Zelensky diz que Putin já iniciou a Terceira Guerra Mundial
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirma que Vladimir Putin já iniciou a Terceira Guerra Mundial ao invadir o país, em entrevista divulgada nesta terça-feira (24) pela BBC, no quarto aniversário da guerra.
Zelensky eleva o tom e rejeita concessões territoriais
Zelensky fala em um momento simbólico. Em 24 de fevereiro de 2022, as tropas russas cruzam as fronteiras ucranianas e abrem o maior conflito armado da Europa desde 1945. Quatro anos depois, o presidente ucraniano diz que o mundo já vive um confronto de escala global, mesmo sem a declaração formal de uma nova guerra mundial.
“Acredito que Putin já a começou. A questão é quanto território ele conseguirá tomar e como detê-lo”, afirma à BBC. Para Zelensky, o objetivo do Kremlin ultrapassa as fronteiras da Ucrânia. “A Rússia quer impor ao mundo um modo de vida diferente e mudar as vidas que as pessoas escolheram para si”, diz, ao defender uma combinação de pressão econômica e militar para conter Moscou.
O presidente ucraniano reitera que descarta qualquer cessar-fogo que exija retiradas de áreas estratégicas ainda sob controle de Kiev. A proposta, segundo ele, parte das condições impostas por Putin. O plano russo prevê que a Ucrânia abra mão de 20% da região oriental de Donetsk, além de trechos ocupados nas regiões de Kherson e Zaporizhzhia, no sul, que Moscou tenta consolidar desde os primeiros meses da ofensiva.
“Não encaro isso simplesmente como terra. Vejo como abandono, enfraquecendo nossas posições, abandonando centenas de milhares de nossos cidadãos que vivem ali”, afirma Zelensky. Ele diz ter certeza de que uma retirada ordenada para satisfazer a Rússia “dividiria a sociedade ucraniana” e criaria uma sensação de derrota mesmo sem o fim formal da guerra.
O presidente insiste em um objetivo que mantém desde o início da invasão: recuperar toda a área reconhecida internacionalmente como território ucraniano. Na entrevista, afirma que qualquer concessão adicional apenas adiaria o próximo movimento de Moscou. Nas palavras de Zelensky, ceder novas localidades satisfaria Putin “por um tempo”, mas o líder russo “não deve parar na Ucrânia”.
Conflito prolongado, saldo humano crescente e impacto global
O quarto ano da guerra começa sem perspectiva de trégua. As linhas de frente se movem pouco, mas o número de mortos e feridos continua a crescer. A ONU calcula cerca de 15 mil civis mortos e mais de 40 mil feridos desde 2022. Entre eles, mais de 5 mil são mulheres e meninas, e outras 14 mil sofreram algum tipo de ferimento, segundo os dados mais recentes da entidade.
O balanço militar é ainda mais pesado. Um levantamento do CSIS (Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais), sediado em Washington, estima que as forças russas somam quase 1,2 milhão de baixas, com cerca de 325 mil soldados mortos em combate ou por ferimentos. Do lado ucraniano, o estudo aponta aproximadamente 600 mil baixas, incluindo 140 mil militares mortos.
A escalada bélica ocorre enquanto a Rússia amplia ataques com mísseis de longo alcance e drones contra áreas residenciais, centrais elétricas e infraestrutura de transporte. A ONU afirma que 2025 é, até agora, o ano mais letal do conflito, com o aumento de ofensivas contra zonas urbanas e redutos industriais que sustentam o esforço de guerra ucraniano.
As consequências ultrapassam o campo de batalha. A guerra reorganiza cadeias de energia e agrava a insegurança alimentar em países dependentes de grãos ucranianos e fertilizantes russos. Sanções ocidentais pressionam a economia russa, mas também encarecem combustíveis e alimentos em diferentes regiões. Ao classificar o conflito como Terceira Guerra Mundial, Zelensky mira esse cenário ampliado e tenta reforçar a ideia de que a Ucrânia luta por uma ordem internacional mais ampla, não apenas por suas fronteiras.
Na prática, a retórica endurecida busca manter o fluxo de ajuda militar e financeira de aliados como Estados Unidos e países da União Europeia. A fala pode servir de argumento para novas rodadas de sanções e para o envio de armamentos de maior alcance, vistos por Kiev como essenciais para impedir avanços russos e recuperar cidades ocupadas.
Negociações, impasse estratégico e o que vem a seguir
Zelensky afirma que um novo encontro internacional sobre a paz na Ucrânia deve ocorrer ainda neste mês, sem data definida. A expectativa é reunir países europeus, aliados do bloco ocidental e nações que se colocam como mediadoras para discutir caminhos diplomáticos. O governo ucraniano, porém, repete que não aceita negociar sobre a base de perdas territoriais permanentes.
O Kremlin, por sua vez, mantém a exigência de controle sobre as quatro regiões ucranianas que declarou anexadas em 2022: Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia. A distância entre as posições das duas partes transforma cada tentativa de diálogo em um exercício de pressão pública mais do que em uma negociação substantiva. A declaração de que a Terceira Guerra Mundial já começou tende a reforçar a narrativa de Moscou de que enfrenta não apenas a Ucrânia, mas todo o Ocidente.
Na frente interna, Zelensky tenta equilibrar o desgaste da guerra prolongada com a necessidade de mostrar que o sacrifício de milhares de soldados e civis não é em vão. A recusa em aceitar um cessar-fogo que congele as linhas atuais responde também ao temor de ver o país se fragmentar politicamente caso parte do território seja formalmente entregue à Rússia.
O quarto ano do conflito se abre, assim, em uma encruzilhada. O campo de batalha se estabiliza, mas o vocabulário político escala. A acusação de que Putin já desencadeia uma nova guerra mundial pressiona aliados, provoca rivais e lança uma pergunta incômoda para capitais de todo o planeta: até onde o mundo está disposto a ir para encerrar uma guerra que, segundo o presidente ucraniano, já ultrapassa as fronteiras do próprio continente?
