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Funcionária é morta em ataque a faca em shopping de São Bernardo

Uma funcionária de uma joalheria é morta a facadas dentro do Golden Square Shopping, em São Bernardo do Campo, na tarde desta quarta-feira (25). O agressor é baleado por um policial civil que está no local. A polícia trata o caso como feminicídio, com possível motivação ligada a uma relação anterior.

Ataque em loja movimentada e reação imediata

O ataque ocorre dentro de uma unidade da Vivara, em um dos shoppings mais movimentados do ABC paulista. Segundo a Polícia Militar, um homem entra na loja armado com uma faca e fere gravemente a funcionária. Clientes e funcionários se espalham pelos corredores enquanto seguranças esvaziam a área às pressas.

Um policial civil, que passa pelo local no momento da agressão, reage. Ele saca a arma e atira contra o homem para impedir novos golpes. O policial não se fere. Equipes de resgate e do Samu chegam em poucos minutos e socorrem vítima e agressor em estado grave. Horas depois, a morte da funcionária é confirmada. O estado de saúde do suspeito não é informado até a noite desta quarta.

Suspeita de feminicídio e choque na cidade

O caso é registrado inicialmente como tentativa de homicídio com intervenção policial e encaminhado ao 2º Distrito Policial de São Bernardo do Campo. As circunstâncias, porém, apontam para feminicídio, crime previsto em lei desde 2015 para casos de assassinato de mulheres em contexto de violência de gênero ou de relação íntima. A tipificação agrava a pena e expõe a dimensão estrutural da violência contra mulheres no país.

A Polícia Militar informa, em nota preliminar, que ainda não há confirmação oficial sobre o vínculo entre agressor e vítima. O prefeito de São Bernardo do Campo, Marcelo Lima (PSD), se antecipa e classifica o episódio como feminicídio cometido por um ex-companheiro. Em mensagem nas redes sociais, ele fala em “ataque covarde” e diz que a cidade perde “mais uma mulher para a violência que não consegue ser contida”.

O Golden Square Shopping também se manifesta. Em comunicado, o centro de compras lamenta a morte, define o crime como feminicídio e afirma que presta apoio ao lojista e à família da funcionária. A administração diz colaborar com a polícia na coleta de imagens das câmeras de segurança e de relatos de testemunhas, fundamentais para reconstruir a exata sequência dos fatos.

A Vivara confirma a morte da empregada em nota enviada à CNN Brasil. A joalheria afirma que “neste momento de dor imensurável, nossa prioridade absoluta é prestar todo o apoio e solidariedade à família, aos amigos e aos colegas de equipe que compartilhavam o dia a dia com ela”. A empresa diz oferecer suporte psicológico e assistência integral às pessoas diretamente afetadas.

Violência de gênero em espaço público e sensação de vulnerabilidade

O ataque ocorre em pleno horário de funcionamento, em um ambiente que muitos moradores veem como sinônimo de segurança. A cena de violência em um shopping fechado, monitorado por câmeras e com vigilância privada, amplia a sensação de vulnerabilidade entre frequentadores e trabalhadores. Mulheres que atuam no comércio relatam medo e exaustão diante da repetição de ataques com motivação de gênero.

O país soma, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 1,6 mil casos de feminicídio em 2024, o que representa uma média superior a quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero. A cada novo caso, cresce a pressão por políticas públicas mais efetivas, que incluam desde a ampliação de delegacias especializadas até mecanismos rápidos de resposta a ameaças e descumprimento de medidas protetivas.

Especialistas em violência contra a mulher apontam que episódios como o de São Bernardo expõem falhas de prevenção. Muitas vítimas avisam familiares, amigos ou autoridades sobre perseguições e ameaças, mas não encontram resposta ágil. O ataque dentro de um shopping, cercado por lojas e consumidores, mostra que nem a exposição em local público inibe o agressor disposto a matar.

Para comerciantes e funcionários, o caso pressiona shoppings e redes varejistas a reverem protocolos internos. Sistemas de alerta, treinamento de equipes para identificar sinais de risco e canais discretos de pedido de ajuda entram no centro da discussão. A morte da funcionária da Vivara ocorre em um momento em que grandes centros urbanos discutem, também, a expansão de botões de pânico e aplicativos de emergência voltados a mulheres em situação de ameaça.

Investigação, responsabilização e cobrança por mudança

A investigação da Polícia Civil deve esclarecer o histórico da relação entre suspeito e vítima, se havia registro de boletins de ocorrência anteriores e se alguma medida protetiva chegou a ser pedida. Também deve detalhar a dinâmica do ataque, o número exato de golpes, a distância em que o policial dispara e o tempo de resposta do socorro médico. Os laudos periciais e as imagens internas do shopping serão decisivos para a acusação no Tribunal do Júri.

O caso tende a reforçar o debate sobre a aplicação da Lei do Feminicídio e a necessidade de atualização de protocolos de segurança em locais de grande circulação. Organizações de defesa dos direitos das mulheres já cobram do poder público metas claras, com prazos e orçamento, para reduzir o número de ataques motivados por gênero. A prefeitura, o governo estadual e o próprio shopping são pressionados a apresentar medidas concretas, que vão além de notas de pesar.

Moradores de São Bernardo do Campo se organizam em vigílias e atos simbólicos em memória da funcionária assassinada. A morte em plena tarde de trabalho, em um centro de compras iluminado e vigiado, deixa uma pergunta que ecoa entre clientes, lojistas e autoridades: o que precisa mudar para que mulheres consigam viver e trabalhar sem medo de serem atacadas por quem um dia fez parte de suas vidas?

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