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Rascunho de Flávio expõe guerra eleitoral do PL em MS para 2026

Anotações manuscritas atribuídas ao senador Flávio Bolsonaro expõem, em fevereiro de 2026, apoio do PL à reeleição do governador Eduardo Riedel e citações a supostos pedidos milionários para retirada de candidaturas em Mato Grosso do Sul. O papel, revelado após reunião da cúpula nacional do partido, provoca reação imediata de aliados no Estado e abre nova frente de desgaste interno às vésperas da definição das chapas.

Bastidor de reunião vira crise em Mato Grosso do Sul

O rascunho vem a público nesta quarta-feira (25), após reportagem da Folha de S.Paulo ter acesso a um documento interno do PL intitulado “situação nos estados”. No papel, usado por Flávio durante encontro da cúpula nacional da sigla, em 2026, aparecem listas de nomes, comentários a lápis e observações sobre alianças regionais para as eleições de outubro.

No trecho dedicado a Mato Grosso do Sul, o senador anota que o partido deve apoiar a tentativa de reeleição de Eduardo Riedel, do PP, único governador da lista que não é filiado ao PL. A aliança, se confirmada, consolida uma parceria que começou na eleição de 2022 e coloca o bolsonarismo formalmente ao lado do atual chefe do Executivo estadual em 2026.

O papel também registra os nomes cotados para a disputa ao Senado. O ex-governador Reinaldo Azambuja, hoje no PL, e o ex-deputado estadual Capitão Contar aparecem como as principais apostas. Ao lado de Contar, a frase “recall / melhor nas pesquisas, 18% contra 2% dos outros” indica que, nos levantamentos internos, o ex-parlamentar teria vantagem folgada sobre rivais, com 18% das intenções de voto ante 2% de concorrentes citados.

É nesse mesmo bloco de observações que o rascunho menciona dois supostos pedidos de dinheiro. Ao lado do nome do deputado federal Marcos Pollon, o texto registra: “Pollon (pediu 15 mi p/ não ser candidato)”. Em outra linha, ao lado da referência a Gianni Nogueira, vice-prefeita de Dourados, aparece: “Mulher Rodolpho (pediu 5 mi)”, em alusão ao deputado federal Rodolfo Nogueira, marido da dirigente municipal.

As frases circulam em grupos políticos de Campo Grande e de Brasília desde o início da semana e rapidamente ganham contornos de crise. Em um cenário em que a legenda tenta desenhar um palanque coeso para a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, a exposição de bastidores reforça a percepção de disputa por espaço e por recursos em Mato Grosso do Sul.

Acusações negadas e disputa por espaço no partido

Marcos Pollon nega qualquer pedido de dinheiro para abrir mão de candidatura. À Folha, o deputado afirma que a anotação “não faz o menor sentido” e fala em tentativa de desgastar sua imagem. Segundo ele, não há conversa sobre valores ou barganha financeira vinculada a sua presença ou ausência na disputa de 2026.

Rodolfo Nogueira, que constrói o nome da esposa para eventual corrida ao Senado, reage na mesma linha. O parlamentar diz que Gianni jamais condiciona sua participação eleitoral a pagamento. Ele sustenta que a vice-prefeita conta, inclusive, com apoio direto do ex-presidente Jair Bolsonaro e que eventuais entendimentos serão políticos, não financeiros.

A repercussão obriga o próprio Flávio a vir a público. O senador confirma que o papel é seu, mas recua do conteúdo mais explosivo. Afirma que anota “comentários ou impressões” ouvidos ao longo da reunião, muitas vezes em tom informal, e que o rascunho não pode ser lido como ata oficial de negociações. Diz ainda que parte do que foi registrado está sendo “distorcido” e que não houve pedido formal de dinheiro por parte de Pollon.

