Temporal em Juiz de Fora arrasta motoboy e reforça alerta da Defesa Civil
Um motoboy é arrastado pela água durante o novo temporal que atinge Juiz de Fora nesta quinta-feira (26). A cena, registrada em vídeo e viralizada nas redes sociais, expõe o risco extremo nas ruas da cidade e leva a Defesa Civil a reforçar pedidos para que moradores evitem qualquer deslocamento não essencial.
Chuva forte transforma ruas em correntezas
A tarde em Juiz de Fora começa com céu carregado, mas o que parecia mais um dia de chuva de verão se transforma em cenário de emergência em poucos minutos. Em diferentes bairros, vias conhecidas pelo tráfego intenso somem sob enxurradas que avançam rápido, carregando lixo, entulho e veículos. Em meio a essa correnteza, um motoboy perde o controle da moto e é levado pelas águas, diante de motoristas e pedestres sem reação.
O vídeo, gravado por um morador de um prédio na região central, circula por grupos de mensagem e redes sociais em questão de minutos. Nas imagens, a água alcança quase meio metro de altura e invade calçadas, garagens e comércios. A moto some por alguns instantes sob a água barrenta, enquanto o entregador tenta se segurar em um poste. A gravação não mostra o desfecho completo, mas basta poucos segundos para cristalizar o medo de quem precisa cruzar a cidade em dias de temporal.
Estado em alerta e número de mortos em alta
O novo episódio em Juiz de Fora ocorre em meio a um período de chuvas intensas que castiga Minas Gerais desde o início de fevereiro. O balanço mais recente do governo estadual aponta 48 mortes relacionadas a deslizamentos, enchentes e estruturas que desabam em diferentes regiões. O número inclui vítimas em cidades da Zona da Mata, do Vale do Rio Doce e da Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde bairros inteiros enfrentam alagamentos recorrentes.
Em Juiz de Fora, a chuva desta quinta volta a alagar pontos já conhecidos por transtornos, como cruzamentos próximos ao Centro e avenidas de ligação com a zona norte. Lojas fecham as portas às pressas, carros ficam ilhados e o transporte público sofre atrasos e interrupções. Motoristas se veem obrigados a dar voltas longas, enquanto aplicativos de trânsito apontam congestionamentos acima do normal em pelo menos 10 quilômetros de vias.
A Defesa Civil municipal mantém equipes em campo desde o início da manhã, monitorando encostas, córregos e áreas com histórico de deslizamento. O órgão reforça os avisos por mensagens de celular e redes sociais. “Nossa orientação é clara: se puder, não saia de casa. Respeite as interdições e não tente atravessar áreas alagadas”, afirma um coordenador da Defesa Civil ouvido pela reportagem. Segundo ele, o volume de água em algumas regiões se aproxima do registrado em episódios críticos de 2022, quando a cidade também enfrentou enchentes e danos estruturais.
Os alertas ganham urgência depois da nova sequência de vídeos que mostram cenas de risco, com motociclistas, pedestres e motoristas tentando cruzar ruas cobertas pela enxurrada. Especialistas em gestão de desastres lembram que a maior parte das mortes em enchentes ocorre em tentativas de travessia a pé ou de carro. Uma lâmina de água de 30 centímetros, somada à força da correnteza, é suficiente para derrubar uma pessoa adulta ou arrastar um veículo pequeno.
Danos imediatos e pressão por resposta estrutural
O impacto do temporal se espalha rápido pela economia local. Comerciantes relatam prejuízos com mercadorias molhadas, equipamentos danificados e queda no movimento em horários de pico. Em uma rua da região central, três lojas precisam interromper o atendimento em menos de meia hora por causa da água que invade os salões de venda. Donos estimam perdas de milhares de reais em estoque de roupas, calçados e produtos eletrônicos.
Moradores de áreas mais baixas convivem com um ritual conhecido: levantar móveis, desligar aparelhos e improvisar barreiras com tijolos e tábuas. A cada novo temporal, a rotina se repete e alimenta a sensação de abandono. “Todo ano é a mesma coisa, prometeram obra de drenagem, mas nada muda”, reclama uma moradora da zona norte, que acompanha pela janela o avanço da água no início da noite. Segundo ela, a família já contabiliza três perdas de geladeira desde 2020 por causa de enchentes.
Desde o começo do mês, prefeituras mineiras decretam situação de emergência para agilizar o acesso a recursos estaduais e federais. Em Juiz de Fora, técnicos avaliam se o acumulado de chuva nas últimas semanas justifica novo decreto. O instrumento permite contratação emergencial de obras e serviços, sem os prazos tradicionais de licitação, mas também desperta cobranças por transparência e planejamento. Especialistas em urbanismo insistem que o problema não se resolve apenas com ações pontuais em dias de caos.
O episódio do motoboy arrastado sintetiza essa disputa entre rotina e risco. Profissionais de entrega, motoristas de aplicativo e trabalhadores informais se veem pressionados a manter a atividade, mesmo sob alerta de temporal. “Se eu não trabalhar na chuva, não pago as contas”, diz um entregador de 29 anos, que passa o dia monitorando o radar meteorológico no celular antes de aceitar corridas. A cena registrada em Juiz de Fora ecoa a realidade de centenas de cidades brasileiras onde a chuva deixa clara a fragilidade da infraestrutura urbana.
Reação das autoridades e o que pode mudar
As autoridades estaduais prometem reforçar a estrutura de monitoramento e resposta a eventos extremos. Técnicos do setor de climatologia falam em um padrão de chuva mais concentrado e intenso, associado ao aquecimento global e ao avanço da urbanização desordenada. O governo de Minas Gerais discute, com prefeituras, a criação de um plano integrado para obras de drenagem, contenção de encostas e recuperação de margens de rios, com metas e prazos definidos até 2030.
Em Juiz de Fora, a Prefeitura anuncia que vai revisar o mapa de áreas de risco, ampliar o cadastro de famílias vulneráveis e reforçar campanhas educativas. A intenção é reduzir o número de pessoas expostas em situações como a do motoboy filmado durante o temporal. A eficácia dessas iniciativas, porém, depende de orçamento, continuidade de gestão e fiscalização de obras que, muitas vezes, ficam no papel após o fim da temporada de chuvas.
Enquanto o poder público discute planos, moradores seguem atentos a cada novo alerta no celular e a cada mudança de cor nas nuvens. A pergunta que se impõe, ao fim de mais um dia de temporal, é até quando cenas como a do entregador arrastado pela enxurrada continuarão a se repetir sem que a cidade esteja preparada para enfrentá-las.
