Haddad aceita disputar governo de SP e Lula arma palanque em MG
Fernando Haddad aceita disputar o governo de São Paulo nas eleições de 2026 após pedido direto de Luiz Inácio Lula da Silva, em jantar nesta quinta-feira, 26, no Palácio da Alvorada. Lula também encaminha a candidatura de Rodrigo Pacheco ao governo de Minas Gerais, numa estratégia para montar palanques fortes nos dois maiores colégios eleitorais do País.
Lula redesenha mapa eleitoral em ano de tensão
O movimento fecha uma engrenagem montada há meses no Planalto. Ao levar seu ministro da Fazenda para a corrida ao Palácio dos Bandeirantes e estimular Pacheco em Minas, Lula tenta cercar a disputa presidencial de 2026 por terra e ar. São Paulo concentra cerca de 34 milhões de eleitores; Minas soma outros 16 milhões. Juntos, os dois Estados costumam definir o rumo do segundo turno.
A decisão amadurece em meio ao avanço do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em pesquisas recentes, que o colocam tecnicamente empatado com Lula em cenários de primeiro e segundo turno. No diagnóstico do Planalto, o governo comete um erro ao deixar o principal adversário “solto”, sem resposta sistemática nem exposição das acusações que o cercam, como o escândalo da rachadinha quando era deputado estadual no Rio.
Haddad resiste publicamente até o limite. Reitera em entrevistas que não pretende disputar as eleições deste ano e que seu foco está na economia, especialmente após o fraco crescimento de 2025 e a pressão por mais investimentos. Em reservado, porém, dirigentes petistas dão a candidatura como certa desde o início de fevereiro e fixam um prazo: até 10 de março ele precisa responder ao partido.
O desfecho ocorre na noite de quinta-feira. Haddad chega ao Palácio da Alvorada acompanhado da mulher, Ana Estela, para um jantar com Lula. Pouco antes, evita cravar a decisão: “Estou conversando com o presidente sobre o assunto. Não vou cometer a deselegância de antecipar o que ainda vou falar com ele”, afirma. Ao fim da conversa, admite a aliados que não tem como recusar o chamado do padrinho político.
O acordo prevê que Haddad deixe o Ministério da Fazenda até o fim de março ou, no mais tardar, no início de abril, respeitando o prazo de seis meses antes da eleição de outubro para desincompatibilização. Dos 38 ministros, ao menos 20 devem sair para disputar prefeituras, governos estaduais, o Senado ou a Câmara. A dança de cadeiras abre uma segunda frente de negociação com partidos do Centrão, que cobiçam cargos estratégicos em bancos públicos e órgãos de controle econômico.
Haddad em SP e Pacheco em MG mudam cálculo de 2026
Em São Paulo, o Palácio do Planalto enxerga uma combinação rara de oportunidade política e necessidade eleitoral. Tarcísio de Freitas (Republicanos), favorito à reeleição, atravessa desgaste após atritos com o secretário de Governo, Gilberto Kassab, peça-chave na montagem de alianças locais. A leitura no PT é que o governador perde parte da blindagem política e fica mais vulnerável a um adversário conhecido do eleitor paulista.
Haddad perde o governo em 2022 para Tarcísio, mas ajuda Lula a virar o jogo contra Jair Bolsonaro no Estado. Naquele segundo turno, o presidente eleito só supera o rival porque cresce na capital e em cidades da Grande São Paulo, onde o ex-prefeito tem base consolidada. No partido, essa lembrança funciona como argumento central para tirá-lo da Fazenda e lançá-lo novamente ao Bandeirantes.
No desenho que Lula imagina, São Paulo também reorganiza o tabuleiro do Senado. Marina Silva planeja sair da Rede e se filiar ao PT para disputar uma das vagas por São Paulo. A segunda cadeira vira peça de barganha. Uma das hipóteses é levar Simone Tebet, hoje no MDB e ministra do Planejamento, para a disputa, desde que ela aceite trocar de partido, provavelmente para o PSB, e de domicílio eleitoral. A operação, se avançar, esvazia ainda mais o palanque de Tarcísio, já apoiado formalmente pelo MDB paulista.