O episódio abre uma janela para o modo como o PL organiza seu tabuleiro estadual. Desde 2022, quando o bolsonarismo impulsiona candidaturas competitivas em Mato Grosso do Sul, a sigla tenta acomodar aliados que cresceram na esteira do voto conservador. Capitão Contar, que disputou o governo naquele ano, mantém presença em pesquisas de intenção de voto. Azambuja, ex-tucano, migra para o PL e agrega estrutura e tempo de TV. Pollon, ligado ao bolsonarismo raiz, tenta preservar espaço na bancada federal.

No plano local, o apoio a Riedel reforça uma coalizão que já governa o Estado com base em aproximação com Jair Bolsonaro. Para o governador, ter o PL nacional ao lado significa ampliar acesso a palanque presidencial, tempo de propaganda e militância digital. Para o partido, a aliança oferece a chance de manter influência direta em decisões do Executivo sul-mato-grossense até 2030, caso Riedel assegure mais quatro anos.

A controvérsia sobre supostos pedidos de R$ 15 milhões e R$ 5 milhões, mesmo negada, toca em um ponto sensível do debate público: a linha que separa negociação política legítima e barganha por vantagens. Em um ano em que o fundo eleitoral deve ultrapassar a marca de R$ 4,9 bilhões no país, qualquer suspeita de uso de recursos para comprar desistências reacende questionamentos sobre transparência interna dos partidos.

Impacto nas alianças e incerteza para 2026

O rascunho chega ao noticiário no momento em que o PL tenta sair na frente na definição de palanques estaduais. A estratégia é clara: consolidar apoios aos governadores aliados e, ao mesmo tempo, abrir espaço para nomes competitivos ao Senado e à Câmara. Em Mato Grosso do Sul, o papel atribuído a Flávio indica que as principais peças já estão colocadas, mas a briga por quem ocupará cada vaga permanece aberta.

Para Riedel, a sinalização de apoio da cúpula nacional serve como trunfo nas conversas com outros partidos do centro e da direita. Para Azambuja e Contar, a preferência nas anotações significa vantagem simbólica sobre rivais que tentam se viabilizar até junho, prazo limite para as convenções. Para Pollon e Gianni, a exposição pública tende a aumentar o escrutínio sobre seus movimentos e sobre qualquer negociação envolvendo suas candidaturas.

O caso também tensiona a relação entre a direção nacional do PL e suas lideranças locais. Dirigentes sul-mato-grossenses cobram, nos bastidores, mais reserva na condução de conversas internas. A avaliação é que a divulgação de rascunhos, sem contexto, alimenta desconfiança entre aliados e pode encorajar adversários a explorar a imagem de um partido dividido.

Na esfera pública, o episódio alimenta debates sobre ética nas campanhas. Organizações de controle social e especialistas em direito eleitoral lembram que pedidos de dinheiro em troca de desistência podem caracterizar abuso de poder econômico, caso se comprovem, e levar à cassação de candidaturas. Não há, até o momento, investigação formal aberta sobre as anotações, mas a pressão por esclarecimentos cresce à medida que o calendário eleitoral avança.

Próximos passos e disputas em aberto

A cúpula do PL ainda precisa transformar os rascunhos em decisões oficiais. As convenções partidárias ocorrem entre julho e agosto de 2026, prazo em que o partido terá de bater o martelo sobre apoio a Riedel, nomes para o Senado e composição das chapas proporcionais. Até lá, aliados de Pollon e de Gianni tentarão reverter o desgaste e reafirmar suas pré-candidaturas nos diretórios regionais.

Flávio Bolsonaro, que testa seu nome para a Presidência, terá de administrar o episódio enquanto percorre o país em busca de palanques alinhados. Em Mato Grosso do Sul, a dúvida é se o ruído provocado pelo rascunho será apenas um incidente de bastidor ou o prenúncio de um racha mais profundo no campo bolsonarista. A resposta vai depender de como o partido lida, nos próximos meses, com a combinação explosiva de ambições pessoais, recursos milionários e um eleitorado cada vez mais atento ao que acontece longe dos holofotes.

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