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Temporal em Juiz de Fora e Ubá deixa 48 mortos e cidades em colapso

Um temporal extremo atinge Juiz de Fora e Ubá desde segunda-feira (23) e deixa, até esta quarta (25), 48 mortos, 20 desaparecidos e milhares desabrigados. As duas cidades da Zona da Mata Mineira entram em estado de calamidade pública, com bairros inteiros alagados, deslizamentos em cadeia e resgates que avançam madrugada adentro.

Chuvas históricas afogam a Zona da Mata

As cenas que chegam de Juiz de Fora e Ubá rompem qualquer noção de normalidade. Ruas viram rios velozes, casas desabam em minutos, famílias fogem com o que conseguem carregar. O que começa como mais uma tempestade de verão se transforma, em poucas horas, no episódio de chuva mais intenso já registrado em partes da região.

Em Juiz de Fora, o volume acumulado alcança 584 milímetros em fevereiro, o maior da série histórica do município. Na prática, quase toda a chuva prevista para vários meses cai em poucas semanas. A cidade soma 42 mortes confirmadas, ao menos 20 pessoas desaparecidas, cerca de 3 mil desabrigados e 400 desalojados. Os números crescem à medida que equipes acessam áreas antes isoladas pela água e pela lama.

Em Ubá, o drama se concentra no Rio Ubá. Em apenas três horas, entre a noite de segunda (23) e a madrugada de terça (24), chove cerca de 170 milímetros. O rio sobe rápido, rompe a margem habitual e atinge 7,82 metros, em uma inundação classificada pelas autoridades locais como histórica. Ruas do centro somem sob a água barrenta, com comércios, casas e carros submersos até a altura do teto em alguns trechos.

As estatísticas traduzem parte da tragédia. Ubá registra, até agora, seis mortes e mantém a busca por duas pessoas desaparecidas. Segundo o Corpo de Bombeiros, 178 moradores ficam desalojados e 26 desabrigados. A conta inclui famílias que deixam suas casas por risco de desabamento, mesmo sem perda total dos imóveis.

Vídeos gravados por moradores circulam nas redes e ajudam a dimensionar a força da água. Em Juiz de Fora, uma casa cede e desaba em poucos segundos, engolida por um barranco encharcado. Em outra sequência, carros ficam ilhados em uma avenida transformada em canal de enxurrada. Em Ubá, a água empurra muros, invade lojas e arrasta móveis, mercadorias e veículos.

Resgates em oito frentes e Estado em luto

O Corpo de Bombeiros monta uma operação de guerra. O comando divide o trabalho em oito frentes, seis em Juiz de Fora e duas em Ubá, para acelerar buscas, salvamentos e vistorias de áreas de risco. As equipes se revezam em turnos contínuos na retirada de moradores ilhados, no resgate de corpos soterrados e na verificação de encostas instáveis.

A Defesa Civil indica que o solo permanece saturado e alerta para o risco de novos deslizamentos, mesmo em períodos de trégua na chuva. Vários morros exibem rachaduras e escorregamentos recentes. Técnicos fazem interdições preventivas de casas e prédios inteiros, muitas vezes sob protesto de moradores que resistem a sair. “A gente entende o apego, mas o risco é imediato”, afirma um agente ouvido pela reportagem, que pede para não ser identificado porque não está autorizado a falar em nome do órgão.

As prefeituras de Juiz de Fora e Ubá decretam estado de calamidade pública, o que permite contratar serviços de forma mais rápida, acessar verbas emergenciais e remanejar orçamento sem os trâmites habituais. Quadras esportivas, escolas e igrejas são adaptadas às pressas como abrigos temporários. Colchões, cobertores e itens de higiene se tornam prioridade, assim como alimentação para milhares de pessoas que perderam tudo em poucas horas.

No plano estadual, o governo de Minas Gerais decreta luto oficial de três dias. O governador Romeu Zema afirma que acompanha a situação e promete apoio às prefeituras. O vice-governador Mateus Simões se desloca à região e sobrevoa áreas de Juiz de Fora ao lado do coordenador estadual da Defesa Civil para avaliar danos e necessidades imediatas. “Vamos atuar para reconstruir o que for possível e reduzir riscos para a população”, diz, em declaração divulgada pelo governo.

O impacto econômico ainda é difícil de medir. Em Ubá, polo moveleiro da Zona da Mata, galpões industriais e pequenos negócios amanhecem alagados, com maquinário e estoque danificados. Em Juiz de Fora, comerciantes de bairros atingidos abrem portas apenas para retirar lama e calcular prejuízos. Em ambos os municípios, famílias enfrentam o desafio imediato de obter documentos, medicamentos e roupas secas.

Alerta máximo e incerteza sobre os próximos dias

O cenário de amanhã preocupa tanto quanto o estrago de hoje. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emite alerta vermelho para áreas do Sudeste, incluindo a Zona da Mata, até sexta-feira (27). O aviso, o mais grave da escala oficial, indica “grande perigo”, com possibilidade de mais de 60 milímetros de chuva por hora ou 100 milímetros ao longo do dia. Em uma região já encharcada, cada nova pancada aumenta o risco de deslizamentos, enxurradas e novas cheias.

Equipes da Defesa Civil montam salas de crise, monitoram níveis de rios em tempo real e reforçam orientações à população. A ordem é deixar imediatamente áreas de encosta, margens de rios e construções condenadas. Voluntários se somam aos bombeiros em centros de doação e postos de atendimento. Psicólogos e assistentes sociais começam a atuar em abrigos, onde crianças dormem em colchonetes improvisados e relatam o medo de voltar para casa.

Especialistas em clima e gestão de risco veem o episódio como mais um sinal de que eventos extremos deixam de ser exceção. O acúmulo de 584 milímetros em Juiz de Fora, em um único mês, alimenta o debate sobre ocupação desordenada, drenagem insuficiente e preparo das cidades para chuvas intensas. A combinação de encostas ocupadas, cursos d’água canalizados e redes de esgoto antigas transforma temporais em tragédias recorrentes.

No curto prazo, o esforço se concentra em salvar vidas e dar abrigo a quem perdeu a casa. No médio prazo, prefeituras e governo estadual prometem revisar mapeamentos de áreas de risco, ampliar obras de contenção de encostas e melhorar sistemas de alerta. A experiência de 2026, porém, cobra respostas mais profundas, que passam por planejamento urbano, habitação segura e políticas consistentes de adaptação às mudanças do clima.

Enquanto a chuva mantém a região em suspense, moradores aguardam não só o recuo da água, mas um compromisso claro de que a reconstrução virá acompanhada de mudanças. A pergunta que ecoa entre ruas enlameadas e abrigos lotados é se Juiz de Fora e Ubá conseguirão transformar a maior tragédia recente de sua história em um ponto de virada ou se seguirão vulneráveis ao próximo temporal.

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