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Zelensky diz que Ucrânia vencerá guerra e chama conflito de Terceira Guerra Mundial

Às vésperas de a guerra na Ucrânia completar quatro anos, Volodymyr Zelensky afirma, em Kiev, que o país não está perdendo o conflito e que sairá vitorioso, rejeitando concessões territoriais à Rússia e descrevendo a ofensiva de Vladimir Putin como o início de uma Terceira Guerra Mundial.

Zelensky endurece o discurso em Kiev

O presidente ucraniano recebe a reportagem na sede fortificada do governo, em uma área abastada do centro de Kiev. Circula cercado por verificações de segurança que lembram, a cada porta, que é alvo declarado do Kremlin desde 24 de fevereiro de 2022, quando a invasão em larga escala começa. Ainda assim, fala em tom firme e, por vezes, quase didático.

Zelensky descarta qualquer leitura de que a Ucrânia estaria à beira da derrota ou condenada a ceder. “Vamos perder? Claro que não, porque estamos lutando pela independência da Ucrânia”, diz, sentado diante de uma bandeira nacional marcada pelo desgaste de quase 1.500 dias de guerra. Para ele, aceitar um cessar-fogo que implique entregar áreas ocupadas pela Rússia significaria muito mais do que traçar uma nova linha no mapa.

O presidente reage, em particular, à exigência russa de que Kiev abandone cerca de 20% da região oriental de Donetsk que ainda controla, uma faixa de cidades que o Exército chama de “cidades-fortaleza”, além de porções adicionais de Kherson e Zaporizhzhia, no sul. “Vejo de outra forma. Não encaro isso simplesmente como terra. Vejo como abandono — enfraquecendo nossas posições, abandonando centenas de milhares de nossos cidadãos que vivem ali”, afirma. “Tenho certeza de que essa ‘retirada’ dividiria nossa sociedade.”

A recusa vem na mesma semana em que Donald Trump, no segundo mandato na Casa Branca, insiste em que “a Ucrânia precisa se sentar à mesa rapidamente” nas negociações em Genebra. Para Zelensky, essa pressa, somada às sugestões de cessão territorial, reforça a impressão de que parte do Ocidente se prepara para administrar, e não conter, a ambição russa.

Da guerra local à ameaça global

Ao longo da conversa, Zelensky retorna várias vezes à ideia de que o conflito já extrapola as fronteiras de seu país. “Acredito que Putin já a começou”, afirma, ao falar em Terceira Guerra Mundial. “A questão é quanto território ele conseguirá tomar e como detê-lo… A Rússia quer impor ao mundo um modo de vida diferente e mudar as vidas que as pessoas escolheram para si.”

O presidente faz um cálculo político e militar ao rejeitar uma pausa em troca de território. Diz que uma concessão hoje “provavelmente” satisfaria Putin “por um tempo” e lhe daria a trégua desejada para recompor tropas e indústria bélica. “Nossos parceiros europeus dizem que isso poderia levar de três a cinco anos. Na minha opinião, ele poderia se recuperar em não mais do que um ou dois anos”, afirma. “Para onde iria depois? Não sabemos, mas que ele desejaria continuar [a guerra] é um fato.”

Essa leitura contrasta com o ceticismo de parte dos analistas militares no Ocidente, que, desde 2023, apontam o impasse nas linhas de frente, a escassez de munição e a superioridade numérica russa como sinais de que Kiev não conseguiria retomar todo o território perdido desde 2014, incluindo a Crimeia. Muitos veem, na prática, uma guerra de desgaste que poderá se arrastar por mais anos, com custos crescentes para a economia europeia e para os orçamentos de defesa dos Estados Unidos.

Zelensky não ignora o custo humano de uma ofensiva total. Calcula em milhões o número de vidas que poderiam ser perdidas em uma tentativa imediata de empurrar o Exército russo de volta às fronteiras que a Ucrânia tinha em 1991, após o fim da União Soviética. “O que é terra sem pessoas? Honestamente, nada”, diz. Assume, porém, essa fronteira como meta final. “Retornar às fronteiras justas de 1991, sem dúvida, não é apenas uma vitória, é justiça. A vitória da Ucrânia é a preservação da nossa independência, e uma vitória da justiça para o mundo inteiro é a devolução de todas as nossas terras.”

