Zico cobra profissionalismo de Neymar e vê saúde como obstáculo no Santos
Zico critica a postura profissional de Neymar e alerta para o impacto das seguidas lesões na carreira do atacante. Em entrevista à ESPN nesta quinta-feira (26), o ex-camisa 10 da seleção brasileira questiona a capacidade física do jogador de sustentar uma sequência mínima de jogos pelo Santos e pela equipe de Carlo Ancelotti.
Zico mira saúde e conduta de Neymar
O ídolo do Flamengo fala num momento em que Neymar tenta retomar espaço no Santos e vive a expectativa por uma vaga na seleção brasileira. A poucos meses da definição da lista para a Copa do Mundo, Zico afirma que o atacante não apresenta hoje o padrão de disciplina exigido para uma virada de carreira.
“Depende como o Neymar estiver. Coloca ele para jogar 10 jogos seguidos no Santos e aí pode fazer avaliação. Mas nos últimos dois ou três anos, qual foi o período que ele jogou essa quantidade de jogos? Não teve. Esse é o problema, é a saúde dele”, diz Zico, ao resumir a preocupação central com o camisa 10 de 32 anos.
O ex-jogador cita o histórico recente de contusões e a dificuldade do atacante em manter uma rotina básica de partidas. O recado atinge diretamente o planejamento do Santos, que monta um cronograma específico para utilizar Neymar em 2026 e, ao mesmo tempo, protegê-lo fisicamente de novos problemas musculares e nas articulações.
“Eu quero que ele se recupere e jogue, sou fã, Deus deu um talento para ele que deu para poucos. Nesse mundo que estou falando, é o Messi, Cristiano Ronaldo e o Neymar. São os três. Mas os outros dois são tremendos profissionais. Ele não estava sendo”, afirma Zico, ao comparar o brasileiro com os rivais de geração.
Santos em alerta e seleção em dúvida
O Santos volta a campo na próxima quinta-feira (2), contra o Remo, na Vila Belmiro, e trabalha com a possibilidade de escalar Neymar no CT Rei Pelé projeta-se uma presença controlada em campo, de olho na resposta física do jogador. Internamente, o clube admite que ainda não vê condições para uma sequência pesada de partidas em curto intervalo.
A cobrança pública de Zico adiciona pressão a esse cenário. Quando o ex-camisa 10 fala em “10 jogos seguidos”, ele aponta para um patamar mínimo de regularidade que Neymar não atinge há pelo menos duas temporadas completas. Entre 2023 e 2025, o atacante convive com lesões de joelho, tornozelo e problemas musculares que interrompem qualquer tentativa de continuidade.
“Contusões aumentaram. E agora são contusões simples, que ele protege de um lado, aí sente de outro. Muitas vezes a gente que passa por isso fica com receio de ir em uma bola mais forte, fica com receio”, explica Zico. O ídolo lembra a própria experiência, ao relatar que encerra a carreira por não conseguir mais treinar com intensidade por causa da panturrilha.
A avaliação resvala diretamente na seleção de Carlo Ancelotti. O italiano observa a situação à distância e precisa decidir, em poucos meses, se leva um craque historicamente decisivo, mas sem sequência consistente, para uma Copa do Mundo. A comissão técnica trabalha com dados objetivos de minutagem, distância percorrida em campo e carga semanal de treinos, indicadores hoje afetados pelo calendário irregular de Neymar.
O debate vai além da medicina esportiva. Quando Zico diz que “de um certo tempo para cá, ele não soube usufruir” do que o futebol oferece, ele aponta para escolhas pessoais, rotina de treinos, descanso e foco competitivo. A crítica pesa mais porque vem de um jogador que constrói carreira longa, com mais de 20 anos como profissional, e que vira referência de profissionalismo para gerações posteriores.
Carreira em encruzilhada e próximos passos
A fala de Zico realça uma encruzilhada clara. De um lado, Neymar ainda carrega o status de maior talento brasileiro desde a década passada, ídolo do Santos e protagonista da seleção por mais de 10 anos. De outro, enfrenta um corpo que já não responde como aos 20 anos e uma confiança abalada pela falta de minutos em campo.
No Santos, dirigentes e comissão técnica consideram que a temporada de 2026 pode definir o peso do craque no clube nas próximas campanhas. Um Neymar capaz de atuar 60% a 70% dos jogos oficiais do ano em bom nível físico recoloca o time em outro patamar esportivo e financeiro. Um Neymar limitado a aparições esporádicas, porém, mantém o clube sob um custo alto e retorno esportivo incerto.
Na seleção, a equação é parecida. Ancelotti precisa equilibrar a memória do jogador que decide mata-matas de Copa com a realidade de um atleta que, segundo Zico, não sustenta 10 partidas seguidas. A opção por convocá-lo ou não deixa de ser apenas técnica e passa a ser estratégica, com impacto sobre o entrosamento e a hierarquia do elenco.
O próprio Neymar entra em campo contra o Remo com mais em jogo do que apenas a classificação do Santos. Cada minuto em campo, cada arrancada, cada dividida forte funciona como teste público para torcedores, dirigentes e para o treinador da seleção. O ciclo de 2026 pode marcar o renascimento competitivo do camisa 10 ou consolidar a imagem de um craque que não consegue mais vencer o relógio do próprio corpo.
A crítica de Zico, atualizada nesta quinta-feira (26), abre um debate que não se encerra no placar da próxima rodada. A resposta virá nos próximos meses, na soma fria de jogos disputados, minutos em campo e decisões tomadas sob pressão. Neymar ainda terá tempo e corpo para provar que continua no grupo de Messi e Cristiano Ronaldo ou aceitará que a carreira entrou em ritmo de despedida precoce?
