo, transporte aéreo e comércio marítimo já sentem o impacto do racionamento de combustível e das falhas na geração de energia. Hotéis em Havana e em polos turísticos como Varadero relatam custos maiores com geradores próprios e perda de reservas devido a relatos de falta de luz e de água.

Para a população cubana, o cenário significa mais incerteza. Famílias ajustam rotinas ao cronograma de cortes de energia, estocam alimentos não perecíveis e enfrentam oscilações de oferta em mercados estatais e privados. O governo tenta manter subsídios a itens básicos, mas convive com queda de receitas em moeda forte desde a pandemia de covid-19 e com a retração do turismo internacional. A combinação de escassez, inflação e perspectivas limitadas de crescimento alimenta o risco de novas ondas de protestos, semelhantes às manifestações de 2021, quando milhares de pessoas foram às ruas em dezenas de cidades.

Do lado americano, a fala sobre “tomada de poder amigável” pode abrir espaço para iniciativas diplomáticas mais explícitas, como oferta de ajuda humanitária condicionada a reformas políticas ou a abertura para observadores internacionais. Também pressiona parceiros europeus e latino-americanos a definir se apoiam, criticam ou tentam mediar qualquer processo de transição. Países como México, Brasil e Espanha, que mantêm canais de diálogo com Havana e Washington, passam a ser vistos como possíveis interlocutores em um eventual pacote de garantias políticas e econômicas.

A guerra na Ucrânia segue como pano de fundo constante. Enquanto Trump diz buscar um acordo para encerrar o conflito, as negociações esbarram em exigências incompatíveis entre Moscou e Kiev, sobretudo sobre controle territorial e segurança futura. A forma como Washington lida com Cuba e Venezuela também envia sinais a outros aliados e rivais sobre o tipo de pressão econômica e política que está disposto a exercer, e por quanto tempo.

Trump não apresenta calendário para nenhuma das frentes que cita. Em relação a Cuba, limita-se a sugerir que a crise pode acelerar mudanças, sem dizer se a Casa Branca trabalha com meses ou anos. Em relação à Ucrânia, fala em acordo, mas não oferece números nem parâmetros públicos para um cessar-fogo. No caso de Howard Lutnick, evita qualquer previsão. A ausência de prazos reforça a sensação de que o governo americano testa limites, observa reações e ajusta a estratégia conforme o custo político e econômico de cada movimento.

Enquanto a crise energética continua a escurecer bairros inteiros em Havana, a pergunta que ganha força entre diplomatas e analistas é se a promessa de uma “tomada de poder amigável” virá acompanhada de um plano concreto de reconstrução econômica ou se ficará apenas como mais um capítulo na longa história de tensão entre Cuba e Estados Unidos.

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