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Justiça dos EUA retém arquivos sobre Trump em caso Epstein

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos retira e mantém sob sigilo, em 2026, arquivos ligados a alegações de abuso sexual de menor envolvendo Donald Trump no escândalo Jeffrey Epstein. A decisão restringe o acesso público a documentos que poderiam esclarecer o papel do ex-presidente em um dos casos mais sensíveis da última década.

Sigilo reacende suspeitas sobre transparência

A revelação, trazida à tona por reportagem da rádio pública NPR, provoca reação imediata em Washington. Grupos de direitos civis, parlamentares de oposição e advogados ligados a vítimas de Epstein cobram explicações formais do Departamento de Justiça. A retirada dos arquivos ocorre em meio à pressão por mais transparência no caso, que se arrasta desde a prisão de Epstein, em julho de 2019, e sua morte na cadeia, em agosto do mesmo ano.

Os documentos envolvem alegações de abuso sexual contra uma menor de idade que, segundo depoimentos recolhidos em processos civis, teria sido aliciada para encontros com Trump nos anos 1990, quando Epstein mantinha uma rede de exploração sexual que atravessava estados e fronteiras. O Departamento de Justiça não informa quantos arquivos são afetados nem o conteúdo específico dos relatórios, mas admite, em nota sucinta, que determinados materiais “permanecem sob revisão” e não estarão disponíveis para consulta pública por tempo indeterminado.

Pressão política e memória do caso Epstein

A decisão atinge um ponto sensível da política americana. Trump, que segue como uma das figuras mais influentes do Partido Republicano, já enfrenta desde 2020 uma série de processos civis e criminais em diferentes estados. A associação de seu nome às acusações mais graves do caso Epstein volta a ocupar espaço central no debate público, justamente quando campanhas para as eleições legislativas de meio de mandato, previstas para novembro de 2026, aceleram a disputa por narrativas.

O histórico do escândalo eleva a temperatura. Epstein, preso em 6 de julho de 2019 sob acusações federais de tráfico sexual de menores, mantinha laços com bilionários, políticos e celebridades. Ele é encontrado morto em sua cela em 10 de agosto de 2019, em Nova York, em circunstâncias que alimentam teorias de conspiração e questionamentos sobre a atuação das autoridades federais. Desde então, juízes liberam, em ondas sucessivas, centenas de páginas de documentos, depoimentos e acordos, numa tentativa parcial de resposta às vítimas e à opinião pública.

A retenção dos arquivos ligados a Trump rompe essa trajetória recente de abertura gradual. Advogados que atuam em nome de mulheres abusadas por Epstein afirmam, reservadamente, que os materiais podem conter depoimentos inéditos, registros de investigações internas do FBI e comunicações entre promotores e a defesa de figuras de alto escalão. “A opacidade em um caso dessa gravidade não é um detalhe técnico, é uma escolha política”, diz um advogado de vítimas ouvido sob condição de anonimato, por temer represálias.

Confiança nas instituições em xeque

A movimentação do Departamento de Justiça reforça a percepção de interferência política em casos sensíveis. Organizações como a ACLU e a Human Rights Watch defendem a divulgação integral dos arquivos, com tarjas apenas para proteger identidades de vítimas, regra já aplicada em processos similares. Para essas entidades, o sigilo prolongado alimenta a narrativa de que figuras ricas e poderosas conseguem escapar ao escrutínio que recai sobre cidadãos comuns.

Especialistas em direito público ouvidos pela imprensa americana lembram que diretrizes internas da própria Justiça dos EUA recomendam máxima transparência em casos que envolvem interesse público evidente. Eles citam decisões da Suprema Corte, desde a década de 1970, que consolidam o direito de acesso a informações sobre processos criminais encerrados ou em fase avançada. “Quando a Justiça parece proteger um ex-presidente acusado de abuso de menor, o dano institucional é imediato”, afirma uma professora de direito constitucional da Costa Leste, que acompanha o caso desde 2019.

No Congresso, democratas falam em convocar, ainda no primeiro semestre de 2026, ao menos dois altos funcionários do Departamento de Justiça para explicar os critérios da retenção. Republicanos dividem-se entre o discurso de perseguição política a Trump e o argumento de que o sigilo seria necessário para proteger investigações em andamento. A ausência de detalhes objetivos sobre o número de documentos, as datas cobertas pelos arquivos e o estágio das apurações amplia a desconfiança. Sem dados concretos, proliferam versões conflitantes em redes sociais e canais de TV partidários.

Reação internacional e impacto político

O caso extrapola fronteiras. Veículos europeus e latino-americanos, que desde 2020 acompanham cada nova divulgação de arquivos do caso Epstein, destacam o impacto simbólico da decisão. Em países que adotam os Estados Unidos como referência em independência judicial, a notícia reforça o discurso de que abusos cometidos por integrantes da elite global permanecem longe da luz pública. A cada novo elemento, cresce o questionamento sobre o compromisso do sistema de justiça americano com vítimas de violência sexual.

Diplomatas consultados reservadamente avaliam que a retenção dos documentos pode ser usada por rivais geopolíticos de Washington como argumento em disputas narrativas sobre direitos humanos. Regimes autoritários tendem a explorar, em fóruns internacionais, qualquer evidência de seletividade na aplicação da lei nos EUA. A combinação de alegações de abuso sexual contra menor, um ex-presidente e um bilionário morto em circunstâncias contestadas oferece munição fácil nesses embates.

Próximos passos e riscos para o Departamento de Justiça

Nos próximos meses, a batalha se desloca para os tribunais. Grupos de imprensa, organizações de direitos humanos e representantes de vítimas preparam pedidos formais com base na Lei de Liberdade de Informação, em vigor desde 1967, para forçar a abertura dos arquivos. Advogados estimam que ações podem chegar à Suprema Corte em até 24 meses, caso o Departamento de Justiça mantenha a estratégia de sigilo.

A pressão política tende a aumentar à medida que o calendário eleitoral de 2026 se aproxima de etapas decisivas. Se o órgão recuar e liberar os documentos, corre o risco de ser acusado de ceder a interesses partidários. Se insistir no segredo, terá de justificar por que, passados sete anos da morte de Epstein, ainda precisa blindar arquivos que envolvem uma das figuras mais polarizadoras do país. No centro da disputa, permanece uma pergunta que nenhuma nota oficial resolve: quem a Justiça protege quando escolhe manter essas histórias fora do alcance do público?

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