Zelensky critica alívio dos EUA a sanções e venda de petróleo russo
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e líderes europeus criticam nesta sexta-feira (13) a decisão dos Estados Unidos de relaxar temporariamente sanções que travavam a venda de petróleo russo parado em navios. A medida, apresentada por Washington como resposta emergencial à alta do petróleo após a guerra no Irã, reacende o temor de erosão da frente econômica contra Moscou.
Pressão por energia mais barata divide aliados
A Casa Branca libera, por tempo limitado, transações para escoar carregamentos de petróleo russo que estavam bloqueados em alto-mar desde o endurecimento das sanções. Autoridades americanas afirmam, em reuniões reservadas com parceiros europeus, que a decisão busca estabilizar o barril, que volta a flertar com a marca de US$ 120 após novos ataques na região do Golfo Pérsico. A guerra entre o Irã e países rivais, iniciada no fim de 2025, pressiona estoques, rotas marítimas e seguros de transporte, o que encarece cada novo carregamento.
Zelensky reage em discursos em Kiev e por videoconferência com parlamentos europeus. O presidente ucraniano afirma que qualquer respiro à receita energética russa “prolonga a guerra” e envia um sinal perigoso ao Kremlin. Líderes em capitais como Varsóvia, Vilnius e Praga ecoam a crítica e defendem que o impacto de curto prazo na bomba de combustível não pode se sobrepor à estratégia de sufocar o caixa de Moscou. Em Bruxelas, diplomatas descrevem “mal-estar visível” com Washington, embora reconheçam que governos europeus também sofrem pressão interna para reduzir custos de energia às vésperas do inverno no hemisfério norte.
Coalizão contra Moscou testa seus limites
Desde a invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o petróleo e o gás russos se tornam alvo central de sanções coordenadas. A União Europeia impõe embargos graduais e tetos de preço, enquanto os EUA ampliam restrições financeiras e seguradoras. Essa estratégia reduz, ao longo de 2023 e 2024, parte da receita de exportações da Rússia, embora Moscou encontre rotas alternativas pela Ásia. O relaxamento atual, focado em cargas já contratadas e paradas em navios, abre uma exceção que preocupa quem vê na coerência das medidas a principal arma do Ocidente.
Zelensky tenta enquadrar a decisão americana como um teste de credibilidade. Em um de seus discursos, o presidente diz que “cada barril russo vendido hoje se converte em projétil contra cidades ucranianas amanhã”. Assessores em Kiev temem que outros países aproveitem a brecha para defender renovações sucessivas do alívio, transformando o que é apresentado como excepcional em prática recorrente. No Parlamento Europeu, eurodeputados de bancadas verdes e liberais cobram datas claras: querem prazo máximo de 90 dias para o mecanismo e revisão mensal dos volumes liberados.
Em Washington, integrantes do governo dizem ver o gesto como calibrado. A autorização temporária se concentra em petróleo já produzido, avaliado em dezenas de milhões de barris que estão ancorados em portos ou em trânsito, segundo fontes do setor. O objetivo é aliviar o choque imediato de oferta, sem desmontar o arcabouço de sanções financeiras e tecnológicas em vigor desde 2022. Ainda assim, analistas lembram que mercados reagem a sinais políticos e que qualquer mostra de flexibilidade pode ser explorada por Moscou para pressionar por novos recuos ocidentais.
Mercado de energia e diplomacia entram em rota delicada
As primeiras reações aparecem nas bolsas de energia. Após rumores sobre o alívio, contratos futuros de petróleo recuam em torno de 5% em Londres e Nova York em dois dias de pregão. A queda afrouxa parte da pressão sobre governos que enfrentam aumentos de até 30% nas contas de luz em grandes capitais europeias desde o início da guerra no Irã. Empresas aéreas e de transporte de carga, que vinham revendo rotas e cortando voos, calculam economia relevante se o barril permanecer abaixo de US$ 110 por algumas semanas.
Do outro lado, a perspectiva de novas divisas para a Rússia acende alerta em Kiev e em países da linha de frente da Otan. Cada US$ 10 a mais por barril, mantidos por um ano, pode significar dezenas de bilhões de dólares adicionais à economia russa, segundo estimativas de casas de análise europeias. Esse fôlego ajuda Moscou a financiar importações militares e a adaptar sua indústria à guerra prolongada. Para governos que apostaram na estratégia de estrangulamento econômico, a flexibilização soa como recuo às vésperas de negociações sensíveis sobre novos pacotes de apoio militar à Ucrânia.
O Kremlin evita comentários públicos detalhados, mas veículos estatais celebram a decisão americana como reconhecimento de que o Ocidente “não pode viver sem energia russa”. Em bastidores, diplomatas europeus temem que essa narrativa ganhe corpo em países do Sul Global, onde Moscou tenta se apresentar como fornecedor confiável frente à volatilidade do Golfo. A mudança no tabuleiro energético pode aproximar ainda mais Rússia e Irã, apesar da guerra, na tentativa de influenciar preços e rotas alternativas de exportação.
Próxima rodada de decisões expõe fissuras
Governos da União Europeia discutem, nas próximas semanas, se acompanham o gesto americano ou se mantêm barreiras rígidas ao petróleo russo por mar. Alguns defendem um modelo intermediário, que autorize apenas a revenda de cargas já em deslocamento sob tetos de preço mais baixos, algo em torno de US$ 50 o barril. Outros países, mais dependentes de diesel e gás importados, pressionam por maior flexibilidade, com argumento de que um inverno rigoroso pode custar capital político e alimentar populismos pró-Rússia.
Zelensky tenta usar o momento para reforçar o apelo por novas sanções em outras frentes, como tecnologia militar e metais estratégicos. Assessores defendem que o apoio à Ucrânia precisa ser medido não só em pacotes de ajuda, que já somam centenas de bilhões de dólares desde 2022, mas também na disposição de sustentar custos econômicos domésticos. A próxima reunião de cúpula entre EUA, União Europeia e aliados da Otan, prevista para os próximos meses, deve mostrar até que ponto a coalizão está disposta a pagar mais caro pela energia para manter a pressão máxima sobre Moscou. A dúvida que permanece é se a necessidade de conter preços hoje não acaba comprando, a um custo maior, mais anos de guerra amanhã.
