Kremlin diz que guerra na Ucrânia virou confronto direto com Ocidente
O Kremlin afirma nesta segunda-feira (24) que a guerra na Ucrânia já não é apenas um conflito entre Moscou e Kiev, mas um confronto amplo com o Ocidente. A declaração ocorre exatamente quatro anos após a entrada de dezenas de milhares de soldados russos no país vizinho, por ordem do presidente Vladimir Putin. O governo russo diz manter disposição para negociações políticas, mas responsabiliza a Ucrânia e seus aliados pela falta de avanços.
Kremlin eleva o tom no aniversário da invasão
Em Moscou, por meio de comunicado oficial, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, descreve uma mudança de escala na guerra iniciada em 2020. Ele afirma que a intervenção militar, batizada pelo governo russo de “operação militar especial”, se transforma em um confronto direto com países da Europa Ocidental e com os Estados Unidos, hoje principais fornecedores de armas, recursos e inteligência para Kiev.
“Após a intervenção direta neste conflito por parte dos países da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, a operação militar especial transformou-se, de fato, em um confronto muito maior entre a Rússia e os países ocidentais, que tinham e continuam a ter o objetivo de destruir o nosso país”, declara Peskov. O governo russo procura, assim, enquadrar o conflito como disputa existencial com o Ocidente, em vez de uma guerra limitada ao território ucraniano.
Quatro anos depois da ofensiva que rompe a fronteira ucraniana com dezenas de milhares de soldados, tanques e mísseis, a linha de frente continua ativa em cidades-chave do leste e do sul da Ucrânia. Sanções econômicas sucessivas dos Estados Unidos, da União Europeia e do G7 atingem bancos, empresas e oligarcas russos, enquanto o Kremlin mantém o discurso de resiliência e de adaptação da economia a um cenário de isolamento relativo.
Peskov diz que Moscou continua aberta a uma saída negociada, desde que, segundo ele, seus interesses sejam levados em conta. “Continuamos nossos esforços para alcançar a paz, nossa posição é muito clara e consistente. Agora, tudo depende das ações do regime de Kiev”, afirma. A escolha das palavras reforça a estratégia russa de retratar o governo do presidente Volodymyr Zelensky como subordinado a capitais ocidentais.
Tensão prolongada e impacto global crescente
A leitura de Peskov ocorre num momento em que a guerra já redesenha a ordem global. Desde 2020, pacotes sucessivos de ajuda militar e financeira somam dezenas de bilhões de dólares aprovados por Washington e por capitais europeias para sustentar o Exército ucraniano. Em resposta, Moscou amplia sua cooperação militar e energética com países como China e Irã, na tentativa de amortecer o isolamento imposto por sanções e embargos.
O conflito pressiona cadeias de energia e alimentos em todo o mundo. A interrupção parcial do fluxo de gás russo para a Europa força países como Alemanha e Itália a redesenhar, em menos de quatro anos, matrizes energéticas construídas ao longo de décadas. O custo aparece na conta de luz, na inflação e em pacotes de subsídios bilionários aprovados por governos europeus para suavizar o choque sobre famílias e empresas.
No campo militar, o confronto acelera uma corrida por rearmamento no continente. Membros da Otan anunciam planos para elevar gastos de defesa ao patamar de pelo menos 2% do PIB e retomam projetos de produção de munição em larga escala. A Rússia responde com incremento da produção de armamentos e com mobilizações parciais, que alteram a rotina de milhões de famílias russas desde o início da campanha militar.
Na Ucrânia, o prolongamento da guerra cobra um preço humano e econômico alto. Cidades inteiras no leste do país permanecem em ruínas, milhões de ucranianos deixam suas casas e buscam refúgio na Europa, e a reconstrução exigirá investimentos de centenas de bilhões de dólares, segundo estimativas de instituições financeiras internacionais. A fala de Peskov, ao enquadrar o conflito como disputa estrutural entre Rússia e Ocidente, reduz o espaço para concessões rápidas à mesa de negociação.
Perspectivas para negociações e próximos movimentos
Questionado sobre uma nova rodada de conversas de paz, Peskov admite que nem data nem local estão definidos. “Ainda não posso dizer quando e onde a próxima rodada de negociações com a Ucrânia ocorrerá, pois isso ainda não foi finalizado. Esperamos sinceramente que esse trabalho continue”, afirma. O Kremlin transmite a mensagem de que não fecha a porta ao diálogo, mas condiciona qualquer avanço à postura de Kiev e de seus aliados ocidentais.
A declaração deve alimentar a polarização diplomática entre Moscou e capitais ocidentais e tornar mais difícil qualquer tentativa de cessar-fogo imediato. Governos da Europa e dos Estados Unidos enfrentam, ao mesmo tempo, pressão interna por transparência no uso de recursos enviados a Kiev e cobrança para que evitem uma escalada que aproxime ainda mais a Otan de um confronto direto com a Rússia. Enquanto a guerra entra no quinto ano, permanece em aberto a pergunta que Peskov não responde: onde termina um conflito que o próprio Kremlin agora descreve como embate direto com o Ocidente?
