Fim da escala 6×1 pode elevar custo anual em R$ 267 bi, diz CNI
O fim da escala 6×1, previsto para entrar em vigor em 27 de fevereiro de 2026, pode redesenhar o mercado de trabalho formal no país. Estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta aumento de até R$ 267,2 bilhões por ano na folha das empresas e alerta para o risco de perda de milhões de vagas, com peso maior em São Paulo, Minas Gerais e Paraná.
Redução de jornada acende disputa entre custo e emprego
A proposta em debate reduz a jornada semanal máxima de 44 para 40 horas e encerra, na prática, a lógica da escala 6×1 hoje comum na indústria e no comércio. Para manter o nível atual de produção, as empresas precisam decidir se pagam mais horas extras ou se contratam novos funcionários. Nas duas alternativas, o caixa fica mais pressionado e a negociação trabalhista ganha um novo patamar de conflito.
O estudo da CNI calcula que os governos estaduais podem ver suas despesas com empregados formais subir até R$ 95,83 bilhões, somando impacto direto sobre o funcionalismo e sobre contratos terceirizados. O setor produtivo privado absorve a maior parte do choque: a confederação estima aumento equivalente a 7% na folha de pagamentos, concentrado em atividades com jornadas próximas do limite atual de 44 horas semanais.
A entidade sustenta que a mudança tem efeito imediato sobre o preço da hora trabalhada. Segundo o levantamento, o valor da hora regular tende a subir cerca de 10% para quem ultrapassar o novo teto de 40 horas. “Os valores representam o custo adicional anual que as empresas teriam para manter a produção atual, considerando o pagamento de horas extras para cobrir a redução do tempo de trabalho”, afirma a CNI em nota técnica.
As simulações dividem o país em regiões e revelam impacto desigual. O Sul aparece como a área mais pressionada proporcionalmente, seguido por Sudeste, Nordeste, Norte e Centro-Oeste. No mapa dos estados, São Paulo, Minas Gerais e Paraná concentram o núcleo da preocupação. O peso da indústria, o tamanho do emprego formal e a presença de grandes cadeias exportadoras tornam a conta mais pesada nessas economias.
São Paulo, Minas e Paraná concentram impacto e risco de vagas
Os números da CNI miram especialmente os polos industriais. No cenário completo, São Paulo responde pela maior fatia do aumento de custos, seguido por Minas Gerais e Paraná. O Sudeste, sozinho, pode registrar acréscimo de até R$ 95,8 bilhões por ano nas folhas de pagamento, mesmo quando as empresas optam por recompor a jornada reduzida com novas contratações e não apenas com horas extras.
No cenário em que a recomposição se dá sobretudo por horas extras, o Sul lidera o salto proporcional de custos, com alta estimada em 8,1%. O Sudeste aparece em segundo lugar, com 7,3%, à frente do Nordeste, com 6,1%. Norte e Centro-Oeste empatam com aumento de 5,5%. Na hipótese de contratação de novos trabalhadores para cobrir as horas retiradas, o impacto cai, mas segue relevante: 5,4% no Sul, 4,9% no Sudeste, 4,1% no Nordeste e 3,7% no Norte e no Centro-Oeste.
O estudo também levanta um cenário de forte ajuste no emprego. A CNI fala em risco de perda de até 26 milhões de postos formais se as empresas não conseguirem repor a jornada cortada por meio de horas extras ou novas admissões. Nesse quadro, a produtividade cai, a produção encolhe e a pressão por redução de quadros aumenta. “Caso as horas reduzidas não sejam repostas, a redução do limite semanal resultará em queda da atividade econômica”, sustenta a entidade.
Nos bastidores, empresários argumentam que a mudança chega em um momento de custos elevados de crédito, incerteza externa e necessidade de investimento em tecnologia. Uma redução brusca da jornada, sem transição, poderia acelerar a automação em setores intensivos em mão de obra e empurrar parte da produção para fora do país. Sindicatos, por outro lado, defendem que jornadas menores melhoram a saúde dos trabalhadores, reduzem afastamentos e podem elevar a produtividade no médio prazo, compensando parte da despesa adicional.
Especialistas em relações do trabalho lembram que o Brasil já convive com uma das maiores taxas de informalidade da América Latina. O temor é de que empresas menores, com menor fôlego financeiro, migrem para contratações sem carteira para driblar o aumento de encargos. A discussão sobre fiscalização, simplificação de regras e políticas de transição se torna, assim, peça central do debate.
Negociação política e transição definem próximos passos
A mudança da jornada ainda passa por debate intenso no Congresso e na negociação com o Executivo, centrais sindicais e entidades empresariais. O calendário que aponta 27 de fevereiro de 2026 como marco da nova regra cria uma espécie de contagem regressiva para empresas e governos. Economistas alertam que a forma como a transição será desenhada importa tanto quanto o texto final da lei.
Entre os caminhos em discussão, surgem hipóteses de escalonar a redução de horas ao longo de alguns anos, vincular a mudança a ganhos de produtividade comprovados ou criar incentivos fiscais temporários para setores mais expostos. Governos estaduais acompanham de perto, preocupados com o efeito sobre orçamentos já pressionados e com a possibilidade de retração de investimentos privados em seus territórios.
A decisão final também dialoga com um debate global sobre tempo de trabalho. Países europeus testam jornadas menores, semanas comprimidas e modelos híbridos em busca de equilíbrio entre vida profissional e pessoal. No Brasil, a discussão se entrelaça com uma economia ainda desigual, de grande massa de trabalhadores informais e forte dependência da indústria de base e de serviços de baixa qualificação.
Enquanto a proposta avança, empresas simulam cenários, sindicatos organizam campanhas e governos medem o impacto nas contas públicas. A nova jornada pode inaugurar um ciclo de modernização das relações de trabalho ou aprofundar a informalidade e a perda de fôlego da indústria. A resposta só ficará clara quando a lei estiver definida e o país testar, na prática, quanto custa trabalhar menos sem produzir menos.
