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Gol, dança e resposta ao racismo: Vini Jr decide Real x Benfica

Vinícius Júnior decide a classificação do Real Madrid às oitavas da Champions League, em 25 de fevereiro de 2026, e transforma sua comemoração em manifesto contra o racismo. O atacante marca o gol da vitória por 2 a 1 sobre o Benfica, no Santiago Bernabéu, e volta a dançar na bandeira de escanteio, em resposta direta às recentes polêmicas envolvendo o clube português.

Bernabéu em ebulição e resposta em forma de dança

O jogo em Madrid começa com o roteiro que o Benfica deseja. O time português suporta a pressão inicial, marca forte, troca passes com segurança e abre o placar ainda no primeiro tempo, silenciando parte dos mais de 80 mil torcedores presentes. O Real reage rápido e empata, devolvendo o controle emocional da partida ao atual campeão europeu.

O segundo tempo se transforma em teste de nervos. O Benfica precisa da vitória por um gol de diferença para forçar a prorrogação e empurra o time espanhol para o próprio campo em vários momentos. Finaliza mais, chega com perigo pelas laterais e obriga o goleiro merengue a intervenções decisivas. Nas arquibancadas, uma faixa gigante contra o racismo chama atenção e tenta reposicionar a imagem do clube lisboeta, arranhada nos últimos dias.

A mensagem institucional contrasta com o clima em torno de Gianluca Prestianni, atacante do Benfica acusado de comportamento racista em episódio recente. A repercussão negativa atravessa fronteiras, chega à Espanha e transforma o confronto em algo maior do que uma vaga nas oitavas. Vinícius, alvo recorrente de insultos racistas em estádios europeus desde 2021, sente esse ambiente de forma particular.

O lance decisivo nasce de um contra-ataque, já na reta final da partida. O Benfica se lança ao ataque, perde a bola na intermediária ofensiva, e o Real Madrid aciona Vini em velocidade. O brasileiro recebe aberto, parte em diagonal, encara Nicolás Otamendi, campeão do mundo pela Argentina, e o deixa para trás com um corte seco. A tatuagem do zagueiro, símbolo de experiência e batalha, fica para trás enquanto o camisa 7 finaliza rasteiro e faz 2 a 1.

A comemoração é instantânea e calculada. Vinícius corre em direção à bandeira de escanteio, exatamente como fizera no Estádio da Luz, em Lisboa, no duelo anterior entre as equipes. Dança, sorri, alonga os passos, encara a arquibancada. O gesto, que já funcionava como afirmação de identidade e alegria, ganha nova camada de significado. No Bernabéu, a dança é recado direto: ele não recua diante das tentativas de silenciamento.

Da arquibancada à política do futebol europeu

A vitória coloca o Real Madrid nas oitavas de final e elimina o Benfica, que volta a ser cobrado pela condução de episódios de racismo recentes. Nas redes sociais, torcedores madrilenhos celebram não só o resultado, mas o simbolismo do gol e da comemoração. Frases como “Vini não dança sozinho” e “a alegria é resistência” se espalham em português, espanhol e inglês, ampliando o alcance da mensagem.

O contraste entre a faixa contra o racismo exibida no Santiago Bernabéu e o histórico recente do Benfica expõe a distância entre discurso e prática no futebol europeu. O clube português tenta se alinhar à retórica de tolerância zero, mas convive com críticas por não agir com firmeza em episódios concretos. O caso envolvendo Prestianni, apontado como autor de ofensas racistas, vira símbolo desse descompasso.

A comemoração de Vinícius volta a dividir opiniões. Setores mais conservadores da crônica esportiva questionam a dança como provocação ao adversário e pedem “moderação” nas reações. Torcedores e ativistas antirracistas veem o oposto. Para eles, o gesto de Vini é resposta proporcional a anos de ataques, vaias direcionadas e cânticos racistas em estádios de La Liga e da própria Champions.

Organizações que monitoram discriminação no esporte ressaltam que casos de racismo na Europa seguem frequentes, mesmo com campanhas oficiais da Uefa e de grandes clubes. Relatórios recentes apontam aumento de denúncias desde 2022, com o Brasil entre os países que mais pressionam por punições duras, sobretudo quando seus jogadores são alvo. Vinícius se torna, nesse cenário, um dos rostos mais visíveis dessa luta.

Nas arquibancadas, a reação é ruidosa. Parte dos torcedores do Benfica reage com vaias e gestos de reprovação durante a dança. A torcida do Real, majoritária, abraça o jogador, canta seu nome por vários minutos e transforma o estádio em palco de apoio. O clima ajuda a cristalizar a imagem de Vini como protagonista de um embate que ultrapassa o gramado.

Futuro da Champions e disputa por narrativa

A classificação mantém o Real Madrid vivo na briga por mais um título europeu e aumenta a responsabilidade do clube diante da pauta antirracista. A diretoria tratar Vinícius como peça central, dentro e fora de campo, passa a ser questão esportiva e política. A presença do atacante no centro das campanhas de diversidade deixa de ser escolha de marketing e se torna compromisso cobrado por torcedores e observadores internacionais.

O Benfica volta para Lisboa com mais do que uma eliminação para administrar. A derrota por 2 a 1 e a imagem de Vinícius dançando, reproduzida exaustivamente em TV e redes, reforçam a sensação de que o clube fica exposto em duas frentes: a esportiva e a moral. Dirigentes se veem pressionados a responder com medidas concretas, investigações internas e punições claras, sob risco de ver o rótulo de “racista” colado de forma duradoura à instituição.

O episódio também reacende o debate sobre o papel da Uefa. As punições aplicadas até aqui são consideradas brandas por especialistas, que apontam multas de algumas dezenas de milhares de euros ou jogos com portões parcialmente fechados como insuficientes. A pressão agora é por sanções esportivas diretas, como perda de mando e até exclusão de competições em casos reincidentes.

Vinícius, por sua vez, consolida uma trajetória incomum para um jogador de 25 anos. Além dos números em campo, acumula protagonismo em discussões sobre direitos civis, liberdade de expressão e racismo estrutural. A cada novo episódio, cresce a percepção de que seu desempenho esportivo e seu ativismo caminham juntos, alimentando o outro.

A Champions League segue, e o Real Madrid aguarda o sorteio das oitavas com a confiança de quem sobrevive a noites tensas. A pergunta que fica para a Uefa, para o Benfica e para o próprio futebol europeu é se a dança de Vinícius ficará apenas como imagem marcante de uma classificação ou se se tornará ponto de virada na forma como o esporte enfrenta o racismo.

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