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Zelensky diz que Putin já iniciou Terceira Guerra Mundial

Volodymyr Zelensky acusa Vladimir Putin de já ter iniciado uma Terceira Guerra Mundial e rejeita ceder territórios estratégicos à Rússia, em entrevista exibida nesta terça-feira (24) pela BBC, no Reino Unido. O presidente ucraniano condiciona qualquer negociação de paz à manutenção da integridade territorial do país e defende o aumento da pressão militar e econômica internacional contra Moscou.

Zelensky eleva o tom no quarto ano da guerra

A declaração de Zelensky ocorre no dia em que a guerra entre Rússia e Ucrânia completa quatro anos, sem perspectiva concreta de cessar-fogo. Do estúdio da BBC, em Londres, o presidente ucraniano mira não apenas o Kremlin, mas também as capitais ocidentais que começam a discutir abertamente fadiga de guerra e limites para o apoio militar a Kiev.

Ao falar em Terceira Guerra Mundial, Zelensky associa o confronto no leste europeu a uma disputa mais ampla sobre o futuro da ordem internacional. “Acredito que Putin já a começou. A questão é quanto território ele conseguirá tomar e como detê-lo. A Rússia quer impor ao mundo um modo de vida diferente e mudar as vidas que as pessoas escolheram para si”, afirma. O recado é dirigido a governos que ainda veem o conflito como uma guerra regional contida nas fronteiras da antiga União Soviética.

Recusa em ceder território trava qualquer trégua

Zelensky rejeita explicitamente um cessar-fogo que envolva a retirada de tropas ucranianas de áreas ainda sob controle de Kiev, mas reivindicadas por Moscou. A proposta, segundo ele, inclui cerca de 20% da região de Donetsk, no leste, além de partes das regiões estratégicas de Kherson e Zaporizhzhia, no sul, corredores fundamentais para abastecimento, energia e acesso ao Mar Negro e ao mar de Azov.

O presidente diz que aceitar esse arranjo significaria legitimar a ocupação russa e abandonar a população local. “Não encaro isso simplesmente como terra. Vejo como abandono, enfraquecendo nossas posições, abandonando centenas de milhares de nossos cidadãos que vivem ali. É assim que vejo. E tenho certeza de que essa ‘retirada’ dividiria nossa sociedade”, afirma. A recusa transforma a questão territorial no principal impasse das conversas de paz e reduz o espaço para fórmulas intermediárias de congelamento da linha de frente.

Quatro anos de guerra e saldo humano crescente

O prolongamento do conflito cobra um preço cada vez mais alto da população civil. Dados da ONU indicam cerca de 15 mil civis mortos e mais de 40 mil feridos desde 2022. Mais de 5 mil mulheres e meninas perdem a vida nesse período, enquanto outras 14 mil ficam feridas. O organismo alerta que os números podem estar subestimados, devido à dificuldade de acesso a áreas sob bombardeio constante.

Relatórios recentes apontam 2025 como o ano mais letal da guerra, com aumento de ataques contra áreas residenciais e o uso intensivo de armamentos de longo alcance. As tropas trocam projéteis em distâncias maiores, mas o efeito recai sobre bairros inteiros, hospitais e infraestrutura de energia. Cidades industrializadas do leste e portos estratégicos do sul seguem sob risco diário, o que força deslocamentos internos e mantém milhões de pessoas longe de casa.

Guerra de desgaste atinge também os exércitos

O custo militar expõe a dimensão da guerra de desgaste. Levantamento do CSIS, centro de estudos com sede em Washington, estima quase 1,2 milhão de baixas russas, incluindo cerca de 325 mil soldados mortos. Do lado ucraniano, as forças armadas acumulam aproximadamente 600 mil baixas, com 140 mil mortes em combate. As cifras, que não são confirmadas por Moscou nem por Kiev, sugerem a maior sangria militar em solo europeu desde 1945.

Os dados ajudam a entender por que Zelensky insiste em mais ajuda em armas, munição e sistemas de defesa antiaérea, enquanto Putin aposta em uma campanha longa, sustentada pela indústria bélica russa e por alianças com países como Irã e Coreia do Norte. A narrativa do presidente ucraniano tenta convencer aliados de que qualquer recuo agora encorajaria novas ofensivas russas em outros países da região e, possivelmente, da Otan.

Pressão econômica e diplomacia em campo

Ao defender mais sanções, Zelensky reforça a estratégia de estrangular a capacidade russa de financiar a guerra e adquirir tecnologia crítica. A União Europeia e os Estados Unidos já aplicam sucessivos pacotes de restrições desde 2022, que atingem bancos, exportações de energia e o setor de defesa. A Rússia adapta cadeias de suprimento, aproxima-se da China e de parceiros menores, mas enfrenta isolamento crescente em fóruns multilaterais e cortes em receitas de exportação.

Diplomaticamente, o conflito produz alinhamentos rígidos. Países do Leste Europeu, como Polônia e Estados bálticos, ecoam o alerta de Zelensky sobre uma ameaça existencial e pedem respostas mais duras da Otan. Governos da África, da Ásia e da América Latina cobram, em paralelo, negociações diretas entre Kiev e Moscou e criticam o efeito das sanções nos preços globais de alimentos e energia. A guerra deixa de ser apenas uma disputa territorial e passa a interferir em cadeias logísticas e na inflação em vários continentes.

Próximo encontro de paz ainda sem data

Zelensky afirma que um novo encontro de paz deve ocorrer possivelmente ainda neste mês, mas não apresenta data nem local definidos. A expectativa é de uma conferência com presença de potências ocidentais e países que se colocam como mediadores, como Suíça, Turquia e algumas nações do chamado Sul Global. A Rússia não sinaliza participação em qualquer fórum que parta do princípio da retirada de tropas de áreas ocupadas.

O impasse mantém aberta a principal pergunta desta quarta década pós-Guerra Fria: até onde vai a disposição de Moscou e do Ocidente de testar os limites um do outro em território ucraniano? A resposta, por enquanto, segue nas trincheiras congeladas do leste do país, nos salões de negociação na Europa e nas declarações calculadas de Kyiv e do Kremlin, que tentam moldar não só o fim da guerra, mas o desenho do mundo que virá depois dela.

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