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Zoológicos usam pelúcias para salvar filhotes rejeitados no Brasil

Zoológicos brasileiros adotam, nas últimas semanas, um método inusitado para acalmar filhotes rejeitados pelas mães: bichos de pelúcia. As peças substituem parte do aconchego materno e reduzem o estresse em animais que correm risco maior de morte precoce.

Pelúcias entram na rotina dos recintos

O uso de brinquedos macios deixa de ser mimo e vira ferramenta de manejo em pelo menos meia dúzia de instituições espalhadas pelo país. Em recintos de mamíferos de pequeno porte, como macacos, raposas-do-campo e filhotes de felinos, as pelúcias ocupam o lugar que a mãe não pôde assumir, seja por rejeição, doença ou morte durante o parto.

Tratadores relatam que, nas primeiras 24 horas após a introdução do brinquedo, os filhotes passam mais tempo aninhados e menos minutos em choro e agitação. O efeito é visível a olho nu. “A frequência de vocalização cai quase pela metade no primeiro dia”, afirma um biólogo responsável por um zoo no Sudeste, que acompanha quatro filhotes sob esse protocolo desde janeiro.

As peças não são quaisquer ursos retirados da prateleira. Elas seguem critérios definidos por equipes técnicas, com base em textura, tamanho e ausência de partes soltas que representem risco de ingestão. Em muitos casos, recebem mantas com o cheiro do recinto, simulando o ambiente em que o filhote estaria se a mãe o aceitasse. O objetivo é reduzir a sensação de ruptura brusca e criar um ponto estável de segurança, conceito central no comportamento animal.

A estratégia ganha projeção depois que um vídeo, divulgado há menos de duas semanas nas redes sociais de um zoo do interior paulista, ultrapassa 1 milhão de visualizações. Nele, um filhote de cerca de 800 gramas, órfão, se agarra a uma pelúcia maior do que o próprio corpo e adormece em poucos segundos. “Nunca vimos uma resposta tão rápida do público a um procedimento de bastidor”, diz uma veterinária do local. “Em 48 horas, recebemos mais de 300 mensagens de pessoas querendo doar brinquedos e cobertores.”

Bem-estar ganha espaço no manejo da fauna

A adoção de pelúcias se insere em um movimento mais amplo, que coloca o bem-estar no centro da gestão da fauna cativa. Há dez anos, a preocupação dominante em muitos zoológicos ainda era garantir apenas alimentação adequada e espaço mínimo. Hoje, protocolos incluem estímulos ambientais, controle de estresse e acompanhamento comportamental desde o nascimento.

Filhotes rejeitados sempre representaram um desafio. Sem o calor e o cuidado materno, eles apresentam maior vulnerabilidade imunológica e taxas mais altas de mortalidade no primeiro mês de vida. Técnicos relatam que, em algumas espécies, até 30% dos filhotes sem mãe não resistem aos primeiros 15 dias, mesmo com alimentação artificial e incubadoras modernas. As pelúcias entram nesse ponto cego, tentando ocupar uma lacuna emocional que a tecnologia ainda não resolve.

Especialistas em comportamento animal veem a mudança como sinal de amadurecimento institucional. “Não se trata de humanizar o bicho, e sim de reconhecer que o vínculo e o toque são necessidades biológicas”, afirma uma pesquisadora de uma universidade pública, que acompanha projetos em ao menos três zoológicos desde 2022. Segundo ela, vídeos recentes ajudam a popularizar uma discussão que, até pouco tempo, ficava restrita a relatórios técnicos.

A repercussão também força respostas mais cuidadosas. Direções de zoológicos relatam aumento de questionamentos sobre o destino dos filhotes, sobre o uso de animais em exposição e sobre a responsabilidade de cada instituição com espécies ameaçadas. Em 2023, o Instituto Chico Mendes, órgão federal responsável pela fauna silvestre, registra crescimento de 20% no número de projetos ligados a bem-estar animal apresentados por instituições cativas. A tendência, avaliam fontes do setor, é que práticas como o uso de pelúcias passem a integrar normas internas e até manuais oficiais de manejo.

Pressão do público e próximos passos

O vídeo que viraliza funciona como vitrine para um trabalho que, em geral, acontece longe do público. Internamente, tratadores acompanham a reação com ambivalência. Por um lado, comemoram o interesse renovado pela rotina dos recintos. Por outro, temem que a prática seja vista como solução mágica em um cenário mais complexo, marcado por orçamentos apertados, falta de equipe e pressões políticas.

Instituições consultadas relatam que, nas últimas duas semanas, receberam ao menos uma dezena de pedidos de visita guiada específica para conhecer filhotes em manejo com pelúcia, algo que não é permitido por questões sanitárias. A situação obriga direções a reforçar a comunicação com o público, explicando limites e riscos. “A prioridade continua sendo o animal, não a foto para as redes”, resume um gestor.

A tendência é que a adoção de pelúcias se amplie nos próximos meses, acompanhada de estudos mais sistemáticos. Equipes já registram variações no ganho de peso diário, na frequência cardíaca e em marcadores de estresse, como níveis de cortisol, para comparar filhotes com e sem o recurso. Resultados preliminares, compartilhados informalmente entre técnicos, indicam melhora de até 20% em indicadores de sobrevivência nas primeiras semanas em alguns grupos.

O avanço abre uma disputa silenciosa por recursos e prioridades. Zoológicos com orçamento menor tentam adaptar a técnica com doações e improvisos, enquanto instituições maiores falam em encomendas padronizadas e protocolos nacionais. A pergunta que se impõe, diante de um filhote abraçado a um brinquedo de pano, é se o novo cuidado será exceção simpática para as redes sociais ou parte estável de uma política mais ampla de respeito à fauna sob responsabilidade humana.

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