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AtlasIntel mostra perda de fôlego de Lula e avanço de Flávio Bolsonaro

A nova pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, divulgada nesta quarta-feira (25), mostra que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perde parte da vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial. Em um mês, o presidente recua em segmentos-chave do eleitorado, enquanto o senador fluminense encurta a distância e transforma o cenário de 2026 em uma disputa mais apertada.

Disputa fica mais estreita em um mês

O principal cenário de primeiro turno testado em fevereiro traz Lula com 45% das intenções de voto, contra 37,9% de Flávio Bolsonaro. Em janeiro, o petista aparecia com 48,8%, enquanto o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) somava 35%. A diferença, que era de 13,8 pontos, cai para 7,1 pontos em quatro semanas.

Os números indicam um recuo de 3,8 pontos percentuais para Lula e um avanço de 2,9 pontos para Flávio. A pesquisa ouve 4.986 eleitores em fevereiro, com margem de erro de 1 ponto percentual para mais ou para menos na amostra total. O levantamento é registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o código BR-07600/2026. Em janeiro, a AtlasIntel havia entrevistado 5.418 pessoas, com registro BR-02804/2026 e a mesma margem declarada.

Os dados brutos sugerem um quadro mais competitivo, mas o movimento não é homogêneo. A erosão da vantagem de Lula se concentra em grupos específicos, como homens, eleitores com baixa escolaridade e moradores de regiões estratégicas, em especial Sudeste e Nordeste. Essas mudanças ajudam a explicar por que o entorno do Planalto acompanha o levantamento com inquietação, enquanto o campo bolsonarista reage com entusiasmo.

Homens e baixa escolaridade puxam avanço do senador

Entre os eleitores homens, a curva se inverte em apenas um mês. Em janeiro, Lula tinha 40,6% nesse grupo. Em fevereiro, cai para 36,4%. Flávio, que marcava 38%, salta para 45,6%. A diferença de dois pontos pró-Lula se transforma em uma vantagem de mais de nove pontos para o senador. O recorte masculino passa a ser um dos motores do encurtamento da distância no cenário nacional.

A virada é ainda mais aguda entre os eleitores com até o ensino fundamental. Em janeiro, Lula liderava com folga nesse segmento, com 61,2% das intenções de voto. Em fevereiro, despenca para 37,3%, uma queda de quase 24 pontos. Flávio Bolsonaro sobe de 28% para 41,2%, um ganho de 13,2 pontos. O grupo, historicamente associado a um voto mais sensível a renda, emprego e programas sociais, deixa de ser um reduto confortável para o petista.

A região Sudeste, a mais populosa do país e decisiva para qualquer candidatura presidencial, registra um achatamento evidente da diferença. Em janeiro, Lula tinha 49,3% das intenções de voto na região, contra 36,1% de Flávio. Em fevereiro, o cenário muda: 43,6% para o presidente e 41,9% para o senador. A vantagem de mais de 13 pontos encolhe para menos de 2 pontos, dentro da margem de erro global da pesquisa.

No Nordeste, principal bastião eleitoral de Lula desde 2006, o movimento é mais discreto, mas segue a mesma direção. O presidente cai de 58,2% para 50,4% entre janeiro e fevereiro. Flávio sobe de 28,7% para 31,8%. A liderança continua folgada, mas a perda de quase oito pontos em um mês acende o alerta em um território que o PT trata como prioridade absoluta em cada eleição presidencial.

A AtlasIntel informa que a margem de erro de 1 ponto percentual vale para o conjunto da amostra. O instituto não divulga a variação específica por estrato, como sexo, escolaridade ou região, o que tende a aumentar a incerteza nesses recortes por envolver menos entrevistados. Mesmo assim, a direção do movimento, registrada em diferentes grupos, reforça a percepção de que o favoritismo de Lula deixa de ser confortável.

Estratégias, riscos e disputa por narrativa

Os resultados chegam em um momento em que o governo tenta consolidar uma agenda econômica de crescimento moderado, com inflação sob controle e queda nos juros, mas enfrenta desgaste com pautas impopulares no Congresso e ruídos na base aliada. A percepção de que Flávio Bolsonaro consegue herdar parte do capital político do pai, mantendo viva a identidade do bolsonarismo, altera o cálculo de risco para o Planalto.

Em conversas reservadas, aliados de Lula tratam os números com cautela e lembram que a eleição ainda está distante. Ao mesmo tempo, admitem que a perda de tração entre homens e entre eleitores com ensino fundamental pressiona o governo a reforçar a comunicação sobre emprego, salário mínimo e programas sociais. “Esse é o eleitor que sente primeiro qualquer aperto no orçamento e responde rápido às mudanças de humor da economia”, avalia um estrategista governista ouvido sob reserva.

No campo bolsonarista, a leitura é oposta. A aproximação nas regiões Sudeste e Nordeste é usada como argumento para sustentar que a marca Bolsonaro mantém apelo nacional mesmo após a inelegibilidade de Jair e as investigações sobre ataques às instituições. A escolha de Flávio como principal nome em 2026, testada na pesquisa, tende a ganhar força nas articulações internas do PL e de partidos aliados.

A migração de intenções de voto em segmentos populares também desperta atenção no mercado e entre analistas políticos. Um cenário mais competitivo reduz a previsibilidade sobre a condução da política econômica a partir de 2027 e abre espaço para barganhas mais duras no Congresso. A depender da leitura que os parlamentares fizerem da tendência, o governo pode enfrentar maior resistência para aprovar medidas estruturais, em especial as que envolvem gasto público e reforma tributária complementar.

Os dados ainda podem influenciar a movimentação de possíveis terceiros nomes, hoje em posição secundária nas pesquisas. A percepção de que Flávio Bolsonaro encurta a distância para Lula pode estimular negociações por chapas alternativas, federações partidárias e alianças regionais, em busca de espaço em um campo hoje polarizado. O xadrez passa a considerar não apenas o tamanho atual de cada candidato, mas a velocidade de crescimento ou queda em grupos sensíveis.

Um ano longo até as urnas

O ciclo até a eleição de 2026 ainda é longo, mas a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de fevereiro oferece um retrato incômodo para o governo e animador para a oposição. A mensagem que sai dos números é clara: Lula continua à frente, porém já não navega em águas tão calmas. Flávio Bolsonaro não lidera, mas testa sua capacidade de ocupar o espaço deixado pelo pai e consolidar-se como o nome de referência do bolsonarismo.

Campanhas e partidos tendem a reagir rapidamente ao diagnóstico. O Palácio do Planalto deve ampliar o esforço de comunicação voltado a homens, trabalhadores de baixa renda e eleitores com menor escolaridade, em especial no Sudeste. O entorno de Flávio, por sua vez, ganha munição para atrair apoios de centro-direita e reforçar a narrativa de que a direita tem chances reais de voltar ao poder em 2027.

As próximas pesquisas vão indicar se o movimento atual é um soluço estatístico, uma oscilação passageira, ou o início de uma tendência consistente. Até lá, Lula e Flávio Bolsonaro disputam não apenas pontos percentuais, mas a capacidade de moldar o humor do eleitorado em um país que ainda tenta entender o que será, na prática, o pós-bolsonarismo.

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