Pressão de Trump, armas e eleições em suspenso

A relação com Washington ocupa boa parte da entrevista. Há um ano, Zelensky sai da Casa Branca sob o que um diplomata descreve como um “linchamento diplomático” preparado por Trump e seu vice, J.D. Vance. Em frente às câmeras, o republicano encerra simbolicamente a era de apoio quase irrestrito que a Ucrânia recebe durante o governo Joe Biden. Desde então, a nova administração suspende a maior parte dos envios de armas, embora mantenha o fluxo de informações de inteligência, enquanto países europeus recorrem à indústria americana para continuar abastecendo Kiev.

A pressão agora assume outra forma. Trump cobra publicamente que a Ucrânia aceite concessões territoriais e realize eleições gerais até o verão de 2024, mesmo sob lei marcial. O argumento ecoa, em parte, o discurso russo de que Zelensky se torna um presidente ilegítimo ao adiar a votação. Ele rebate com irritação contida. “Eu não sou um ditador e não comecei a guerra, é isso”, responde, quando questionado sobre a acusação feita pelo americano.

Sobre a possibilidade de confiar em garantias de segurança dadas por Trump, Zelensky desloca o foco do indivíduo para as instituições. Diz que Kiev busca compromissos de longo prazo, de 30 anos, por exemplo, que só ganham solidez se aprovados pelo Congresso. “Não se trata apenas de presidentes. O Congresso é necessário. Porque presidentes mudam, mas instituições permanecem”, afirma. A mensagem, dirigida a republicanos e democratas, é clara: qualquer acordo que determine o futuro da Ucrânia precisa sobreviver a ciclos eleitorais.

As exigências americanas se cruzam com um impasse interno. As eleições previstas para 2024 não ocorrem por causa da lei marcial instaurada após a invasão russa. Zelensky sustenta que, tecnicamente, seria possível alterar a legislação e organizar o pleito, mesmo com milhões de ucranianos deslocados para o exterior e grandes áreas sob ocupação. Mas estabelece uma condição: garantias de segurança sólidas antes de levar o país às urnas. “Vocês precisam decidir uma coisa: querem se livrar de mim ou querem realizar eleições?”, relata ter dito aos parceiros ocidentais. Pede, ao menos, que qualquer votação seja reconhecida, primeiro, pelo próprio povo ucraniano.

Enquanto discute democracia e legitimidade, o presidente mantém a rotina de cobrar mais armas. O pedido mais recente busca licenças para produzir em solo ucraniano sistemas de defesa aérea de tecnologia americana, como os Patriot, e mísseis compatíveis com os equipamentos já recebidos. “Hoje a questão é a defesa aérea. Este é o problema mais difícil”, admite. “Infelizmente, nossos parceiros ainda não nos concedem licenças para produzir sistemas por conta própria… Até agora, não obtivemos sucesso nisso.” Sem esse salto, a Ucrânia continua dependente da capacidade dos aliados de financiar e repor estoques.

Um conflito longo e uma pergunta em aberto

À medida que a guerra se aproxima do quarto ano, o cansaço se espalha de forma desigual. Na Ucrânia, o apoio a Zelensky continua alto, apesar de escândalos de corrupção que derrubam auxiliares próximos no outono passado. Na Europa, governos enfrentam eleitores pressionados por inflação, energia cara e orçamentos de defesa inchados. Nos Estados Unidos, o Congresso discute, a cada pacote bilionário de ajuda, quanto tempo o país pode sustentar um conflito que muitos classificam como insolúvel no campo de batalha.

Zelensky encerra a entrevista em inglês, depois de quase todo o diálogo em ucraniano. Rejeita a ideia de uma guerra interminável, mas admite que o fim não depende de uma única decisão ou de uma linha no mapa. “Você está jogando xadrez com muitos líderes, não com a Rússia”, diz. “Não há um único caminho certo. É preciso escolher muitos passos paralelos, muitas direções paralelas. E uma dessas vias paralelas, acredito, trará sucesso. Para nós, sucesso é deter Putin.”

Questionado se acredita que o presidente russo realmente esteja disposto a encerrar a guerra, hesita por um instante. “Ele não quer, mas não querer não significa que não fará”, afirma. “Deus abençoe, teremos sucesso.” A frase ecoa na sala de conferências enquanto ele se levanta, posa para fotos, aperta as mãos da equipe e deixa o salão a passos largos. O conflito que ele agora chama de Terceira Guerra Mundial segue sem data para terminar, preso à mesma dúvida que paira sobre Kiev, Moscou, Washington e Bruxelas: quanto tempo o mundo estará disposto a pagar o preço dessa guerra.

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