Flávio Bolsonaro resiste a apoio do PL a aliado de Nikolas em MG
Flávio Bolsonaro manifesta resistência interna ao apoio do PL a um aliado de Nikolas Ferreira para o governo de Minas Gerais em 2026. A posição, registrada em anotação manuscrita, expõe fissuras na estratégia eleitoral do partido. O debate ocorre em reunião na sede nacional da sigla, nesta quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026.
Anotação manuscrita acende alerta no comando do PL
A discussão emerge quando dirigentes do PL analisam cenários para a disputa estadual em Minas, segundo maior colégio eleitoral do país, com cerca de 16 milhões de eleitores em 2022. Em meio a quadros e mapas de desempenho por município, uma frase escrita à mão por Flávio, hoje um dos principais articuladores políticos da legenda, circula entre poucos auxiliares e cai na mesa da cúpula: “Esse nome me puxa para baixo”.
A anotação, feita durante encontros reservados de planejamento eleitoral, mira um pré-candidato ao governo mineiro ligado ao deputado Nikolas Ferreira, estrela do bolsonarismo nas redes. Ao associar o apoio a um possível desgaste próprio e do partido, o senador sinaliza desconforto com a costura que ganha força em parte da direção. A frase, curta e direta, resume a avaliação de que a aliança pode reduzir o potencial de votos do PL no estado e contaminar palanques paralelos.
Disputa por palanque em Minas expõe divisão no bolsonarismo
As reuniões na sede nacional do PL, em Brasília, ocorrem desde o início de fevereiro e buscam definir, até o segundo semestre de 2025, os nomes competitivos nos principais estados. Minas é tratada como prioridade absoluta. Em 2018 e 2022, o desempenho do bolsonarismo no estado oscila e acende a percepção de que qualquer erro de palanque regional, em 2026, pode pesar também nas articulações nacionais.
O incômodo de Flávio se volta menos à figura de Nikolas e mais ao efeito de um aliado escolhido apenas pela projeção digital. A avaliação interna é que a campanha ao governo exige estrutura capilar, alianças locais e um discurso capaz de dialogar com eleitorados distintos, do Triângulo Mineiro ao Vale do Jequitinhonha. No papel, um dirigente anota: “Rede social ajuda, mas não vence eleição sozinha”.
Ao apontar que o nome “puxa para baixo”, o senador sugere que o apoio pode afastar setores conservadores mais moderados e prefeitos que ainda hesitam em ligar seus palanques a figuras de alto desgaste. A leitura é compartilhada, de forma reservada, por integrantes de diretórios de pelo menos quatro regiões do estado, preocupados com o reflexo nas disputas municipais de 2028 e nas bancadas federal e estadual.
Estratégia em xeque e risco de cisão interna
A anotação manuscrita reacende um debate conhecido no PL: até que ponto o partido deve atrelar sua estratégia regional às figuras mais estridentes do bolsonarismo. Em 2022, aliados lembram que alianças locais mal calibradas custam votos e limitam a capacidade de expansão para além do eleitorado já convertido. Agora, em 2026, o cenário é mais delicado. Pesquisas internas encomendadas para Minas, com amostras de cerca de 1.200 entrevistados por rodada, apontam um espaço de disputa de ao menos 20% do eleitorado, hoje sem preferência clara.
É esse eleitor, visto como decisivo, que entra no radar de Flávio ao contestar o apoio ao aliado de Nikolas. A indicação de que o nome “puxa para baixo” revela medo de cristalizar rejeição antecipada, antes mesmo do início oficial da campanha, previsto para agosto de 2026. A cúpula do partido teme que divisões abertas agora se transformem em candidaturas avulsas, chapas concorrentes ou sabotagem silenciosa nos diretórios municipais.
Dirigentes próximos ao senador avaliam que o registro manuscrito funciona como recado interno. “Ele está dizendo: não vamos errar em Minas de novo”, resume um interlocutor, em conversa reservada. A preocupação, segundo esse grupo, não se limita ao governo estadual. O desenho de palanques regionais interfere diretamente na montagem da chapa proporcional, que define quantas cadeiras o PL pode buscar na Assembleia mineira e na Câmara dos Deputados.
Impacto na imagem do partido e nas alianças para 2026
O vazamento da anotação e de sua discussão em reuniões internas expõe uma fissura que o PL tenta conter nos bastidores. A legenda, que elegeu uma das maiores bancadas da Câmara em 2022, busca se apresentar como alternativa organizada e viável para 2026. A revelação de divergências sobre um dos principais palanques estaduais contradiz o discurso de coesão e abre espaço para que adversários explorem a divisão.
No curto prazo, a repercussão fragiliza o pré-candidato associado a Nikolas, cujo nome ainda não é oficialmente lançado, e empurra o partido a reavaliar cronogramas. Dirigentes falam, em caráter reservado, em adiar qualquer anúncio em Minas até que pesquisas mais robustas, com amostras acima de 2.000 entrevistas, confirmem viabilidade mínima. Um atraso de três ou quatro meses na definição do cabeça de chapa pode redesenhar negociações com partidos de centro, interessados em compor uma frente anti-PT no estado.
A anotação “me puxa para baixo” ganha, assim, peso simbólico. Ela aponta para o desgaste potencial junto a setores do empresariado e a lideranças religiosas que cobram um discurso menos beligerante e mais focado em emprego, segurança e obras de infraestrutura. A insistência em um nome visto como polarizador aumenta o risco de isolamento político do PL em Minas e dificulta a construção de um palanque competitivo para a disputa nacional.
Próximos passos e cenário em aberto em Minas Gerais
A direção nacional do PL promete concluir, até o fim de 2026, um mapa de alianças estaduais alinhado ao projeto presidencial da sigla. Nos bastidores, porém, interlocutores admitem que Minas não deve ter solução rápida. A resistência de Flávio à candidatura ligada a Nikolas obriga o partido a testar alternativas, como a busca por um nome de fora da política tradicional ou a reaproximação com velhos aliados do campo conservador mineiro.
O episódio também serve de termômetro para o peso real de Flávio nas decisões estratégicas. Se sua advertência prevalecer e o PL recuar do apoio ao aliado de Nikolas, o senador consolida a imagem de fiador da racionalidade eleitoral da sigla. Se for ignorado, a frase manuscrita entra para o arquivo de alertas não ouvidos e alimenta a pergunta que deve acompanhar o PL até a convenção: Minas será vitrine de unidade ou retrato das fraturas internas do partido em 2026?