Em Minas, Lula trabalha com a ideia de que não vence a eleição nacional sem um aliado competitivo no governo local. A frase mais repetida por petistas resume o raciocínio: “Quem ganha em Minas, ganha no Brasil”. O presidente quer Rodrigo Pacheco, ex-presidente do Senado, como rosto desse projeto. Em conversas recentes, inclusive na viagem oficial à Índia, garante a auxiliares que a candidatura está “bem encaminhada”.
Pacheco deseja, até pouco tempo atrás, uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Lula escolhe Jorge Messias, atual chefe da Advocacia-Geral da União, frustrando o plano do senador. A reação no Senado é dura, especialmente de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que controla a pauta da Casa. A sabatina de Messias não é marcada, e a articulação emperra. Para destravar o jogo, o Planalto passa a discutir um pacote que inclui o futuro de Pacheco.
Pelo esboço em negociação, Pacheco pode se filiar a outro partido – o União Brasil surge como favorito – e disputar o governo mineiro com o apoio direto de Lula. Em troca, Alcolumbre ganha mais poder para indicar nomes em postos estratégicos, como a presidência e a superintendência-geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, uma vice-presidência da Caixa e o comando do Banco do Nordeste. O senador nega qualquer troca explícita, mas aliados admitem que a rearrumação de espaços é parte do acerto.
Sucessão de Lula, economia e o xadrez que fica em aberto
A ida de Haddad para a disputa estadual mexe com a própria sucessão de Lula em 2030. No PT, ele é visto como herdeiro natural do projeto lulista. Uma eventual vitória em São Paulo o coloca no centro da cena, com orçamento bilionário e visibilidade diária no maior mercado eleitoral e econômico do País. Mesmo uma nova derrota não o retira do jogo, mas reabre a discussão sobre outros nomes da esquerda para o pós-Lula.
A saída do ministro da Fazenda também gera tensão na economia. Em pouco mais de dois anos, Haddad se torna fiador da política fiscal do governo, com o novo arcabouço e sucessivas negociações com o Congresso. O mercado financeiro reage a cada rumor sobre sua substituição, em expectativa pelos próximos indicadores de inflação, crescimento e déficit primário. A escolha do sucessor precisa equilibrar discurso de responsabilidade fiscal e compromisso com a agenda social para não acentuar a volatilidade.
O movimento em Minas redesenha as relações de Lula com o Congresso. Pacheco deixa a presidência do Senado em fevereiro e, ao migrar para uma candidatura estadual, muda o eixo de influência de Brasília para Belo Horizonte. A vaga aberta na cúpula do Legislativo intensifica a disputa entre grupos do Centrão e alas governistas, num momento em que o Planalto tenta aprovar mudanças tributárias e novas medidas de estímulo à economia.
A montagem de palanques robustos em São Paulo e Minas tende a obrigar a oposição a reorganizar suas fileiras. Flávio Bolsonaro, que cresce nas pesquisas nacionais, precisa decidir se concentra fogo em Lula, nos candidatos a governador apoiados pelo Planalto ou nos dois ao mesmo tempo. Tarcísio vem sendo testado em cenários presidenciais e pode virar alternativa bolsonarista em 2030, caso se reeleja em São Paulo com boa margem.
As próximas semanas serão de anúncios e recuos. Haddad precisa definir data exata de saída da Fazenda e o nome que o sucederá, enquanto Marina e Simone Tebet calculam custos e benefícios de mudar de sigla e de Estado. Em Minas, Pacheco mede a força de uma candidatura que nasce sob o signo da negociação em Brasília e da disputa direta com aliados do atual governador Romeu Zema.
A engrenagem montada no jantar do Alvorada abre espaço para uma pergunta que ainda não tem resposta clara: a estratégia de Lula para blindar seu projeto em 2026 será suficiente para conter o avanço da direita e, ao mesmo tempo, manter a economia em pé de guerra sob controle?
