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Zema usa vídeo com IA para ironizar desfile de escola pró‑Lula

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), divulga nesta quinta-feira (12/2/2026) um vídeo feito com inteligência artificial que ironiza o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), marcado para 15 de fevereiro na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. A peça simula um samba-enredo que resgata escândalos envolvendo governos do petista e reacende a disputa sobre o limite entre liberdade de expressão, propaganda eleitoral antecipada e politização do carnaval.

Vídeo resgata escândalos e transforma Lula em personagem de sátira

Zema, que se apresenta como pré-candidato à Presidência em 2026, aposta no humor corrosivo para entrar no debate sobre o desfile que homenageia Lula. O governador publica o vídeo em suas redes sociais a três dias da passagem da Acadêmicos de Niterói pelo Sambódromo e conecta a festa à disputa eleitoral que começa a tomar forma.

O vídeo, produzido com recursos de inteligência artificial, simula um desfile de escola de samba com carros alegóricos digitais, bateria e componentes virtuais. No centro da narrativa aparece um Lula caricaturado como churrasqueiro, de avental, cercado por fumaça de churrasqueira e bandejas de carne. A trilha é um falso samba-enredo, criado por IA, que mistura referências à biografia do presidente com acusações que marcaram seus governos.

“E se o Lula recebesse uma homenagem sincera nesse carnaval? Seria mais ou menos assim…”, escreve Zema na legenda que acompanha o vídeo. A frase funciona como convite e provocação ao mesmo tempo, numa tentativa de virar pelo avesso o enredo niteroiense, que promete exaltar a trajetória política do petista na avenida.

Nos versos projetados no vídeo, o texto fala de “propina correndo solta” e menciona o “petrolão” como marco de corrupção na Petrobras. Em outro trecho, a narrativa afirma que “Petrobras sangrando forte, o Brasil que pagou” e associa diretamente os desvios à figura de Lula, absolvido ou com processos anulados em decisões posteriores do Supremo Tribunal Federal, mas ainda alvo recorrente de ataques de adversários.

A montagem também cita o mensalão e desvios em aposentadorias de beneficiários do INSS, num resumo de casos que dominaram o noticiário político a partir de 2005 e se estenderam pela década seguinte. No momento mais irônico, o roteiro digital emula uma ala de foliões perguntando: “Cadê minha picanha, que disseram que ia ter?”, numa referência à promessa de campanha de 2022, quando Lula afirma que o brasileiro voltaria a comer carne nobre com mais frequência.

Carnaval vira palco de disputa antecipada de 2026

A reação de Zema ocorre em meio à polêmica sobre a homenagem da Acadêmicos de Niterói, escola do Grupo Especial do Rio, a Lula. Setores da oposição acusam o enredo de servir como propaganda eleitoral antecipada para o presidente, a menos de nove meses do início oficial da campanha de 2026. Partidos e entidades ingressam com ações na Justiça Eleitoral para tentar barrar o desfile, mas até agora os pedidos são rejeitados.

A decisão judicial mantém o desfile programado para 15 de fevereiro, na Marquês de Sapucaí, e abre espaço para que a avenida se converta em vitrine política em pleno carnaval. A escola niteroiense promete um enredo biográfico, com passagens pela infância do petista no agreste pernambucano, a migração para São Paulo, a fundação do PT e as três eleições presidenciais vencidas por Lula.

Ao entrar nesse debate com um vídeo de alta circulação, Zema busca colar sua imagem à principal voz oposicionista ao presidente entre os nomes já postos para 2026. A estratégia mira o público que acompanha a cobertura do carnaval e, ao mesmo tempo, consome conteúdo político em redes sociais. O vídeo viraliza em poucas horas, acumula milhares de compartilhamentos e impulsiona discussões sobre o uso de IA como arma de disputa simbólica.

Especialistas em direito eleitoral ouvidos por partidos de oposição afirmam que o caso da Acadêmicos de Niterói testa, na prática, os limites entre manifestação artística e propaganda antecipada. No entendimento predominante na Justiça, manifestações culturais podem exaltar figuras públicas, desde que não tragam pedido explícito de voto, nem números de legenda ou slogans de campanha. É essa linha tênue que embasa as decisões que liberam o desfile, apesar das tentativas de suspensão.

Para aliados de Lula, o vídeo de Zema é mais um capítulo de uma escalada de ataques personalistas travestidos de humor político. Para apoiadores do governador mineiro, trata-se de resposta proporcional a um carnaval que, em sua leitura, já se encontra “capturado” por um projeto de poder. A disputa reforça o ambiente de polarização que marca a cena nacional desde 2014 e que volta a se intensificar às vésperas de mais uma eleição presidencial.

Debate sobre IA, liberdade de expressão e próximos movimentos

A peça divulgada por Zema expõe um novo flanco de preocupação para as instituições: o uso de inteligência artificial em campanhas ainda informais. Diferentemente de montagens amadoras, vídeos desse tipo exploram realismo visual, voz sintética e narrativa envolvente em poucos minutos, o que amplia o alcance e a capacidade de moldar percepções. A ausência de regras específicas para conteúdos gerados por IA em pré-campanha deixa brechas que partidos e pré-candidatos começam a explorar.

Juristas e pesquisadores em desinformação alertam que, em 2026, a combinação de IA acessível, redes sociais e ambiente polarizado pode pressionar ainda mais o sistema eleitoral. Órgãos de controle já discutem medidas de transparência, como selos de identificação para conteúdos artificiais e exigência de aviso explícito ao público. A experiência internacional mostra que, sem regulação mínima, deepfakes e vídeos satíricos podem cruzar rapidamente a linha entre crítica legítima e manipulação.

O episódio também reacende o debate sobre a natureza política do carnaval brasileiro. Desfiles com enredos de forte teor social ou partidário se multiplicam desde a redemocratização, nos anos 1980, e, com as redes, ganham outra dimensão. A diferença agora é a presença de um pré-candidato declarado, como Zema, que se apropria de uma narrativa de escola de samba para projetar seu discurso em escala nacional antes mesmo da largada oficial.

Nos bastidores, aliados do governador avaliam manter a estratégia de vídeos críticos produzidos com IA ao longo de 2026, calibrando o tom conforme a resposta do público e eventuais decisões da Justiça. O entorno de Lula, por sua vez, monitora o impacto da sátira sobre a imagem do presidente e tenta transformar o desfile da Acadêmicos de Niterói em demonstração de força, com presença de lideranças do PT e de movimentos sociais nas arquibancadas da Sapucaí.

Os próximos dias indicam se o embate se mantém restrito ao campo simbólico ou se transborda para novas ações judiciais e iniciativas no Congresso, em busca de regras mais claras para o uso de inteligência artificial na política. Enquanto o samba ainda não entra na avenida, a disputa por narrativa já ocupa o espaço que, até pouco tempo atrás, pertencia quase exclusivamente à fantasia e à bateria.

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